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Lula e Mandela personificam o sentido do Nobel, diz Sané

“Se existem dois políticos que, no século 21, são a personificação do que o Prêmio Nobel representa são Nelson Mandela e Lula”. A avaliação é de Pierre Sané em entrevista ao TUTAMÉIA. Ex-secretário geral da Anistia Internacional (1992-2001), ele diz que o Brasil perde respeito internacional ao ignorar decisão do Comitê de Direitos Humanos da ONU que determinou a participação de Lula nas eleições.
“Isso viola os direitos de Lula. Lula deveria ser candidato, e é uma vergonha que o governo brasileiro, um ator chave no mecanismo internacional, esteja desprezando o pedido da ONU. Isso é muito ruim para o Brasil internacionalmente, atinge sua credibilidade. Um governo que manda para a prisão um ex-presidente e que se recusa a implementar uma decisão do corpo mais alto da proteção de direitos humanos perde sua credibilidade. E perde respeito no mundo inteiro. Não é sério nem responsável criticar o comitê porque não se gosta das suas decisões. Se você debilita a legitimidade o conselho, você debilita todo o sistema da ONU”, afirma.
Sobre a questão do Nobel, declara:
“A grande conquista de Nelson Mandela (1918-2013) foi o poder de resistir e viver com suas convicções, persistindo na defesa dos direitos civis e políticos dos africanos da democracia. Ele disse: ‘Eu não estou lutando pelo fim da dominação branca para viver num mundo com uma dominação negra’. Ele recebeu o Prêmio Nobel. Acho que Lula é a mesma coisa. Toda a sua vida, seu engajamento, suas convicções, seus princípios nunca mudaram. Ele levou a Bolsa Família para a África; no Senegal temos o programa. Ele levou a luta contra a fome para a África. Em toda a sua vida ele teve comprometimento com o avanço dos direitos do povo. Como sindicalista, como governante, como fundador do Instituto Lula. Mandela lutou pelos direitos humanos e ganhou o Nobel da Paz. Penso que Lula deve receber o Nobel da Paz pelo seu trabalho pelos direitos econômicos, contra a pobreza, pela educação, por suas ações afirmativas para acabar com o racismo, por sua intervenção em âmbito global”.
Sané falou com TUTAMÉIA um dia após participar, em São Paulo, do seminário internacional “Ameaças à Democracia e a Ordem Multipolar”, promovido pela Fundação Perseu Abramo em 14 de setembro. No encontro, ele iniciou sua segunda intervenção com a leitura dos nomes dos 18 integrantes do Comitê de Direitos Humanos da ONU, enfatizando a importância da instituição, fruto de decisões de governo.
Na entrevista, ele se diz otimista:
“Globalmente há uma inspiração ao nível popular, não só pela democracia representativa, mas pela democracia participativa. As pessoas estão se organizando por direitos humanos e pelo direito de participação política. Não apenas políticos e membros do parlamento, governos: são pessoas comuns, a mídia popular, observatórios. Não é possível voltar atrás. Pode ser que haja resistência daqueles que controlam a riqueza, daqueles que acreditam que, porque nasceram em uma determinada família, é natural que governem e decidam por todo mundo. Isso é passado”.
Afirma Sané: A democracia não é uma coisa linear. A história tem avanços, paradas e retrocesso. Mas a tendência do progresso é pela justiça e pela democracia. As pessoas têm mais educação, conhecem mais os direitos humanos, cobram de seus líderes. Aqueles que tradicionalmente estavam dominando, por causa da riqueza, do tipo de família, pelo poder que tinham no passado, claro que vão resistir. Não teremos progresso apenas porque as pessoas desejam. As pessoas precisam se organizar e lutar por isso”.


Nascido em Dakar, no Senegal, em 1948, ele tem sua trajetória ligada a instituições multilaterais. Hoje, preside o Imagine Africa Institute, no Senegal. Ele comenta sobre EUA e resistência:
“Trump prometeu fazer a América grande novamente, o que significa fazer a América branca de novo. E manter o poder nas mãos de quem historicamente manda nos EUA. Mas não se pode retroceder o relógio, é impossível. Assim, no longo prazo, estou otimista. Mas temos circunstâncias como as de agora, que temos que superar. A chegada de Trump levou a um crescimento na resistência. As pessoas estão se organizando, lutando, resistindo. No final, o ideal democrático será preservado e reforçado”.
Mas como explicar a ascensão de grupos de extrema direita pelo mundo?
“As manifestações de extrema direita são reações. Percebem que estão perdendo espaço e resistem. E pensam que podem voltar o relógio. Mas não podem. Para mim, é uma ilusão. As forças do progresso são mais fortes. Precisamos nos organizar para superar obstáculos. Não penso que possa haver um retorno do fascismo ao poder. Não penso que possamos ter o retorno a ditaduras militares na América Latina ou na África. As sociedades são hoje muito mais complexas e a disseminação da informação e da educação muito complicado para alguém trazer um regime autoritário. Esta é uma fase ligada à crise do neoliberalismo, a crise do capitalismo, do sistema financeiro. Querem uma fatia maior, que o relógio volte para trás. Não querem dividir com o resto da população. São forças reacionárias”.
E a resistência?
Sané: “Infelizmente os sindicatos estão fracos. Mas há novos tipos de trabalhadores. Nos EUA houve as primeiras greves de trabalhadores de fast foods. Em Londres, as primeiras greves de camareiras de hotéis. Muitos são migrantes, que não estão organizados. Ele são as primeiras vítimas da exploração capitalista. Mas, porque o nível de educação é maior, sabem que estão sendo explorados. E o passo seguinte é se organizar e resistir. Isso está acontecendo. A qualidade da resistência está crescendo em todo o mundo”.
Ele defende a discussão de uma alternativa da esquerda ao neoliberalismo que tenha abordagem ampla. “Com a moldura do neoliberalismo, estamos lutando por direitos humanos, contra o racismo, contra intolerância a LGBTs, pela defesa do ambiente. Mas não estamos lutando por um novo sistema. A nova alternativa só pode ser global”.

Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena

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