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Recorde mundial nos 15 km evidencia evolução dos fundistas

Os superfundistas de hoje em dia estão levando cada vez mais longe a resistência humana e mostram que já está ali, ali, quase na esquina, o momento em que alguém vai completar a maratona em menos de duas horas –marca por muitos tida como indestrutível.

A mais recente ameaça à virgindade dos 120 minutos vem de Uganda: neste domingo, 18.11, o jovem Joshua Cheptegei destruiu o recorde mundial dos 15 quilômetros ao vencer a prova Sete Colinas, em Nijmegen, Holanda (foto Divulgação)

Ele manteve, durante pouco mais de 40 minutos –41min05 para ser exato—o rimo médio de 2min44s33 por quilômetro. Se ele fosse capaz de repetir isso na maratona, completaria a prova com vantagem de mais de três minutos sobre as duas horas.

Claro que as coisas não são assim. O que estou dizendo é que fica claro que os grandes fundistas estão se tornando mais capazes de manter por grande tempo ritmos superfortes.

A quebra do recorde mundial da meia maratona, há três semanas, é outra evidência desse processo. O queniano Abraham Kiptum, de 29 anos, completou em 58min18 a prova de Valencia, Espanha. A marca, ainda não homologada, é cinco segundos melhor do que o recorde anterior, que já durava oito anos.

Por quilômetro, a média do queniano foi de 2min45s78, ligeiramente inferior ao ritmo imposto por Cheptegei na Holanda. Se ele conseguisse dobrar a distância no mesmo ritmo, completaria a maratona com folga de pouco mais de um minuto para as duas horas.

Essa simples comparação já mostra a dificuldade que é manter esses ritmos fabulosos ao longo de quilômetros que parecem intermináveis.

Comparado com a média desses dois recordistas, o ritmo do dono do recorde mundial da maratona, Eliud Kipchoge, é passo de tartaruga: 2min52s96 por quilômetro.

O ritmo por quilômetro para completar a maratona em menos de duas horas é, grosseiramente, de 2min50. Ou seja, Kipchoge teria de limar três segundos por quilômetro na sua marca.

Será que ele é capaz disso? Ou correr em circuito fechado, não válido para recorde, ele beliscou a marca, bateu na trave, fechando em 2h00min25. Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

Já para os recordistas das distâncias menores, se e quando quiserem tentar sua força na maratona, o desafio vai ser correr um pouco menos, guardar energias e distribuir as forças ao longo de mais quilômetros. Cada um deles têm cerca de cinco segundos a mais para gastar. Será que é o suficiente para levá-los até o final dos 42,2 quilômetros?

Talvez as maiores chances estejam exatamente com o recordista do dia, o Chefão de Uganda, como é conhecido Cheptegei em seu campo de treinamento no país.

Com apenas 22 anos, ele tem a idade a seu favor. Mas, apesar de jovem, nem de longe é novato ou inexperiente: traz no currículo, por exemplo, a medalha de prata nos 10.000 m no Mundial do ano passa, e foi campeão nos 5.000 m e nos 10.000 m nos Jogos da Comunidade Britânica deste ano.

Isso que passou por perrengues bem pedestres neste 2018, o que mostra que os campeões também são gente como a gente (#sqn). Durante boa parte do ano teve de lidar com uma chatérrima lesão no joelho.

A origem do problema foi um peculiar acidente doméstico em agosto do ano passado, pouco depois de ele voltar do Mundial.

Na casa que divide com a esposa Carol e o filho Jethan, que então tinha dois meses, o maratonista estava carregando uma jarra de água com a mão esquerda. Para melhor equilíbrio, resolveu passar a jarra para a mão direita.

Não foi feliz na transição, e um tanto de água espirrou e molhou seus chinelos.

Para não sujar a casa, tratou de tirar os chinelos, um de cada vez. Quando estava descalçando o pé direito, escorregou. A perna esquerda derrapou para trás, e a direita foi para a frente: o joelho bateu com tudo na porta da casa.

Parece cena de “Os Três Patetas”, mas cada um de nós sabe que já passou por absurdos semelhantes de quase-queda assustado ou estupidificante queda de verdade.

A tal inocente batida evoluiu para uma baita lesão no joelho, que fez com que ele perdesse semanas de treino –tanto as que ficou efetivamente sem treinar quanto as em que, como sabemos, teve de evoluir lentamente a intensidade e o volume dos esforços.

Bom, como se viu hoje, funcionou.

Tomara que ele possa seguir em frente sem lesões e, em breve, chegar à maratona.

Rodolfo Lucena

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