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Papai era muito romântico, conta filha de Che Guevara

“Eu pesquisei e me dei conta de que papai me amou. O que posso fazer nesse sentido é devolver o amor. É o que aprendemos. Apesar de sua ausência, minha mãe o amava extraordinariamente e o segue amando. E ela transferiu parte desse amor a nós. Minha mãe sempre disse: se querem honrar seu pai, sejam bons homens e boas mulheres; sejam úteis”.
As palavras são de Aleida Guevara, filha de Che Guevara (1928-1967) em entrevista ao TUTAMÉIA (ACOMPANHE NO VÍDEO ACIMA E INSCREVA-SE NO NOSSO CANAL). Médica, ela fala de suas lembranças do comandante da revolução cubana. Tinha quatros anos e meio quando viu oficialmente o pai pela última vez.
A recordação vem de uma foto de família antes de o guerrilheiro partir para o Congo, em 1965. Nela estão Aleida March, a segunda mulher de Che, e os quatro filhos desse casamento (antes, ele teve uma filha com Hilda Gadea). Che está de pé, com roupa militar e acarinha a cabeça do caçula, Ernesto, de poucos meses.
“Ele toca a cabeça de Ernesto com tanta ternura”, conta Aleida Guevara, 57. Ela se lembra também de um momento à beira do mar, quando toda a família joga rosas na água em homenagem a Camilo Cienfuegos (1932-1959), companheiro de Guevara e Fidel Castro na derrubada do ditador Fulgêncio Batista, há quase 60 anos, em 1º de janeiro de 1959. Rememorando a cena, diz: “Ele era muito romântico”.

Che com a esposa Aleida e os quatro filhos do casal

As recordações de Aleida sobre o pai são poucas, mas intensas. A última vez que, de fato, esteve com ele, Che estava disfarçado. Participou de um jantar com a família como se fosse um amigo do guerrilheiro; por razões políticas, ele estava clandestino na ilha. A filha rememora a ceia e relata que caiu, machucando a cabeça. Foi atendida com especial atenção pelo “convidado” (Che era médico), que a examinou e a tomou nos braços. De alguma forma percebendo uma relação especial entre os dois, disse à mãe: “Acho que esse homem está enamorado de mim”.
BLOQUEIO CRIMINOSO
Pediatra, Aleida fala da prática da medicina em Cuba –uma referência mundial na área. Condena o bloqueio norte-americano, que afeta a população também na área de saúde. Relata o caso de uma menina de oito meses, com sangramento no sistema digestivo alto. O medicamento necessário, patenteado pelos EUA, não podia ser comprado pelo governo em razão dos embargos decretados por Washington. “É um bloqueio criminoso. Rompemos o bloqueio todos os dias através da solidariedade”, afirma.
Ao TUTAMÉIA, Aleida compara as administrações de Barack Obama e Donald Trump. “Obama era mais perigoso, no sentido de que era um homem mais inteligente, mais capaz e que se deu conta de que o bloqueio era absurdo. Mas quando foi a Cuba não se reuniu com empresários socialistas; ficou só com os privados. Estava tentando ver como entrar. Ele era mais inteligente e mais perigoso”.
Com Trump, afirma, as coisas voltaram a ser como tinham sido nas últimas décadas, com agressividade. “O sistema social cubano põe os EUA em crise porque mostra que se pode fazer um mundo diferente. Se Cuba se multiplica na América Latina, o que será dos EUA”?


SOCIALISMO ASSUSTA OS EUA
Aleida lembra que os Estados Unidos são o maior consumidor de petróleo do planeta e tinham se acostumado a levar vantagem na Venezuela até a chegada de Hugo Chávez ao poder, em 1999. “Hoje eles têm que pagar o preço do mercado internacional. Por isso toda a tentativa midiática contra a Venezuela. Simplesmente se sentem ameaçados. Roubam todos os dias as nossas riquezas”.
A filha de Che cita o caso do níquel cubano, antes explorado (com outros minérios) pelos EUA. “Quando os cubanos nacionalizaram o níquel, veio o conflito, o bloqueio. Tentam estrangular o processo revolucionário, provocando fome e necessidades. Mas chegaram em um momento equivocado. A revolução socialista demonstrou que se pode viver de outra forma. Terra, reforma agrária, os minerais são nossos. O Estado os explora para benefício do país, para atingir suas prioridades, saúde, educação, para que os cubanos possam viver a plenitude humana. A revolução foi provando que se pode viver de outra forma. Isso provoca um terror nos EUA e faz com que utilizem meios de comunicação contra nós”.
Na visão de Aleida, as mudanças em curso em Cuba (novo presidente, debate sobre a nova Constituição) “são para manter e aperfeiçoar o socialismo”.
BRASIL SEM JUSTIÇA
Aleida fala de suas viagens pelo Brasil. Relata a visita ao acampamento em solidariedade ao presidente Lula. Considera a situação atual do país “difícil de aceita”: golpe e prisão de Lula sem provas.
“Se Lula, um homem reconhecido internacionalmente sofre isso, imagina o que pode acontecer com um brasileiro comum. Que segurança alguém pode ter nesse país com essa Justiça? Como se pode viver tranquilamente num lugar onde não existe justiça? É impressionante para mim. Como as pessoas suportam isso?”, diz.
A filha de Che fala da abundância de recursos do Brasil: petróleo, água, minerais, florestas, produção de alimentos. “Não é justo que existam brasileiros passando fome. Não é possível entender isso. Uma criança tenha que ir à rua para vender balas? Isso dá uma dor no peito. Porque este é um país rico. Como é possível que o povo não o desfrute? Nos últimos anos, havia melhorado muito. Não havia crianças na rua. Há um retrocesso. Foi um golpe para prejudicar o povo, para piorar a situação em que vive o povo? Não posso aceitar, não entendo”.


LEGADO DE CHE
Aleida fala com entusiasmo das manifestações #Elenão, que presenciou aqui. “O momento é muito delicado. As mulheres demonstraram o que querem”, afirma. E acrescenta:
“É preciso atuar. Do céu não cai nada. O povo brasileiro é muito capaz. Tenho confiança de que a situação vai melhorar. Che queria o povo feliz, com dignidade para viver. Esse pensamento é o seu melhor legado. Se ele for levado à pratica neste sete de outubro (véspera de seu 51º aniversário de morte), os brasileiros estarão dizendo que Che segue vivendo”.

Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena

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