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Chauí: neoliberalismo gera ódio e violência

O neoliberalismo degradou tudo!

O desabafo é da filósofa Marilena Chauí. Em palestra na Casa do Saber, ela descreve as transformações no capitalismo que levaram à devastação de países, ao encolhimento do espaço público, à precarização e fragmentação do trabalho e ao culto da ideia do “empresário de si mesmo” –e outras tantas mudanças que acabam servindo para apunhalar o coração da democracia.

“Desde a maternidade até a entrada no mercado de trabalho, o indivíduo é treinado para ser um investimento bem-sucedido. Como consequência disso, decorre, de um lado, o surgimento de uma subjetividade narcisista, portanto, propensa à depressão. O narcisismo produz a depressão. E não é por acaso que a depressão é a doença da sociedade contemporânea.

“E, de outro, a enculcação da culpa naqueles que não vencem a competição, desencadeando ódios, ressentimentos e violências de todo tipo, particularmente contra imigrantes, migrantes, negros, índios, mendigos, LGBT, destroçando a percepção de si como membro ou parte de uma classe social e destruindo formas de solidariedade, desencadeando práticas fascistas de extermínio”, afirma.

Na palestra, Chauí fala de totalitarismo e neoliberalismo. Do capitalismo total. Do mundo da fantasmagoria em que vivemos Da compressão do espaço e do tempo nos dias atuais, da perda da autonomia da cultura. Da judicialização da política –consequência e não causa da situação atual–, da operação Lava Jato. De meritocracia, de fundamentalismo religioso. Do neocalvinismo:

“O que é a meritocracia? Não é só que eu tenho tudo isso por meu mérito. Mas eu tenho tudo isto porque deus reconhece o meu mérito. Eu sei que é triste no começo do século XXI você retomar o pensamento do final do século XV, começo do século XVI. Eu sei que é duro fazer isso. Esse apogeu desse pensamento nos meados do século XVII. Eu sei que é muito duro. Mas é isso. Nós temos um neocalvinismo que legitima a fragmentação, a dispersão, a terceirização, o esmigalhamento de uma classe social, que se vê agora como o indivíduo”.

Em outro trecho afirma:

“Muitos pensam que o fundamentalismo religioso é um contrassenso diante da proposta da racionalidade tecnológica, técnica, científica do neoliberalismo. O neoliberalismo é esse ponto de culminância da presença da ciência e da técnica num mundo. E aparece, então, como um contrassenso que ele traga, ele seja contemporâneo das várias formas de fundamentalismo religioso.

“Não tem nenhuma contradição. Tudo que ele esvaziou na realidade, ao transformá-la em simulacro de si mesma, ele repõe com a profundidade da esperança religiosa. Do mesmo jeito. Nós estamos diante, do mesmo modo que a judicialização da política não é um acidente, mas é constitutiva da privatização, do fato de o Estado ser concebido como uma empresa, e da política ser concebida como uma gestão empresarial, que você judicializa.

“Da mesma maneira, a partir do momento em que você totaliza o espaço, sem distância, totaliza o tempo, sem memória e sem porvir. Totaliza o dentro, o fora, o corpo, as imagens, tudo. Nessa trama que engole, de uma só vez o espírito de cada um, onde você vai reencontrar o espírito? Nessa forma de religião”.

TUTAMÉIA acompanhou a palestra, no final de março, e publica aqui alguns trechos. Agradecemos o trabalho de Laura Lucena, essencial para que essa publicação fosse possível, e a colaboração do artista gráfico Fernando Carvall, autor da ilustração que retrata Chauí.

TOTALITARISMO E NEOLIBERALISMO

A economia política neoliberal nasceu com um grupo de economistas, cientistas políticos e filósofos que, em 1947, se reuniu em Mont Saint Pèlerin, na Suíça, à volta do austríaco Friedrich von Hayek e do estadunidense Milton Friedman. Esse grupo opunha-se encarnecidamente contra o surgimento do Estado do bem-estar social de estilo keynesiano e social democrata contra a política norte-americana do New Deal.

Navegando contra a corrente das décadas de 1950 e 1960, o grupo elaborou um detalhado projeto econômico e político no qual ele atacava aquilo que ele chamava de estado providência, com seus encargos sociais e com a função de regulador das atividades do mercado. O grupo afirmava que esse tipo de estado destruía a liberdade dos indivíduos e a competição, sem a qual não há prosperidade.

As ideias desse grupo permaneceram letra morta até a crise capitalista do início dos anos 1970, quando o capitalismo conheceu, pela primeira vez, um tipo de situação imprevisível. Isto é: baixas taxas de crescimento econômico e altas taxas de inflação –a famosa estagflação.

O grupo de Saint Pèrerin passou, então, a ser ouvido com respeito, porque ele parecia oferecer a suposta explicação para a crise. Essa crise, eles diziam, fora causada pelo poder excessivo dos sindicatos e dos movimentos operários, que haviam pressionado por aumentos salariais e exigido o aumento dos encargos sociais do Estado. Teriam, dessa maneira, operários e sindicatos destruído os níveis de lucros requeridos pelas empresas e desencadeado processos inflacionários incontroláveis.

Feito esse diagnóstico, o grupo propôs o remédio.

1. Um Estado forte para quebrar o poder dos sindicatos e dos movimentos operários para controlar os dinheiros públicos e cortar drasticamente os encargos sociais e os investimentos na economia. 2. Um Estado cuja meta principal deveria ser a estabilidade monetária, contendo os gastos sociais e restaurando a taxa de desemprego necessária para formar um exército industrial de reserva que quebrasse o poderio dos sindicatos.

3. Um Estado que realizasse uma reforma fiscal para incentivar os investimentos privados e que, portanto, reduzisse os impostos sobre o capital e as fortunas, aumentando os impostos sobre a renda individual, portanto, sobre o trabalho.

4. Um Estado que se afastasse da regulação da economia, deixando que o próprio mercado, com a sua racionalidade própria, operasse a desregulação. Em outras palavras: abolição dos investimentos estatais na produção, abolição do controle estatal sobre o fluxo financeiro, drástica legislação antigreve, vasto programa de privatização. O modelo foi aplicado primeiro no Chile de Pinochet, depois na Inglaterra, com Thatcher, depois nos EUA, com Reagan, expandindo-se para todo o mundo capitalista, inicialmente, com exceção dos países asiáticos. E depois, com a queda do Muro de Berlim, para o Leste Europeu.

A ECONOMIA DO ESTADO DO BEM-ESTAR SOCIAL

Para compreendermos essa política nós precisamos compreender o léxico necessário entre a forma anterior do Estado, o Estado do bem-estar social e a nova forma que o neoliberalismo passou a implantar.

A economia política que sustentava o estado do bem-estar social possuía, de uma maneira grosseira, três características principais.

Primeiro, o fordismo na produção. Isto é: as grandes plantas industriais que realizavam a atividade econômica desde a coleta e produção da matéria prima até a sua distribuição no mercado de bens de consumo, controlando, por meio do planejamento e da chamada gerência científica, a organização do trabalho, a produção de grandes estoques, com produtos vinculados à ideia de qualidade e durabilidade e o controle dos preços.

Segundo. A inclusão crescente dos indivíduos no mercado de trabalho, orientando-se pela ideia de pleno emprego.

Terceiro. Monopólios e oligopólios, que embora transnacionais ou multinacionais, tinham como referência reguladora o estado nacional.

Para que essa economia realizasse o bem-estar social, foi preciso que o estado interviesse nela como regulador e como parceiro. E isso foi feito pela criação do fundo público. Foram as contradições geradas pelo fundo público que, segundo Francisco de Oliveira, levaram ao que veio se chamar de a crise fiscal do estado, ou o colapso da modernização.

O que é o fundo público? O fundo público opera de duas maneiras principais. Primeiro, pelo financiamento simultâneo da acumulação do capital –os gastos públicos com a produção–, desde subsídios para a agricultura, a indústria, o comércio, até subsídios para ciência e tecnologia, formando amplos setores produtivos estatais que desaguaram naquilo que depois ficou conhecido como o complexo militar-industrial, e valorização financeira do capital por meio da dívida pública. Segundo. Pelo financiamento da reprodução da força de trabalho. Financiamento do capital, mas também, simultaneamente, financiamento da reprodução da força de trabalho. Alcançando toda a população por meio dos gastos sociais: educação gratuita, medicina socializada, previdência social, seguro desemprego, subsídios para transporte alimentação e habitação, subsídios para cultura e lazer, salário família, salário desemprego e etc.

Em suma, o estado do bem-estar, introduziu a república entendida como gestão dos fundos públicos, os quais se tornam a pré-condição da acumulação e reprodução do capital, portanto, da formação da taxa de lucro, e da reprodução da força de trabalho por meio das despesas sociais.

A ação desse duplo financiamento realizado pelo estado –o do capital e o da força de trabalho—gerou um segundo salário para a classe trabalhadora, um salário indireto, ao lado do salário direto. Ou seja, o salário direto é aquele pago privadamente ao trabalho. O salário indireto é aquele pago publicamente aos cidadãos para a reprodução de sua força de trabalho. Ou seja: educação gratuita, medicina socializada, previdência social, subsídio para a habitação, transporte. Tudo isso vai formar o salário indireto. Então a classe trabalhadora passa, no seu todo…

Parênteses. Fui mudar o meu bilhete de avião na TAM e eu perguntei para uma pessoa no aeroporto onde eu deveria ir. E ele respondeu: os colaboradores estão lá. E eu fui lá e as moças e os rapazes estavam no balcão como sempre. Eu voltei para casa e pensei: engraçado. E já tinha ficado encucada desde o final dos anos 1980 e nos 1980 quando, em vez de você falar “operário” ou “empregado” no terceiro setor surgiu a palavra “funcionário”. No meu vocabulário, funcionário era eu, funcionário público. Você tem operário, empregado, profissional liberal e funcionário. Virou tudo funcionário. Ou seja: você apaga a ideia de que tem trabalho, de que tem operário, de que tem emprego. Você apaga isso. Funcionário. Mas agora ficou mais requintado, porque não é nem mais funcionário: agora é colaborador! E eu vou falar disso no final, quando vou falar do que aconteceu com a cabeça da classe trabalhadora. A nova classe trabalhadora com essa brincadeira do colaborador e do empresário de si mesmo. Fecha parênteses.

COLAPSO DA MODERNIZAÇÃO E NEOLIBERALISMO

Voltando. Salário direto e salário indireto. O resultado desse duplo salário foi o aumento da capacidade de consumo das classes sociais. Particularmente da classe média e da classe trabalhadora. Ou seja: nasce para valer o consumo de massa.

Nesse processo, o estado se endividou e entrou num processo de dívida pública conhecido como déficit fiscal. Ou crise fiscal do estado. A isso se deve acrescentar o momento crucial em que a crise acontece. Ou seja: o instante da internacionalização oligopólica da produção e da finança. Por quê?

Porque os oligopólios multinacionais não enviavam –agora a situação toda mudou— aos seus países de origem os ganhos obtidos fora das suas fronteiras. E, portanto, eles não alimentavam o fundo público nacional, que deve continuar financiando o capital e a força de trabalho. Assim, o colapso da modernização está na origem da aplicação da economia e da política neoliberais.

Com a sua presença sob a forma do salário indireto, o fundo público desatou o laço que prendia o capital à força de trabalho por meio do salário direto. Ou seja, essa amarra entre o capital e o salário era aquilo que fazia com que a inovação técnica pelo capital fosse sempre uma reação ao aumento real do salário.

Ou seja, a maneira de coibir o aumento real do salário era o recurso ao desenvolvimento tecnológico, mas ao mesmo tempo, dada a força da organização sindical, dos movimentos operários, tudo isso que o estado do bem-estar social trouxe, dado tudo isso, o salário direto, impunha um freio também na aplicação tecnológica por parte do capital.

CAPITAL PRECISA DA RIQUEZA PÚBLICA

O que acontece? Esse laço foi desfeito e levou o impulso à inovação tecnológica a se tornar praticamente ilimitado, provocando então a expansão dos investimentos e o agigantamento das forças produtivas, cuja liquidez impressionante, mas cujo o núcleo não é suficiente para concretizar todas as possibilidades tecnológicas que ela mesma abriu.

Por isso, o capital precisa da parcela da riqueza pública para realizar o seu investimento em tecnologia. Ou seja, o capital precisa do fundo público na qualidade de financiador da concretização da inovação tecnológica. Na verdade, é isso.

Como é que você justifica que o fundo público não vá mais para os investimentos sociais para os direitos sociais. Que vá para o capital? Você vai justificar isso através de toda a ideologia neoliberal. Ela está ali para fazer isso. Por isso mesmo, o capital precisa da grande parcela da riqueza pública, isto é, do fundo público, na qualidade de financiador da concretização do avanço tecnológico.

Assim, visto sob a perspectiva da luta política, o neoliberalismo não é de maneira nenhuma a crença na racionalidade do mercado, no enxugamento do Estado, e a desaparição do fundo público. Mas ele é a posição que decide cortar o fundo público no polo do financiamento dos bens e serviços públicos. Isto é, cortar o salário indireto. Reforma da previdência. Reforma trabalhista. Cortar o salário indireto. E maximizar o uso da riqueza pública nos investimentos exigidos pelo capital, cujos os lucros não são suficientes para cobrir todas as possibilidades tecnológicas que ele mesmo abriu.

NEOLIBERALISMO ENCOLHE ESPAÇO PUBLICO E ALARGA INTERESSES PRIVADOS

O que a economia neoliberal vem fazer é garantir que o Estado financie o capital, e não mais, simultaneamente, o capital e a força de trabalho. É isso que ele vem fazer. Não veio garantir a racionalidade do mercado, a liberdade de ter empresa, as competições, a prosperidade. Não é nada disso. Isso tudo é brincadeira ideológica. Ele veio garantir que o fundo público vá para o capital.

O capital dispensa e rejeita a presença estatal não só no mercado, mas também nas políticas sociais. De sorte que a privatização, tanto de empresas quanto dos serviços públicos se tornou estrutural. Ou seja, a privatização não é algo que acontece aqui ou ali. A privatização é constitutiva da concepção que se tem do papel do Estado.

Disso resulta que os direitos sociais, como pressupostos e garantia dos direitos civis e dos direitos políticos, tendem a desaparecer. Porque aquilo que era um direito se converte num serviço privado, regulado pelo mercado. E, portanto, torna-se uma mercadoria a qual tem acesso apenas os que têm poder aquisitivo para adquiri-la.

Numa palavra, o neoliberalismo é o encolhimento do espaço público dos direitos e o alargamento do espaço privado dos interesses de mercado.

DESEMPREGO ESTRUTURAL, FINANCEIRIZAÇÃO E FRAGMENTAÇÃO DA CLASSE TRABALHADORA

Nós podemos então agora caracterizar a nova forma do capital com um punhado de traços. Quais são as principais características da economia política neoliberal?

Primeiro. O desemprego se tornou estrutural, deixando de ser acidental ou expressão de uma crise conjuntural. Por quê? Porque a forma contemporânea do capitalismo, ao contrário da sua forma clássica, não opera por inclusão de toda a sociedade no mercado de trabalho e no mercado de consumo, mas opera por exclusão.

Essa exclusão se faz não só pela introdução da automação, mas também pela velocidade da rotatividade da mão-de-obra, que se torna desqualificada e obsoleta muito rapidamente, em decorrência da velocidade das mudanças tecnológicas. Como consequência tem-se a perda do poder dos sindicatos e o aumento da pobreza absoluta.

Dois. O monetarismo e o capital financeiro se tornam o coração e o centro nervoso do capitalismo, ampliando a desvalorização do trabalho produtivo e privilegiando a mais abstrata, a mais fetichizada de todas as mercadorias: o dinheiro. A moeda.

O poderio do capital financeiro determina diariamente as políticas dos vários estados, porque esses, sobretudo os do chamado Terceiro Mundo, dependem da vontade dos bancos e das financeiras de transferir periodicamente os recursos para um determinado país, abandonando outro. A famosa bolha.

Três. A terceirização, isto é, o aumento do setor de serviços tornou-se estrutural, deixando de ser um suplemento à produção. Porque agora a produção não mais se realiza na antiga forma fordista, com a qual eu comecei a minha exposição. Com a forma fordista, das grandes plantas industriais que concentravam todas as etapas da produção: da aquisição da matéria prima até a distribuição do produto.

Mas agora a produção opera por fragmentação e dispersão de todas as esferas e etapas da produção, com a compra de serviços no mundo inteiro. E com o abandono dos grandes estoques de longa duração, com durabilidade e qualidade, passando ao chamado just in time.

Como consequência, desaparecem todos os referenciais materiais que permitiam à classe operária perceber-se como classe e lutar como classe social, enfraquecendo-se ao se dispersar nas pequenas unidades terceirizadas, espalhadas pelo planeta. Você tem a fragmentação. A terceirização produz a fragmentação da classe trabalhadora, que não se vê mais a si mesma como classe, ela não tem como se perceber, porque os elementos materiais de que ela dispunha para se ver como classe foram retirados.

Quatro. A ciência e a tecnologia tornaram-se forças produtivas. Isto é, elas deixaram de ser um suporte do capital para se tornar agentes da acumulação do capital. Consequentemente, mudou o modo de inserção dos cientistas e dos técnicos na sociedade porque agora eles se tornaram agentes econômicos diretos. E a força e o poder do capital se encontram num monopólio do conhecimento e da informação.

‘PARCERIA’ É UNIVERSIDADE PÚBLICA FAZENDO SERVIÇO PARA EMPRESAS

Um pequeno parênteses. É uma coisa muito interessante. Na minha juventude uma das coisas que a gente discutia muito, estudantes e professores na universidade, era o famoso trabalho improdutivo. A gente ficava tão triste. Que tristeza! Nós estamos do lado do trabalho improdutivo! Não somos mais. Nós somos a grande força produtiva do capital. Somos nós. É a ciência e a técnica.

Antes você tinha o conhecimento científico, o conhecimento técnico, e depois a aplicação econômica, sobretudo feita pela indústria, desse conhecimento.

Agora não. Agora a ciência e a técnica fazem parte direta do processo produtivo. É por isso que, no caso das universidades, têm as famosas parcerias. A parceria com as empresas. O que é parceria de universidade com empresa? Mas não é parceria coisa nenhuma! Você vai fazer o serviço para a empresa a partir da universidade pública. É só isso. É isso que você vai fazer.

Mas não é só isso. O que você tem é o surgimento de uma coisa que o grupo do foucautianos na França trabalhou muito isso, e alguns autores americanos também, que é a ideia do trabalho imaterial. Porque não há materialidade nenhuma no saber científico e no saber técnico. E é essa imaterialidade desse trabalho que acumula e move o capital.

MUNDO DA FANTASMAGORIA

Hoje não vou fazer a análise da ideologia, mas dá para perceber porque no campo da ideologia nós vivemos hoje no mundo da fantasmagoria. Porque aquilo que de verdade é não aparece para nós. E aquilo que não é, é o que aparece. Então nós vivemos num mundo de simulacros de fantasmagoria, de ficção, em que nada é tal como aparece para nós.

E o caso da ciência e da tecnologia são formidáveis. Porque o cara se apresenta como cientista, se apresenta como técnico. Ele não é! Ele é um famoso trabalhador produtivo. Ele não é mais, ele não pertence mais a essa coisa estranhaíssima chamada classe média. Ele mudou de classe. Ele não sabe que ele mudou de classe. Não tem a menor ideia. Ele entrou para a classe operária. É isso que ele é. Ele produz mais valia.

Quinto. A transnacionalização da economia torna desnecessária a figura do Estado nacional forte como enclave territorial para o capital e dispensa as formas clássicas do imperialismo. Eu vou falar disso daqui a pouco. O coronealismo político-militar, a geopolítica das áreas de influência etc. De sorte que o centro econômico, jurídico e político planetário se encontra no FMI e no Banco Mundial. Esses operam com um único dogma que foi proposto pelo grupo fundador do neoliberalismo. Qual seja, estabilidade econômica e corte do déficit público.

DEVASTAÇÃO, OPULÊNCIA E MISÉRIA ABSOLUTAS

Sexto. A distinção entre países do primeiro e terceiro mundo tende a ser substituída pela existência em cada país de uma divisão entre bolsões de riqueza e opulência absolutas, e de miséria absoluta. Isto é, a polarização de classes aparece como a polarização entre a riqueza absoluta e a indigência absoluta.

Existe em cada país um Primeiro Mundo. Basta ir a São Paulo, aos Jardins ou ao Morumbi para ver. E um Terceiro Mundo. Basta ir a Nova York ou a Londres para ver. A diferença está apenas no número de pessoas que em cada um deles pertence a um dos mundos, em função dos dispositivos sociais e legais da distribuição da renda, da garantia de direitos consolidados, e da política tributária. Ou seja, Primeiro e Terceiro Mundo, em todos os países. Agora, o número de habitantes do Primeiro Mundo em cada país varia de acordo com o grau de civilização de cada país. No nosso caso, a gente pode até enumerar os nomes, fulano, beltrano, ciclano.

Sete. Esse modo econômico opera por lutas e guerras com as quais efetua a maximização dos lucros. Isto é, opera por dominação e extermínio e modifica a antiga ideia do imperialismo, pois não precisa mais da figura da colônia como ocupação política de um território, bastando agora a delimitação de um espaço e de um tempo para que um território seja ocupado militarmente e economicamente, seja em seguida devastado, e a seguir, desocupado. Vocês vão ver o que vai acontecer no pré-sal, na Petrobras, na Embraer –vai devastar tudo. Devasta. É uma devastação.

NOVO IMPERIALISMO E OPERAÇÃO LAVA-JATO

O novo imperialismo se realiza segundo o modelo militar definido pela ideia de operação. É a delimitação espacial e temporal de uma ação de ocupação de um território delimitado para a sua devastação. O que você tem em toda a parte, a ação que se chama operação. Por exemplo a operação Lava-jato.

Porque ela se chama operação? Ela se chama operação porque ela emprega um vocabulário militar de delimitação espacial e temporal. É verdade que, como tudo no Brasil, ela quer ser eterna. Mas como operação ela teria um tempo e um espaço delimitado. Mas é sintomático que ela se chame operação.

Em resumo. Os traços gerais da economia neoliberal nos dão a desintegração vertical da produção, as tecnologias eletrônicas, a diminuição dos estoques, a velocidade na qualificação e desqualificação da mão-de-obra, a aceleração da rotatividade da produção, do comércio e do consumo, pelo desenvolvimento das técnicas de informação e distribuição, proliferação do setor de serviços, crescimento da economia informal paralela, e novos meios para prover os serviços financeiros. Desregulação econômica, formação de grandes conglomerados financeiros, que formam um único mercado mundial, com o poder de coordenação financeira sobre o planeta. É isso o mundo no qual nós estamos.

NEOLIBERALISM0 COMO NOVA FORMA DO TOTALITARISMO

Agora eu vou falar diretamente do neoliberalismo como a nova forma do totalitarismo.

Para compreendermos porque se pode falar em totalitarismo neoliberal, nós precisamos compreender o surgimento da ideia de sociedade administrada e da oposição entre instituição social e organização.

Como sabemos, o movimento do capital tem a peculiaridade de transformar toda e qualquer realidade em objeto do capital e para o capital, convertendo tudo em mercadoria. E, por isso mesmo, produz um sistema universal de equivalências. Porque é isso. O sistema da mercadoria é produção da equivalência. Um sistema universal de equivalências, próprio de uma formação social baseada na troca de equivalentes ou a troca de mercadorias pela mediação de uma mercadoria universal abstrata, o dinheiro, uma equivalente universal.

A prática contemporânea da administração parte de dois pressupostos: o de que toda a dimensão da realidade social é equivalente a qualquer outra, e, por esse motivo, é administrável de fato e de direito. E de que os princípios administrativos são os mesmos em toda a parte porque todas as manifestações sociais, sendo equivalentes, são regidas pelas mesmas regras.

Em outras palavras, a administração é percebida e praticada segundo um conjunto de normas gerais desprovidas de conteúdo específico, e que, pelo seu formalismo, são aplicáveis a todas as manifestações sociais.

Você administra um hospital, você administra a escola, você administra a empresa, você administra tudo. Tudo é administrável. Você administra a pesquisa. Ou seja, os princípios de operação são todos os mesmos, não importa a especificidade daquilo que está sendo administrado. Esse é o núcleo do que é produzido pelo capitalismo como a economia e a sociedade na troca de equivalentes.

A prática administrativa se reforça e se amplia a medida que o modo de produção capitalista entra na sua fase neoliberal, que traz a fragmentação e a desarticulação de todas as esferas e dimensões da vida social, exigindo que se volte a articulá-las como meio de um instrumento. Esse instrumento é a administração.

A rearticulação administrada transforma uma instituição social numa organização. Isto é, numa entidade isolada, cujo o sucesso, cuja eficácia, se medem em termos da gestão de recursos e estratégias de desempenho, cuja a articulação com as demais organizações se dá por meio da competição.

GOVERNO, ADMINISTRAÇÃO, GESTÃO

Eu estou usando de propósito essa terminologia. Vou abrir mais um parênteses.

Quando eu participei do governo da Luiza Erundina, eu tinha uma briga quase cotidiana com vários dos meus companheiros secretários. Vários deles. Uma vez por semana, todo o secretariado se reunia e a gente decidia em conjunto, como um colegiado. Alguns dos meus companheiros secretários se referiam ao governo como a ‘administração Erundina’, a ‘nossa administração’. Nós não somos uma administração! Nós somos um governo! Depois que passou a história da ‘administração’ piorou, porque agora fala ‘gestão’. A ‘gestão do Haddad’. Dá vontade de morrer quando alguém fala uma ‘gestão’!

A gestão do Dória, essa sim! Essa eu não tenho a menor dúvida, mas do Haddad não é possível. Tem paciência! É isso aqui que eu vou explicitar um pouquinho. Porque eu me enfureço quando se usa em vez de governo, ‘administração’ ou ‘gestão’. Eu tenho um motivo conceitual, político para ficar brava.

O que é uma instituição social? Uma instituição social é uma ação social. É uma prática social fundada do reconhecimento público da sua legitimidade e das suas atribuições. Fundada num princípio de diferenciação, que lhe confere autonomia perante as outras instituições. E estruturada pelo ordenamentos, regras, normas e valores de reconhecimento e legitimidade internos a ela.

Sua ação se realiza numa temporalidade aberta, porque a sua prática a transforma segundo a circunstâncias e as suas relações com as outras instituições sociais. Por definição, uma instituição social é sempre histórica. Ou seja, ela se transforma.

O que é uma organização? Uma organização difere de uma instituição porque ela se define por uma outra prática social, qual seja, a da sua instrumentalidade. Fundada em dois pressupostos: o de que toda a dimensão da realidade social é equivalente a qualquer outra, e por esse motivo é administrável de fato e de direito, e de que os princípios administrativos são os mesmos em toda a parte porque todas as manifestações sociais, sendo equivalentes, são regidas pelas mesmas regras.

Em outras palavras, a organização é percebida e praticada segundo um conjunto de normas gerais, desprovidas de conteúdo particular, que por seu formalismo são aplicáveis a todas as manifestações sociais. Ela está referida ao conjunto de meios particulares para a obtenção de um objetivo também particular. Ou seja, ela não está definida como instituição a ações articuladas as ideias de legitimidade, reconhecimento externo e reconhecimento interno. Ela é regida pela ideia de operação.

As operações são estratégias baseadas pela ideia de eficácia e sucesso no emprego de determinados meios para alcançar o objetivo particular que a define. Ela é regida pelas ideias de gestão, planeamento, previsão, controle e êxito. As operações possuem tempo delimitado que se encerra com o seu êxito ou seu fracasso. E, por isso, a sua temporalidade é efêmera. Ela não constitui nunca uma história. A marca da instituição é historicidade. A marca da organização é a efemeridade.

O neoliberalismo não é apenas uma mutação histórica do capitalismo, como nós vimos no começo, com a passagem da hegemonia econômica do capital produtivo ao capital financeiro. O neoliberalismo é também, sobretudo, uma mutação sócio-política. Ele é a nova forma do totalitarismo.

Por que totalitarismo? Porque em seu núcleo encontra-se o princípio fundamental da formação totalitária. Qual seja, a recusa da especificidade das diferentes instituições sociais e políticas e culturais que são consideradas homogêneas e indiferenciadas porque todas elas são igualmente organizações.

EMPREENDEDORISMO, MERITOCRACIA, NEOCALVINISMO

A peculiaridade do totalitarismo neoliberal está em definir todas as esferas sociais, políticas e culturais não apenas como organizações, mas como um tipo determinado de organização: a empresa.

A fábrica é uma empresa, a escola é uma empresa, o hospital é uma empresa, o centro cultural é uma empresa. Mais do que isso. Define o indivíduo como um empreendimento. Como uma empresa individual. Como capital humano ou empresário de si mesmo, destinado à competição mortal em todas as organizações e dominado pelo princípio universal da concorrência, que é disfarçada sob o nome de meritocracia. É o que eu chamo de o neocalvinismo. Vou fazer um parênteses.

Nós vimos, quando eu fiz a exposição mais genérica, que uma das características do neoliberalismo é a fragmentação, o esfacelamento do trabalho. Não só a sua terceirização, a sua precarização, a sua fragmentação, mas o fato de que ele não tem mais a referência a certas unidades materiais nas quais ele se percebe a si próprio como trabalho.

O resultado disso é que posso considerar… Imagina que você tem a pequena empresa familiar, você tem a pequena empresa disso, você pode se imaginar, ver-se a si próprio como um empresário. A família trata você como empresário de si mesmo. Precisa ter uma boa escola, precisa ter isso, precisa ter aquilo. É a ideia de que você é um empreendimento. Você é um capital.

Você tem a dissolução da humanidade de cada um, no fato de que cada um é um capital humano e um empresário de si mesmo. Mas porque eu chamo isso de neocalvinismo?

A minha referência aqui evidentemente é o Weber. Vocês se lembram quando o Weber vai explicar o surgimento da ética protestante como substancial ao espírito do capitalismo ele examina esse momento crucial do aparecimento da valorização que vai ser feita do trabalho. Uma ética do trabalho.

Eu vou fazer algumas considerações à margem do que diz o Weber, um pouquinho também a partir do que diz o Freud, vou fazer uma pequena construção aqui do que eu chamo desse momento calvinista.

Primeiro é uma ética que se propõe –e não é por acaso que ela é casada com esse instante da reforma–, ela nasce no instante em que vai surgir muito devagar e com muita dificuldade, mas vai surgir, aquilo que é essencial, porque o Marx vai chamar de acumulação primitiva, vai surgir a figura do indivíduo. Ou seja, o fato de que você não é definido mais como toda a tradição europeia, você não é definido mais, do começo ao fim da sua vida, pela sua origem familiar. Você nasceu servo, morre servo. Você nasceu cavaleiro andante, morre cavaleiro andante. Você nasceu filho de rei, vai morrer rei. E assim por diante.

Você tem um lugar pré-fixado na hierarquia do mundo.  Isso é justificado pela igreja. A igreja elabora uma teoria, uma teologia do direito natural objetivo. A igreja diz: existem duas formas do direito natural. O direito natural subjetivo é o sentimento inato que cada um de nós tem do justo e do injusto. A gente nasce com isso. O direito natural objetivo é a ordem jurídica que Deus põe no mundo. O mundo, a natureza, é uma ordem jurídica definida por Deus.

Ora, o que caracteriza a teologia que vai sustentar essa teoria do direito objetivo é uma teologia ligada à ideia de que há uma hierarquia necessária de todos os seres. Os seres se hierarquizam pelo seu grau de perfeição ou de essência. E vão da essência absolutamente infinita e perfeita, que é deus, à imperfeição absoluta, o nada absoluto, que é a treva.

Entre a perfeição de essência e a imperfeição da matéria, que é pura treva, se escalonam todos os graus de perfeição. A perfeição de cada ser é medida pela distância que esse ser tem com relação à perfeição infinita e à imperfeição absoluta. Ele é medido pelo seu grau de perfeição, conforme ele esteja mais próximo ou mais distante da perfeição infinita ou da imperfeição absoluta.

CAPITALISMO NASCENTE E A FIGURA DO INDIVÍDUO

Essa hierarquia metafísica que a teologia propõe é o que sustenta a concepção do direito natural objetivo. Isto é, esta ordem hierárquica, metafisicamente hierárquica, imposta por Deus na criação do mundo, é uma ordem jurídica, é uma ordem legal. É uma ordem que define a justiça divina. E não pode ser transgredida.

O que a reforma protestante faz? A reforma protestante vem do processo da acumulação do capital, o capitalismo está nascendo, tudo isso que nós já sabemos: o capitalismo está nascendo, a reforma vem vindo, tudo isso. O que surge? Surge uma figura para a qual não se tinha conceito. Surge a figura do indivíduo. Ou da consciência individual, para usar a linguagem do Lutero ou do Calvino. A consciência individual. É ela que surge. Portanto, o fato de que o que surge é uma figura cuja a posição no cosmos não vai depender mais dessa hierarquia vertical da ordem do mundo, mas ela vai depender da maneira como essa consciência realiza a sua liberdade para realizar a vontade de Deus.

No caso do Lutero a coisa é fácil. Como eu cumpro o meu destino teológico, religioso, moral? Eu cumpro através das obras.  Por obra não se entenda senão a caridade. É graças à caridade, ao bem que eu faço ao outro, a justiça que eu pratico na relação com os outros, a minha maneira de obedecer às leis etc –tudo isso, que é liberdade de um cristão, vai garantir que, no momento da minha morte, eu possa ser julgado por deus, e que ele avalie, ele possa avaliar se pelas obras eu posso ser salvo.

Porque existe esse problema? Existe esse problema por causa de Adão. Adão cometeu o pecado original e, portanto, por definição estamos todos condenados. Aí Jesus vem. Jesus veio e nos redimiu. O problema é saber se nós estamos à altura da obra de Jesus.

O que o calvinista vai dizer? O calvinista vai dizer o seguinte: sem dúvida Jesus veio para remir o pecado de Adão. Pagou o pecado original. Sem dúvida.

Qual é o problema? O problema é o seguinte: Deus não é só onipotente. Deus é onisciente. Portanto, ele conhece o curso total do tempo. Ele conhece o curso total da minha vida. Portanto, antes mesmo de eu nascer, ele sabe tudo o que eu vou ser e tudo o que eu vou fazer. Eu estou predestinada. Ou seja, os calvinistas retomam essa coisa complicadíssima elaborada por Santo Agostinho, que é o problema da predestinação. E não tem jeito de fugir da noção de predestinação. Por que se deus é onisciente, eu estou predestinada. Não dá para dizer que eu nasci e deus não sabia muito bem o que eu ia fazer. Não tem como. Eu estou predestinada.

Qual é a solução do Lutero? Pelas obras que eu farei, deus verá que eu sou digno da salvação. O Calvino diz: imagina! Deus sabe que se eu vou me salvar ou se eu vou ser condenado antes mesmo de eu nascer. Ele á determinou isso. Não tem jeito, já está determinado, já está predestinado.

TRABALHO COMO CAMINHO DA REDENÇÃO

Entretanto, deus é misericordioso. Ele envia para a gente alguns sinais –não na goiabeira, é claro– de que talvez eu vá ser salvo. O grande sinal que ele envia é o seguinte: quando ele nos expulsou do paraíso, ele disse que nós tínhamos que trabalhar e ganhar o nosso pão com o suor do nosso rosto. Portanto, deus nos deu o trabalho como ordem. Não vem que não tem. Só que, ao contrário do que pensavam os medievais, do que pensavam os gregos, os romanos, que o trabalho era a maior infâmia, a maior desgraça que podia acontecer para alguém, agora não. Agora o trabalho é um caminho da redenção. Nasceu o indivíduo burguês. É ele que está nascendo. O indivíduo burguês. O trabalho é o caminho da salvação.

Qual é o signo que deus dá para que eu diga ‘acho que eu estou entre os salvos, acho que estou entre os escolhidos’? Eu trabalho e o meu trabalho prospera. E eu fico rica. A prosperidade que eu alcanço é um sinal muito indireto que deus me dá de que possivelmente eu estarei salva.

Você imagina o que os burgueses vão fazer com isso. Trabalhar é bom. Aí vem o elogio do trabalho. E o mérito. E é isso que nós temos agora. Qualquer igreja evangélica está fazendo isto. Está prometendo isto. Só que esse indivíduo não é mais o operário, não é mais o empregado, não é mais o funcionário –é o colaborador, é o empresário de si mesmo, é o empreendimento, é o capital humano. É ele que é essa figura.

Porque você precisa da meritocracia? Tem uma competição mortal. Uma coisa fora do comum. Uma violência fora do comum. Uma destruição de todas as formas de solidariedade da classe trabalhadora. Você tem o esmagamento de tudo isto. E no lugar surge a figura da meritocracia.

DEUS E A MERITOCRACIA, PENSAMENTO DO FINAL DO SÉCULO XV

O que é a meritocracia? Não é só que eu tenho tudo isso por meu mérito. Mas eu tenho tudo isto porque deus reconhece o meu mérito. Eu sei que é triste no começo do século XXI você retomar o pensamento do final do século XV, começo do século XVI. Eu sei que é duro fazer isso. Esse apogeu desse pensamento nos meados do século XVII. Eu sei que é muito duro. Mas é isso.

Nós temos um neocalvinismo que legitima a fragmentação, a dispersão, a terceirização, o esmigalhamento de uma classe social, que se vê agora como o indivíduo. Você tem um conjunto de indivíduos soltos no mundo e que vão trabalhar bastante e, graças ao seu trabalho, ter o mérito disso etc. É isso que a gente vê nas rádios de manhã, misturado com os noticiários, é isso que tem na televisão, é isso que tem nas igrejas, é isso que tem na rua, é isso que tem, motorista de taxi diz isso para você com a maior convicção. Isso é a maneira como o neoliberalismo esvaziou e preencheu novamente a cabeça de cada um de nós.

Fechei o meu longo parênteses.

MERITOCRACIA, NASCISISMO, DEPRESSÃO, ÓDIO

O indivíduo. Mais do que isso, define o indivíduo como um empreendimento, como uma empresa individual, como capital humano. Como empresário de si mesmo, destinado à competição mortal em todas as organizações, dominado pelo princípio universal da concorrência disfarçada sob o nome de meritocracia. Ou seja, estamos em pleno neocalvinismo.

O salário não é visto como salário; ele é visto como renda individual. A educação é considerada um investimento, para que a criança e o jovem aprendam a desempenhar comportamentos competitivos. Dessa maneira, desde a maternidade até a entrada no mercado de trabalho, o indivíduo é treinado para ser um investimento bem-sucedido.

Como consequência disso, decorre, de um lado, o surgimento de uma subjetividade narcisista, portanto, propensa à depressão. O narcisismo produz a depressão. E não é por acaso que a depressão é a doença da sociedade contemporânea.

E, de outro, a enculcação da culpa naqueles que não vencem a competição, desencadeando ódios, ressentimentos e violências de todo tipo, particularmente contra imigrantes, migrantes, negros, índios, mendigos, LGBT, destroçando a percepção de si como membro ou parte de uma classe social e destruindo formas de solidariedade, desencadeando práticas fascistas de extermínio.

Politicamente a consequência da passagem da instituição à organização, e a organização à empresa, significa que o Estado deixa de ser considerado uma instituição pública, regida pelos princípios e valores democráticos, e passa a ser considerado apenas uma empresa a ser gerida.

CORAÇÃO DA DEMOCRACIA É APUNHALADO SEM REMISSÃO

Isso explica porque a política neoliberal se define pela eliminação de direitos econômicos, sociais e políticos garantidos pelo poder público em proveito dos interesses privados, transformados em serviços definidos pela lógica do mercado.

Isto é, a privatização dos direitos em serviços vendidos e comprados no mercado. Privatização que aumenta todas as formas de desigualdade e de exclusão.

E, com isso, o coração da democracia é apunhalado sem remissão.

Por quê? Porque dizemos que uma sociedade, e não um simples regime de governo, é democrática quando, além de eleições, partidos políticos, divisão dos Três Poderes da República, respeito à vontade da maioria e das minorias, institui algo mais profundo, que é a condição do próprio regime político.

Ou seja, quando institui direitos. É a sociedade que é democrática e, por isso, nela há uma política democrática. O contrário do que o neoliberalismo diz, que a democracia é uma forma de governo, de política.

A instituição de direitos é uma criação social, de tal maneira que a atividade democrática social se realiza como um contra poder social, que determina, dirige, controla e modifica a ação estatal E o poder dos governantes. A sociedade democrática institui direitos pela abertura do campo social à criação de direitos reais, ampliação dos direitos existentes e criação de novos direitos.

Dito isso, tem a terceira parte, em que vou examinar as consequências do totalitarismo.

Agora eu vou apresentar de uma maneira muito breve algumas das consequências desse novo totalitarismo. E, depois, eu vou fazer três observações a respeito do Brasil e ponto.

MUNDO HOMOGÊNEO, FRAGMENTADO, TOTAL

A primeira consequência desse novo totalitarismo é o fato de que ele não aparece como tal. A não ser, por exemplo, no caso do Brasil, que você tem um conjunto mafioso fazendo o que faz, de um modo geral, você não tem a percepção no nível dos acontecimentos, no nível das estruturas e das instituições sociais, você não tem a percepção de que é uma coisa totalitária.

Porque nós temos já uma ideia pré-estabelecida do que é o totalitarismo. Ou é o nazismo, ou é o stalinismo, ou é, em certos casos, o maoísmo, e não vai além daí. Decifrar que se trata de um universo totalitário é muito complicado.

Você só percebe porque no momento em que você se dá conta que uma única forma de organização define a totalidade das instituições sociais. E a totalidade do pensamento e das ações. É uma coisa só, que se apresenta como recobrindo o todo. Ela totaliza. É um mundo indiferenciado. Um mundo homogêneo. Fragmentado. Indiferenciado. Que é a marca totalitária.

A primeira consequência é óbvia, é o fim da ideia de democracia social. Não da social democracia, eu estou falando da democracia social. A ideia de sociedade democrática.

E por que esse fio? Não só porque houve a privatização dos direitos, que foram transformados em serviços, mas porque houve supressão de direitos. Houve o não reconhecimento de novos direitos. Tudo aquilo que faz com que uma sociedade seja democrática, pela sua capacidade de inventar e criar direitos, de transformar direitos, de ampliar o campo dos direitos, tudo isso desapareceu.

PRIVATIZAÇÃO DO SOCIAL E CONFLITOS SUFOCADOS

A privatização do social faz com que aquilo que é a marca da sociedade democrática, que é a existência dos direitos como criação social, desapareceu. Essa é a primeira consequência: a desaparição da sociedade democrática como tal.

Depois, o fim da democracia representativa, democracia liberal representativa. Por quê? Porque o que caracteriza a política representativa, a democracia representativa, é a ideia não apenas de uma pluralidade de partidos, a pluralidade da opinião pública, mas é sobretudo a ideia de que existem fóruns nos quais as decisões concernentes à coletividade são tomadas a partir das escolhas que a sociedade fez.

Pode ter errado ou acertado nas suas escolhas, mas a ideia da representação. Ora, a partir do momento em que você considera que a política é uma gestão, uma gestão técnica, técnico-administrativa, você não tem mais o que fazer com a noção de representação e de escolha de representantes.

Porque você tem o gestor, aquele que possui uma suposta competência técnica para resolver determinados problemas circunscritos num determinado tempo e num determinado espaço.

Então, você destruiu a política, porque a política nasce, sobretudo a política democrática nasce como direito à manifestação dos conflitos. Dos conflitos sociais. Dos conflitos de opinião. Dos conflitos culturais. Todas as formas de conflitos. A democracia é a única forma política, a única, que considera que o conflito não é simplesmente legítimo, que o conflito é constitutivo dela.

E é isso que você apaga. Você apaga a noção da multiplicidade representativa e você transforma o governo e os atos governamentais, o mundo do poder numa gestão técnica de problemas circunscritos.

A noção mesma da democracia representativa como política desaparece. É por isso que você tem um cenário. A gente tem sempre a sensação de que está tudo lá. Não está mais. É uma aparência. A gente pensa que está lá, que aquilo ainda existe, que tem sentido, que funciona. Não está. Porque as decisões não são mais tomadas lá. Elas são tomadas em outro lugar. E, de um modo geral, elas são tomadas secretamente.

Essas duas marcas fundamentais da democracia desaparecem. A criação de direitos e a afirmação de direitos. Pluralidade conflitiva. Decisões tomadas a partir da escola os representantes. A noção de gestão destrói isso.

JUDICIALIZAÇÃO DA POLÍTICA É CONSEQUÊNCIA DO TOTALITARISMO NEOLIBERAL

Depois, uma outra consequência, eu vou frisar muito essa porque isso é tomado, muitos tomam isso como causa de alguma coisa que acontece no campo da política. Isso que eu vou falar agora eu tomo como um efeito, e não como causa. Aquilo que se chama a judicialização da política. Por quê?

Como é que os conflitos são resolvidos nas empresas? Um conflito é resolvido nas empresas, primeiro ele pode ser pura e simplesmente eliminado. Você manda embora aqueles que causam o conflito. Mas suponha que seja um conflito entre empresas, um conflito entre setores da empresa. Um conflito que varre um grupo de empresas entre outro grupo de empresas. Como é que é resolvido o conflito empresarial? Ele é resolvido pela via jurídica. Ele não é resolvido pelo trabalho do conflito, pela discussão, pela representação. Não é dessa maneira que ele é resolvido. Ele pertence ao espaço privado e ele é resolvido no espaço privado pelo campo legal, pelo campo jurídico.

Ora, a partir do momento em que o Estado é considerado uma empresa, em que as instituições políticas são consideradas empresas, em que as instituições sociais são consideradas empresas, como é que você lida com o conflito entre elas? Como é que o conflito vai se exprimir? Ele não vai se exprimir. Ele vai ser sufocado juridicamente.

Então, a judicialização da política é a consequência do totalitarismo neoliberal. Ela não é causa de coisas novas. Ela é o efeito do totalitarismo neoliberal, ou seja, a redução de todas as instituições à condição de empresa. Portanto, à condição de espaço privado. É um espaço privado de interesses. Você trata o espaço privado dos interesses pela via jurídica. A política é tratada a partir desse critério, posto pelo totalitarismo neoliberal.

CRIMINALIZAÇÃO DOS CONFLITOS

O que é uma coisa gravíssima. Porque você tem a justificação da eliminação daquilo que é o coração da república democrática, que é o jogo dos conflitos. O fato de que há um trabalho dos conflitos. É a ausência desse trabalho dos conflitos, porque o conflito é considerado agora crime. Ele é criminalizado. A diferença é criminalizada. Essa criminalização é que ocupa o lugar da política. É inevitável.

O neoliberalismo encolhe o espaço público dos direitos e dos conflitos e alarga o espaço privado dos interesses privados do mercado. Ao fazer isso, e ao tomar estado nessa perspectiva, e a sociedade também, não há lugar para as instituições democráticas e as práticas democráticas. Você não tem os direitos, você não tem a representação –você tem a judicialização.

Depois, a transformação do imperialismo. Não só a transformação do imperialismo tal como ele era classicamente pensado.

Classicamente, o imperialismo era a maneira pela qual o capital se expandia em direção as regiões onde não estava o capital. Ou seja, a forma clássica do imperialismo pressupõe que existe o não capital. Você tem o capital, o mundo capitalista e todo um conjunto no interior do planeta que não é capitalista. Que não é regido pelo capital.

DEVASTAÇÃO PLANETÁRIA E CAPITALISMO TOTAL

A função tradicional do imperialismo sempre foi de se apossar do seu fora. Fazer com que não existisse um fora. E ele se apossava se apossando de países, dando a eles o formato da colônia. Então você toma militarmente, depois você toma politicamente e você toma ideologicamente. [O país] passa a falar a língua do ocupante, passa ater os costumes do ocupante.  É isso o império.

Isso que se chama a globalização, esse capitalismo neoliberal globalizado eliminou a existência de um fora. Não existe um fora do capital. Não existe um não-capital. Não existe mais. O que você tem é uma totalidade. Uma totalidade fechada sobre si mesma. Com todos aqueles problemas que eu mostrei a vocês: a exclusão, a miséria, a opulência, a desigualdade, tudo isso faz parte, mas é no interior de um planeta capitalista. É total.

O capitalismo se tornou total. E é por isso que o imperialismo funciona de uma maneira muito simples. Funciona por operações. Operações militares, de ocupação, por um tempo determinado e um espaço determinado, para retirar riquezas. Devasta e vai embora. Não precisa ficar lá tomando conta da colônia. Não tem mais isso.

Então você tem um processo gigantesco de devastação planetária e, ao mesmo tempo, o capitalismo como totalidade. Realmente ele é uma totalidade. Absoluta. Não existe fora do capitalismo. Não existe o Não capitalismo. Não dá mais nem para pensar em termos, como se dizia, do mundo bipolar. Nem mesmo do mundo multipolar. Porque seria preciso ter vários pontos. Por que o Trump diz que ele vai sair da OTAN, que ele vai fazer isso, ele vai… Vai sair da Síria de não sei de onde? É que ele não precisa mais.

TEORIAS CLÁSSICAS DO IMPERIALISMO NÃO FUNCIONAM

O capital não precisa mais de nenhum elemento de ocupação de longo termo. Ele não precisa desse processo em que ele tem que estar presente como ocupante. Ele ocupa através da maneira pela qual ele funciona. O funcionamento do capitalismo é um funcionamento planetário, global, não tem fora. Não tem o não capital. Não tem o outro do capital. É por isso que ele é total.

É porque ele é total que ele é totalitário. Eu sei que é uma coisa assustadora. Mas é isso que ele é. Não tem fora dele. É tudo dentro dele. Ele incorporou tudo. O que significa que a teoria do imperialismo do Lênin, da Rosa, do Hilferding, as teorias clássicas do imperialismo não funcionam mais. Porque elas tinham sempre como pressuposto de que havia o outro. A alteridade. O não capital. O não capitalismo. Agora não tem isso.

Isso não quer dizer que ele é homogêneo em todos os lugares. É claro que ele não é. Ele é todo diferenciado segundo a lógica do próprio capital. O capital precisa produzir essa diferenciação. Isso não significa que ele não é um elemento que totaliza o planeta.

HUMANIDADES PERDEM AUTONOMIA

A outra consequência é a redução da totalidade da cultura. Agora é na sua totalidade. A gente falava na cultura de massa. Na indústria cultural. Mas agora não. Agora é a totalidade da cultura como valor de troca, como mercadoria. Isso vale para o museu, vale para a biblioteca, vale para o centro cultural, vale para os livros, para o teatro, para a música, vale para tudo.

É a ideia de que o universo da cultura é desprovido daquilo que a modernidade havia chamado de autonomia. Autonomia racional. Autonomia racional do pensamento e das artes. Isso foi um elemento que definiu a modernidade.

Autonomia em que sentido? No sentido de que o pensamento, a filosofia, a ciência, as humanidades, e as artes, literatura, música, se colocavam autônomas, à distância, independentes do poder do Estado e do poder das igrejas. Autonomia, portanto, frente ao poder político e frente ao poder ideológico. Isso foi a marca da modernidade: afirmar essa autonomia. É isto que acabou literalmente. Você não tem mais nenhuma autonomia por parte do pensamento, por parte das artes com relação ao capital.

Tudo foi absorvido e engolido pelo capital. Pode não ser o Estado. Pode não ser a igreja. É o mercado. A ideia de autonomia que definiu o campo da modernidade, desapareceu.

Nós somos pós-modernos nesse sentido. O capital totalizou a posse sobre a cultura inteira. Não sobra nada. Mais do que isso, a cultura também é reduzida a partir dos novos elementos, dos novos instrumentos eletrônicos, informáticos. Esses novos instrumentos fazem com que a produção cultural tenha como paradigma, que é posto por esse tipo de meio, tenha como paradigma a moda. E portanto, ao ter como paradigma a moda, ela tem como paradigma aquilo que é efêmero. Aquilo que é volátil. Aquilo que não tem história.

O Harvey usa uma expressão belíssima. Ele fala que nós vivemos na “compressão espaço temporal”. O que é o espaço no qual nós vivemos? Nós vivemos o espaço que é definido pela tela. É um espaço no qual a totalidade do mundo está presente ininterruptamente durante 24 horas sobre 24.

MUNDO É O MUNDO PLANO DA TELA, SEM TOPOGRAFIA

Eu estou num mundo em que não há geografia mais. Em que não há topologia. Porque se o mundo é o mundo plano da tela, aquilo que caracteriza o espaço vivido, o próximo, o distante, o alto, o baixo, aquilo que eu toco, não só aquilo que eu vejo, mas aquilo que eu toco. Toda essa topologia do universo espacial da percepção se desfaz.

Porque o mundo perceptivo espacial é o mundo da tela. É o mundo dessa tela. Você não tem mais a percepção do próximo e do distante. Você não tem mais a percepção de uma diferenciação topológica e geográfica do espaço. O espaço se torna homogêneo, como um conjunto de imagens sucessivas, voláteis e efêmeras. É um espaço, diz o Harvey, do aqui. Só tem aqui. Não tem lá adiante. Lá longe. Ali perto. É aqui. O espaço foi reduzido a uma única dimensão: o aqui.

NÃO TEM TEMPO NEM MEMÓRIA; É AQUI E AGORA

E a mesma coisa ocorre com o tempo. O tempo é o tempo da imagem. Dessa imagem que está fixada volatilmente na tela, e, portanto, não tem antes nem depois. É um mundo sem memória. É um mundo sem expectativa. Sem futuro. Não tem tempo. Assim como o espaço fica reduzido ao aqui, o tempo fica reduzido ao agora.

É um mundo que se esvaziou, do ponto de vista cultural, ele se esvaziou do ponto de vista da percepção que o nosso corpo tem de si próprio e dos demais corpos, e do mundo, como um corpo perceptivo e percepiente e percebido, numa relação intersubjetiva de um espaço que é feito de lugares, de diferenças e de um tempo que é feito do antes e do depois, que é feito de memória, de futuro, de expectativa. Que é feito de história.

Então você não tem história também. Tudo se reduz ao agora e ao aqui. Está tudo comprimido nesse espaço e tempo dos novos meios eletrônicos. A pergunta que eu me faço é: qual é o tipo de sociabilidade? Porque, veja, nós tivemos as manifestações, 2013, 2014, 2015.  Cada lugar tem, a França tem os coletes amarelos, teve o Occupy Wall Street. É um instante no qual você tem uma chamada, uma ação, mas ela não tem tempo nem espaço. Ela não tem um porvir. Ela não tem um a história. Ela acaba. Ela vai se fragmentando, se fragmentando. E ela acaba.

CULTURA SE CONFUNDE COM PROPAGANDA E MARKETING

A redução da totalidade da cultura à condição de valor de troca sob a forma de imagens efêmeras e voláteis cujo paradigma é dado pela moda, portanto, dura menos que uma rosa, e cujo núcleo é a invenção de desejos sempre novos e efêmeros.

Talvez esse seja um dos traços mais impressionantes da cultura contemporânea. É quase impossível distingui-la da propaganda e do marketing. Porque a propaganda e o marketing produzem um conjunto de imagens que devem ter como resultado o desejo. Eu passo a desejar a partir das imagens que me são propostas pelo marketing e pela propaganda. Eu entro numa relação de desejo a partir das imagens que me são oferecidas.

A cultura funciona nesse registro agora. Ela funciona num registro de produção de imagens para a produção de desejos. Ela não é uma reflexão sobre o mundo. Ela não é uma invenção de um outro mundo. Ela não é a perspectiva de um outro mundo, que é o que a cultura traz. Ela é ou repetição, ou uma invenção efêmera, volátil para produzir um determinado desejo e acaba. Acaba. Não tem continuidade. Não tem história. Não há diferença entre arte e propaganda. Tudo é espetáculo, simulacro, fetiche.   

DESCONEXÃO E MUNDO FANTASMAGÓRICO

O Jameson faz uma análise interessantíssima da arquitetura. Ele examina o shopping center. Ele diz: o shopping center é paradigmático porque ele fecha num espaço privado, comercial, como se ele fosse um espaço aberto de encontro e lazer. Ele finge para você que ele é um espaço aberto de encontro e lazer. Ele é um espaço fechado, de controle e compra, comercial.

Mas ele é construído. Os belos shoppings são aqueles que têm jardins, tem lagos entro deles. E produz algo em você, o sentimento de que você está no mundo exterior, num mundo de lazer e de encontro. Você não está. Você está fechado num mundo de mercado.

A imagem produzida, ou seja, o que a cultura tem feito? A arquitetura faz isso. O cinema, então, nem se fala. Ele desconecta você. Ele faz com que você viva num mundo –não é num mundo imaginário porque essa é a função da cultura, você não vive num mundo imaginário. Você vive num mundo fantasmagórico. Por que fantasmagórico? Você está num espaço fechado acreditando que você está num espaço aberto. Você está num mundo comercial, você está acreditando que você está no lazer. Você está num mundo que pré-determina os lugares e você acha que é um espaço de encontro.

Eu tive uma experiência incrível, há pouco tempo fui à Santiago. Fazia anos que eu não ia a Santiago. Eu achei que eu estava na avenida Berrini. Entre Santiago e Berrini é a mesma coisa. As cidades são idênticas. É tudo idêntico. Não existe mais nada que… Passa na Barra da Tijuca, ali então, é mais triste ainda. A Berrini e Santiago ainda têm a ilusão de uma certa dignidade arquitetônica. A Barra da Tijuca não tem nenhuma! É uma catástrofe aquilo! Com aquela estátua da Liberdade acendendo a luzinha. É uma coisa fora do comum aonde se pode chegar em termos de degradação. É a degradação do espírito. É a degradação do corpo. É a degradação do inconsciente. É a degradação de tudo! É isso que o neoliberalismo fez conosco! Ele degradou tudo! Tudo!

JOVENS ESTÃO SENDO INTEIRAMENTE MANIPULADOS

Eu me preocupo por causa dos mais jovens. Porque para os mais jovens isso… o mundo é assim. Como eles não tiveram o contraste com uma outra possibilidade, de que o mundo fosse de um outro jeito. Como eles estão convencidos de que isso é mundo. Isso é o que o totalitarismo faz. Isso é o mundo. Eles não têm sequer a possibilidade de perceber o grau de manipulação a que eles estão submetidos. Estão inteiramente manipulados! Na sua alma. O neoliberalismo se apossou da alma das pessoas. É uma coisa gigantesca. Gigantesca.

Como no caso do shopping, porque fecha num espaço privado, comercial, o espaço aberto de encontro e lazer. Ou seja, não há distinção entre os espaços, mas um único espaço total.

O mesmo pode ser dito dos prédios espelhados, que refletem uns aos outros, para abolir a diferença entre o dentro e o fora, numa visibilidade em que se pretende ser total. Sempre total.

O que significa o prédio espelhado em que um reflete o outro? Onde você não pode distinguir entre o dentro e o fora? Significa que você está sendo convidado a uma visibilidade total. Aquilo que é a marca do visível, de que ele é tecido de invisível, que é constitutivo do visível, que ele seja costurado e tecido pelo invisível, é isso que desaparece. Você tem uma visibilidade total. Tudo é visível o tempo todo. É esse modo de funcionar que destrói a cultura, porque destrói o pensamento, destrói as artes. Destrói tudo na medida em que engole a nossa alma.

FIM DE UTOPIAS E FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO

Com essa compressão do espaço, a compressão do tempo, a perda da autonomia, da cultura, você tem o desmanche, a perda da noção mesma de história, e, portanto, a ideia de alteridade, de horizonte e de transformação. Você permanece não é nem no campo da repetição. Porque a repetição ainda daria alguma consistência as coisas. Não. É no campo da suposta inovação ininterrupta.

Hoje é assim. Não é como foi ontem. Não será como amanhã. Não tem tempo. Você perde a dimensão da história. Não tem um futuro. Não tem uma alteridade. E é claro, não tem utopia. Não tem utopia nenhuma. Essa ausência de história, essa ausência de autonomia do pensamento e da imaginação e essa ausência de uma perspectiva utópica explicam porque, do ponto máximo do totalitarismo neoliberal, você vai encontrar, não só aqui, mas em toda parte, no nosso caso é paradigmático, o fundamentalismo religioso.

Ele é aquilo que sobrou para falar de interioridade. É por isso. Nesse mundo onde você é empresário de você mesmo. Onde você está posto na competição mortal com os outros. Nesse mundo sem espaço, sem tempo, sem presente, sem passado, sem futuro, nesse mundo total e fechado, o que resta para você? A referência não mais a uma imanência da história, mas a uma transcendência do destino, é o fundamentalismo religioso.

Muitos pensam que o fundamentalismo religioso é um contrassenso diante da proposta da racionalidade tecnológica, técnica, científica do neoliberalismo. O neoliberalismo é esse ponto de culminância da presença da ciência e da técnica num mundo. E aparece, então, como um contrassenso que ele traga, ele seja contemporâneo das várias formas de fundamentalismo religioso.

Não tem nenhuma contradição. Tudo que ele esvaziou na realidade, ao transformá-la em simulacro de si mesma, ele repõe com a profundidade da esperança religiosa. Do mesmo jeito. Nós estamos diante, do mesmo modo que a judialização da política não é um acidente, mas é constitutiva da privatização, do fato de o Estado ser concebido como uma empresa, e da política ser concebida como uma gestão empresarial, que você judicializa.

Da mesma maneira, a partir do momento em que você totaliza o espaço, sem distância, totaliza o tempo, sem memória e sem porvir. Totaliza o dentro, o fora, o corpo, as imagens, tudo. Nessa trama que engole, de uma só vez o espírito de cada um, onde você vai reencontrar o espírito? Nessa forma de religião.

E que tem que ser fundamentalista. Porque ela tem que fazer promessas. Tem que fazer promessas. Sem promessas você também não vai lá. Quando eu falo totalitarismo neoliberal, é nisso que eu estou pensando. Estou pensando não tanto nas formas clássicas e tradicionais do totalitarismo, mas no princípio de funcionamento, que é a ausência de especificidade e de diferença entre as instituições. E a transformação de todas as instituições em organizações e administrações. Esse é o princípio. E depois a maneira pela qual esse princípio se espraia. Como ele se realiza na economia, política e na cultura.

Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena

2 comments

  1. Avatar
    estevo 1 maio, 2019 at 07:22 Responder

    No subtítulo “capitalismo nascente a figura do indivíduo” a prof. Chauí esqueceu um detalhe quando refere-se a Lutero. O primado das obras e da caridade é um primado teológico dos católicos que até hoje valorizam mais a prática, as obras (até mesmo do ateu) como meio da salvação.
    Lutero fundamentava seu pensamento na justificação pela fé, a fé bruta, sola fidei, somente a fé em Jesus Cristo salva. Portanto, a salvação não por obras. Adota ainda a sola scriptura, único caminho do conhecimento da fé.
    Deste pensamento advém um desvio: uma certa autojustificação de muitas pessoas que mesmo envolvidos “nos pecados e corrupção do mundo” arrogam-se ao direito de “escolhido” e do “já estou salvo”. Arrogância e autojustificação de uma pseudoteologica.

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