“A Zuzu Angel não era uma militante política, a Zuzu Angel não era uma ideológica, a Zuzu Angel não era um risco para o Brasil. A Zuzu Angel era uma mãe desesperada em busca do corpo do filho, em busca do filho, do corpo e, depois, dos ossos. E ela fez tudo o que uma mãe, com grande vigor, com grande inteligência, grande competência, podia fazer. E ela, Zuzu, denunciou a ditadura internacionalmente, tornou aquele governo de militares, com toda aquela pompa, num governo ridículo, que matava os seus melhores valores, seus jovens, seus artistas, matava as pessoas.”

Palavras da jornalista Hildegard Angel ao TUTAMÉIA, em entrevista realizada no último dia cinco de junho, aniversário de cem anos do nascimento da estilista Zuzu Angel, heroína do povo brasileiro, perseguida e assassinada pela ditadura militar há 45 anos.

“Acho que ela fez muita pirraça, ela desagradou muito. Mataram a Zuzu Angel por vingança. Foi vingança contra a Zuzu Angel, o nome internacional, a mulher que revolucionou a moda brasileira, que foi outra luta dela contra a colonização mental, cultural, intelectual de nossos criadores, que não se inspiravam no Brasil, recebiam tudo mastigado da Europa e se submetiam a essa lavagem cerebral cultural”, afirma a jornalista (clique no vídeo para ver a entrevista completa e se inscreva no TUTAMÉIA TV).

Zuzu desagradou porque não se calou frente à tentativa de esconder a tortura e o assassinato de seu filho, Stuart Angel, irmão mais velho de Hildegard.

“Quando a ditadura tomou conta do Brasil, eu tinha 14 anos”, diz ela, que se tornou famosa por sua carreira como colunista social –também atuou no cinema e no teatro. “Vivi toda a minha adolescência, minha juventude dentro dessa realidade. Meu irmão era entre quatro e cinco anos mais velho do que eu, então ele já tinha sua formação política, ideológica, e para ele deve ter sido muito difícil do que para mim, porque ele já era uma pessoa pronta. Para esses jovens, que estavam se preparando para a universidade, isso tudo foi uma tragédia que se abateu sobre eles. Nós tínhamos de sobreviver. Numa ditadura, seu primeiro projeto não é se firmar profissionalmente, é continuar vivo. É um projeto de cada dia. Continuar vivo, continuar livre.”

E assim a jornalista vai contando a história e refletindo sobre a trajetória do país e da sua família, neste 2021 que traz tantas lembranças para os Angel: cem anos do nascimento de Zuzu, cinquenta anos do assassinato de Stuart –morto em 14 de julho 1971, aos 25 anos–, quarenta e cinco anos da morte de Zuzu.

A seguir, alguns trechos da entrevista de Hildegard Angel ao TUTAMÉIA.

QUEM ERA STUART

“Stuart Angel era um jovem estudante de economia que viveu a efervescência da ditadura militar desde o momento em que ela foi instalada no Brasil, o crescendo dessa opressão, pretendendo calar as vozes diferentes, pretendendo calar as consciências, calar as universidades, calar a cultura brasileira, calar os políticos progressistas.

“A ditadura foi proibindo. Foi invadindo as nossas casas, rasgando os nossos livros, controlando nossos telefonemas, espionando o nosso dia a dia, e nós éramos impedidos até de conversar em família a respeito daquele momento trevoso que se instalou no Brasil. À medida que a ditadura ia estendendo seu tempo, mais ela apertava o garrote, mais nós éramos impedidos de nos manifestarmos, de sentir, de compartilhar, de falar a respeito.

“Era essa a mentalidade. Era um ódio que eles tinham daqueles jovens. Enquanto eles praticavam o terrorismo do estado, eles transferiam para os jovens essa adjetivação de terroristas, quando eram eles que estavam praticando terrorismo. Os jovens estavam clandestinos, escondidos. Meu irmão estava dormindo em um barco, na garagem no clube de regatas Flamengo, um barco do remo, que ele era campeão de remo pelo Flamengo… Ele ficou fazendo o circuito do clandestino porque você não podia viver na ditadura: você ia ser preso e ia ser morto.”

TORTURA E MORTE

Por que o Stuart ficou clandestino? Porque a Sonia foi flagrada numa manifestação com a conta de luz da casa deles, eles eram recém-casados, moravam na Tijuca, e aí eles viraram os inimigos públicos número um. Isso era uma ditadura. Os jovens se organizaram para reagir. Luta armada contra tanques e canhões, contra aquela estrutura massacrante. Por mais que eles pudessem fazer, que eles fossem corajosos, que eles fossem preparados, que eles fossem inteligentes… Fizeram muito, mas morreram.

Stuart foi morto na Base Aérea do Galeão. Morto barbaramente, amarrado ao para-choque de um jipe, com a boca no cano de descarga. Esse jipe rodou o pátio, e Stuart morreu por sufocamento, com os pulmões carbonizados por aquele veneno, gás carbônico quente queimando seus pulmões. Ele gritava: “Água, água, água!” E morreu. Foi muito machucado, sentou naquela cadeira do dragão, lhe arrancaram dentes. Não foi fácil não.

O Stuart foi um belo exemplo de idealista, que foi torturado e morto por não entregar seus companheiros, não revelar onde estavam Carlos Lamarca e Carlos Alberto Muniz. Não revelou. Ele tinha seus endereços. Ele era uma pessoa confiável, e entregaram os endereços à pessoa certa, ao companheiro confiável. E disso eu muito me orgulho.

A LUTA DE ZUZU ANGEL

COLAR LUTO DE ZUZU — O colar foi utilizado por Zuzu Angel na apresentação do desfile-protesto da International Dateline Collection III – Holiday and Resort, em 1971, na residência do cônsul do Brasil em Nova York, Lauro Soutello Alves. Segundo Hildegard Angel, Zuzu usou o traje do luto muitas vezes, em ocasiões sociais e oficiais, com todos os seus adereços, xale, colar e cinto de cruzes, fazendo de sua imagem a alegoria pública de sua dor (foto e informações do Instituto Zuzu Angel)

A Zuzu chegou uma hora, quando Stuart ainda estava clandestino, depois quando Stuart não entrava mais em contato com a família, ela não sabia se ele estava morto, se ele estava vivo. Os rumores eram de que ele já tinha sido preso e morto, mas não havia confirmação. Ela procurava.

Meu pai tinha um tio, casado com uma tia dele, que era da Suprema Corte dos Estados Unidos, e esse tio entrou em contato com o ministro Aliomar Baleeiro, nunca tinha uma resposta de onde estava o sobrinho. Minha mãe foi para os Estados Unidos com a minha irmã, conseguiu marcar reunião com vários senadores, conseguiu ter esse apoio. Tudo isso contribuiu para criar entre os políticos norte-americanos uma consciência do que estavam fazendo com os jovens brasileiros. Ela usou todas as suas relações, Kim Novak, aquelas estrelas de Hollywood, ela conseguiu manifestações dessas pessoas. Conseguiu que Lisa Minelli, quando veio ao Brasil, em todos os ensaios ela usava a camiseta do anjinho que a Zuzu fazia, em alusão ao Stuart.

Tudo isso são ações, são lutas, são atos de coragem da Zuzu Angel. E por fim ela criou a coleção de protesto político, que teve uma repercussão internacional enorme, coleção que os especialistas estrangeiros na moda têxtil consideram análoga à bandeira do Brasil. Foi a única no mundo até então. E foi efetiva.

Essas são as lutas de Zuzu. Nunca se intimidou. Nunca se submeteu ao próprio medo. A sua indignação, a sua vontade de denunciar era mais forte do que o seu medo. Ela sabia o que iria ocorrer: ela deixou um bilhete com o Chico Buarque em que ela dizia que ela iria ser morta. Ela visitava o Chico toda vez que ela passava por ali, foram sempre muito bondosos com a mãe desesperada. E ela gostava de estar com o Chico porque ela identificava o Stuart no Chico. Dois homens da mesma idade, o mesmo jeito de falar, a mesma profundidade…. os olhos do Chico –Stuart também tinha olhos claros—, a música do Chico era tocada na sua loja ininterruptamente. A Zuzu tinha esse vínculo com Chico muito forte.

O bilhete dizia: “Se eu aparecer morta, por acidente, assaltou ou qualquer outro meio,  terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho”. E foi exatamente o que aconteceu. Mamãe foi assassinada dois ou três meses depois de entregar a Kissinger o dossiê sobre a tortura e morte de Stuart. Ali ela talvez tenha ultrapassada todos os limites da paciência do Geisel. Eles haviam anunciado que teriam uma segurança impenetrável, que nunca um visitante estrangeiro seria tão protegido, e ela fez isso. Ela se fantasiou de gringa, falando inglês, entrou no Sheraton, acharam que ela era hóspede, ela subiu, não a barraram, e ela conseguiu, uma coisa impressionante.

LEGADO DE STUART E ZUZU

O legado deles é o exemplo. O exemplo é tudo. Você cria um filho com o exemplo e você orienta uma nação com o exemplo. O mau exemplo negacionista do presidente da República é responsável por essas mortes (na pandemia). O que temos de fazer é esse mesmo trabalho contínuo, incansável, para manter essas memórias vivas. Não só da Zuzu e do Stuart, de todo mundo, do Lamarca, do Marighella… Tem de ter uma tradição na formação dos brasileiros, na formação escolar, da memória brasileira. Temos de valorizar os nossos heróis.

O tempo é tão relativo. Parece que foi ontem. A Zuzu se manteve tão presente na vida brasileira, e o Stuart também, graças ao empenho da mídia, dos seus ex-companheiros, das pessoas que comungam dos mesmos ideais de justiça social, de distribuição mais equânime das riquezas brasileiras, das facilidades, do conforto, do bem-estar. Essas pessoas não deixaram Zuzu Angel ser esquecida.

Espero que os mártires da ditadura sejam consagrados pela nossa história, como foi Tiradentes. Espero que todos aqueles brasileiros e brasileiras tenham esse reconhecimento da história, porque são exemplares. Um país precisa de pessoas, de atos, de fatos exemplares para que ele se espelhe exemplarmente, e não se deixe derrotar pelo negativismo, pelo fascismo, pelo nazismo, enfim, por tudo isso que hoje nos ameaça –o racismo, a ignorância, a falta de empatia. É necessário para a vida de qualquer nação que ela cultive suas referências. Não só para que os fatos não se repitam, mas para que tenhamos exemplos que nos guiem construtivamente rumo a um futuro soberano, importante, aquilo com que sempre sonhamos.