“O maior inimigo da ignorância é a cultura. A vida é cultura. E a antropofagia é uma grande cultura porque mistura tudo, come de tudo.
Acredito em re-existência. Você tem que se transformar quando acontece uma coisa violenta como um golpe, se reinventar e buscar uma estratégia nova. Não vale chorar a miséria. Tem que dar muito amor e encontrar saídas. A vida tem dentro dela a própria reinvenção dela. A gente precisa se re-existir. Precisa sempre morrer e renascer de novo”.

Palavras de José Celso Martinez Corrêa ao TUTAMÉIA em entrevista feita há quatro anos, em julho de 2019. Neste 6 de julho de 2023, o dramaturgo, encenador de teatro, ator morreu, aos 86 anos, em decorrência de um incêndio em seu apartamento no bairro do Paraíso, em São Paulo.

Em programa de homenagem a esse gigante da cultura brasileira –ou um xamã, como também se definia–, TUTAMÉIA reproduziu a entrevista em que ele declama, canta, fala do teatro grego, de Oswald de Andrade, de Lula. Lembra de como enveredou para o teatro, ao escrever uma peça na juventude em Araraquara; fala de sua trajetória, de seus amores, de seu processo de criação, de suas crenças e desejos (acompanhe a íntegra no vídeo e se inscreva no TUTAMÉIA TV).

Em julho de 2019 Bolsonaro já estava no poder, e Zé Celso conclamava à resistência e definia aqueles tempos como os de uma “felicidade guerreira”.  “Está existindo uma corrente forte. Eu sinto uma primavera, a tal primavera de que o Lula fala, aliás. Existe essa primavera no Brasil, mas ela está tolhida por essa sombra”, disse.

No programa de homenagem a Zé Celso, TUTAMÉIA traz falas do diretor fazendo chamados à luta –contra o fascismo no Brasil, pela cultura, pela democracia. Também de seu combate ao projeto de Silvio Santos de fazer um shopping ao lado do Oficina, cimentando e sufocando ainda mais o rio Bexiga, que corre nas entranhas da região.

Nessa entrevista, ele enfatizou:

“Nesses momentos assim, a gente tem que aprender tudo de novo e valorizar as coisas que mais importam que são as forças da natureza. O mais importante na vida é a natureza e a nossa natureza. Você tem que lutar com ela, com a sua natureza humana, que é potente, que é poderosa. O ser humano tem poder se ele quiser exercer. Mas ele precisa atuar. Ele não pode simplesmente se entregar passivo e deixar se possuir, ser capturado. Tem uma máquina de captura. Entrou lá dentro, você deixa de ser uma pessoa humana. Você passa a ser um clichê”.

A atriz Débora Duboc participa da homenagem no TUTAMÉIA, ressaltando a importância de Zé Celso como fundador de gerações de artistas. Para ela, ele era como uma árvore, um carvalho. Também um rio. “É como um rio que banha e hidrata a gente. O Zé é um rio”, afirma.

A seguir, o texto da reportagem publicada em 2019, baseada na entrevista com Zé Celso, realizada nos estúdios domésticos do TUTAMÉIA e então transmitida ao vivo.

SINTO UMA PRIMAVERA NO BRASIL, DIZ ZÉ CELSO

5 DE JULHO DE 2019

Ele cantou, declamou, gargalhou. Mergulhou no teatro grego, falou de Nietzsche, Davi Kopenawa, Nise da Silveira, Oswald de Andrade, Lula, Stanislavski, Viveiros de Castro, Euclides da Cunha, Isaurinha Garcia, Chico Buarque, Xuxa, Glauber Rocha. Atacou Bolsonaro e Mooooro. Elogiou o MST e os estudantes. Definiu os tempos atuais como os de uma “felicidade guerreira”. E identificou a chegada de uma primavera no Brasil.

Assim foi a entrevista de José Celso Martinez Corrêa, 82, ao TUTAMÉIA. Dramaturgo, diretor de teatro, encenador, ator, ele é símbolo do Oficina e um dos nomes mais fortes do teatro brasileiro –onde ele atua há mais de 60 anos.

Zé Celso está em cartaz em São Paulo com “Roda Viva”, a peça de Chico Buarque de 50 anos atrás, que volta transformada em musical catártico, crítico dos tempos de neofascismo no poder e transbordante de energia de luta.

“Fui torturado e exilado, mas acho esse [governo] muito pior. Porque ele é imbecil. Estamos sendo governados pela imbecilidade. Os aliados, os militares fazem uma casta absolutamente absurda. O filho dele gritando dando berros, reclamando sempre. Eles estão avançando, destruindo a Amazônia –porque eles não perdem tempo. Vi coisas que nunca sonhava ver. Além de rir, temos que encontrar meios”, diz.

Sobre Moro, afirma: “Ele está um boneco, tem cara de gibi. Ele foi o responsável pela eleição do Bolsonaro. Ele criou, com a mídia, o bode expiatório chamado Lula. [Agora], o super-homem murchou”.

Zé Celso fala com entusiasmo das manifestações de maio e do público do teatro. “Está existindo uma corrente forte. Eu sinto uma primavera, a tal primavera de que o Lula fala, aliás. Existe essa primavera no Brasil, mas ela está tolhida por essa sombra. O maior inimigo da ignorância é a cultura. A vida é cultura. E a antropofagia é uma grande cultura porque mistura tudo, come de tudo”.

Ele não fala em resistência. “Acredito em re-existência. Você tem que se transformar quando acontece uma coisa violenta como um golpe, se reinventar e buscar uma estratégia nova. Não vale chorar a miséria. Tem que dar muito amor e encontrar saídas. A vida tem dentro dela a própria reinvenção dela. A gente precisa se re-existir. Precisa sempre morrer e renascer de novo”, diz ele na entrevista (veja a íntegra no vídeo no alto desta página).

Zé Celso fala de “Roda Viva”: “O Chico vai ficar besta quando ver, porque a peça está ótima. Tem mais amor, libido, poesia, arte de viver. Nesses momentos assim, a gente tem que aprender tudo de novo e valorizar as coisas que mais importam que são as forças da natureza. O mais importante na vida é a natureza e a nossa natureza. Você tem que lutar com ela, com a sua natureza humana, que é potente, que é poderosa. O ser humano tem poder se ele quiser exercer. Mas ele precisa atuar. Ele não pode simplesmente se entregar passivo e deixar se possuir, ser capturado. Tem uma máquina de captura. Entrou lá dentro, você deixa de ser uma pessoa humana. Você passa a ser um clichê”.