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MARÍLSON REVISITA CONQUISTA NA MARATONA DE NOVA YORK

“Quando entramos no Central Park, eu já estava me contentando com o segundo lugar. O marroquino que estava liderando a prova era muito forte, tinha duas horas e cinco. Pela distância que ele tinha aberto de mim, eu já estava convencido de que não ia dar mais. Mas eu vi que ele estava passando por dificuldades na prova, diminuindo o ritmo, olhando várias vezes para trás… Decidi tentar alcançá-lo, brigar pela primeira colocação.”  

Assim Marílson Gomes dos Santos conta ao TUTAMÉIA o momento decisivo de sua segunda conquista na Maratona de Nova York, a mais importante prova do gênero no cenário mundial. Dez anos depois da vitória, ele ainda se enche de alegria ao falar da vitória no dia 2 de novembro de 2008 (veja a entrevista completa no vídeo acima):

“Eu fui chegando, passei por ele no último quilômetro. E toda aquela história de que tinha sido sorte caiu por água abaixo”.

O corredor se refere aos comentários na imprensa internacional –e mesmo cá na mídia brasileira—depois de sua primeira vitória em, Nova York, em 2006.

Naquela vez, enfrentando um pelo tão de estrelas que incluía ex-campeões da prova –incluindo Paul Tergat, então recordista mundial da distância–, Marílson se desgarrou do pelotão de líderes poucos quilômetros depois da metade do percurso e nunca mais foi alcançado.

“Abri distância, eles não acompanharam. Eles conseguiram tirar um pouco da distância dentro do Central Park, onde são corridos os últimos cinco quilômetros da prova, mas não foi suficiente.”

Talvez alguns não acreditassem na capacidade do garoto brasileiro –o primeiro sul-americano da história a vencer em Nova York. Mas foi apenas porque não ouviram as palavras do agente de Marílson que, às vésperas da corrida, dizia para todos que quisessem ouvir que seu pupilo seria o campeão.

Profético antes, foi também profeta depois: avisou ao brasileiro que, depois daquela conquista, sua vida “nuca mais seria o mesmo”.

De fato, contou Marílson ao Tutaméia, sua trajetória sofreu uma reviravolta: “Houve uma mudança muito drástica mesmo. Tanto na vida pessoal quanto na profissional. Foi meu principal resultado, foi o que me projetou para o mundo. Comecei a receber convites para presença em provas em vários lugares, convites de patrocinadores… Eu não esperava. Quando eu fui para essa prova, eu não sabia que ela tinha toda essa repercussão não”.

Um enorme salto para o menino pobre, que corria pelo cerrado nos arredores de Brasília, para o jovem que veio arriscar a vida em São Paulo, treinava no Sesi em Santo André e nem sempre conseguia transporte para chegar ao refeitório –o resultado era ficar sem comer.

As adversidades e a dureza do treino, relembra Marílson na entrevista, não foram suficientes para derrubá-lo: “Por várias vezes pensei em desistir. Mas tinha a força do grupo, a união do grupo. Além disso, tinha uma bolsa de estudo. Minha prioridade, quando vim para São Paulo, com 14, 15 anos, era cursar uma faculdade porque tinha certeza de que meus pais não poderiam bancar meus estudos. Eu me formei em 99, em educação física, mas continuei correndo”.

Com o treino, vieram as conquistas. A mais importante, naquele início de carreira, no final da adolescência, não foi uma vitória, mas um tempo. Cravou 28min38 na prova 10 Km da Tribuna, em Santos.

“Foi a primeira vez que eu corri em menos de 29 minutos. A partir daquele momento, passei a acreditar mais em mim. O Adauto Domingues, meu treinador, chegou para mim e disse: `A partir de agora, você vai ter de correr sempre na frente, não ter medo de correr na frente, com o grupo, não ter medo de quem estiver na prova. Você está apto a acompanhar qualquer grupo`. E então começaram a aparecer vários resultados.

Foi tricampeão da São Silvestre, disse presente em três olimpíadas, representou o Brasil em vários Mundiais. Ainda hoje, aos 41 anos, as marcas de Marílson Gomes dos Santos sobrevivem entre as melhores do Brasil. Seus recordes na meia maratona, nos 10.000 m e nos 5.000 m já duram mais de dez anos.

Deixou de correr profissionalmente há dois anos, mas continua fazendo suas corridinhas, já sem aquela “ganância de andar na frente”, que o movia no passado, mas buscando saúde e alegria.

Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena

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