Por ANGELA CARRATO
Jornalista e professora da UFMG,
mestre e doutora em Comunicação. Autora de livros e artigos sobre mídia, democracia e letramento para a midia
Começou nesta segunda-feira (17/8), a cobertura do JN sobre a agenda dos candidatos à presidência da República. Na prática, teve início a cobertura da campanha eleitoral com quatro reportagens que deveriam estar interligadas e foram apresentadas isoladamente e sem contextualização.
A primeira mostrou o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, se reunindo com 91 diplomatas estrangeiros para assegurar que o sistema eleitoral brasileiro é inviolável. Foi curioso, para não dizer outra coisa, ver a defesa de Nunes Marques a este sistema, sem que o JN deixasse claro para os telespectadores quem o ataca. O sujeito oculto é o bolsonarismo, que a reportagem preserva. O senador Flávio Bolsonaro, filho do Jair, é um dos candidatos que disputa a presidência da República. Por isso, a reportagem deveria ter dado nome aos bois. E não deu.
Outra passada de pano no bolsonarismo nesta reportagem foi ter mostrado o plano do TSE para combater as fake news nas eleições, sem mencionar quem são os maiores criadores e divulgadores de mentiras.
O ministro Nunes Marques indicou apenas a criação de uma “sala de situação” para avaliar o quadro, quando o combate às mentiras da extrema-direita já é um dos problemas mais graves nesta campanha eleitoral. A reportagem escondeu isso e naturalizou a postura indulgente do ministro para com estes crimes.
Uma enganação para os telespectadores.
A segunda reportagem abordou, com pretensa igualdade, a agenda diária dos presidenciáveis. É aí que entra em cena outra enganação, pois uma atividade da maior importância para o Brasil, como a de Lula, que esteve no Amapá, onde a Petrobras, com investimentos de seu governo, descobriu mais uma bacia de petróleo, possivelmente o maior do país, teve o mesmo tempo e tratamento que agendas entreguistas e neoliberais como as de Renan Santos, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Augusto Cury.
Renan e Caiado participaram de um evento anual do banco Santander, em São Paulo. Renan defendeu que os reajustes do salário mínimo e da Previdência Social sejam desvinculados e acima da inflação. Um crime contra os trabalhadores e os aposentados, mas o JN fez cara de paisagem.
O telejornal da família Marinho também não viu nada demais na proposta defendida por Caiado, que quer combater o narcotráfico no Brasil em moldes muito semelhantes aos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, cumpriu apenas metade de sua agenda prevista em Minas Gerais. O JN não noticiou que ele desistiu de relembrar a polêmica facada de que o pai foi vítima em Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, e nem mostrou o fracasso de público de seu evento em Belo Horizonte. Os telespectadores mais atentos devem ter estranhado ele anunciar que, se eleito, “trabalhará em conjunto com quem for o governador de Minas”. Na prática, estava tentando contornar os problemas entre os candidatos a governador do PL e do Republicanos no estado. Novamente o JN fez cara de paisagem.
Já o candidato Romeu Zema voltou a defender a privatização de todas as empresas públicas, enquanto Augusto Cury quer implantar o semipresidencialismo no país. Cury, cuja agenda se limitou a gravar programas eleitorais, não perdeu oportunidade para elogiar o ridículo presidente da Argentina, Javier Milei, e defender “mais diálogo com Trump”, desconhecendo que o presidente dos Estados Unidos vem agredindo países da América Latina e abertamente tenta interferir nas eleições brasileiras.
O JN tem feito questão de desconhecer as agressões de Trump à soberania brasileira e cobre o assunto como se tratasse de uma mera disputa comercial, sem influência nas eleições.
A terceira reportagem foi sobre os institutos de pesquisa. O tema é oportuno, em especial diante do pesquisismo que tomou conta da mídia brasileira. Nas últimas semanas, um número elevadíssimo de pesquisas foi divulgado sobre a corrida presidencial. Chegou-se a ter mais de uma pesquisa divulgada por dia!
Ao contrário de explicar para o público quais os motivos disso e quem paga a conta, o JN desviou o assunto para “os temas que mais preocupam os brasileiros desde 1996”.
O motivo para o pesquisismo é um só: tentar derrotar Lula nas eleições de outubro. A coisa funciona assim: a mídia joga todos os escândalos no colo do governo. Em seguida, os institutos saem a campo para pesquisar a avaliação do governo e a intenção de voto nos candidatos a presidente.
É com este expediente que o grande capital financeiro tem conseguido que a avaliação do atual governo Lula permaneça bem aquém daqueles 87% com que deixou o Palácio do Planalto em 2010, em que pese a boa gestão que está sendo realizada.
Não é por acaso que todas as pesquisas divulgadas pelo JN são pagas pelo sistema financeiro, esse mesmo que, se pudesse, privatizava tudo e deixaria a população brasileira em situação tão desesperadora quanto a que se encontra os argentinos.
A “cereja do bolo” do JN, no entanto, ficou para o final.
Começou nesta edição a série “JN nas Ruas”. Os âncoras César Tralli e Renata Vasconcellos estiveram em cidades das cinco regiões brasileiras, conversando com pessoas comuns e com especialistas sobre os problemas brasileiros. A primeira reportagem da série teve a cidade do Rio de Janeiro como local e os temas abordados foram saúde e educação.
Mais uma vez faltou compromisso com a realidade.
Como falar em saúde e educação no Rio de Janeiro sem mencionar diretamente as milícias?
Um dos entrevistados pós o dedo na ferida, ao falar que “saúde é muito mais do que não ter doença”. O SUS foi elogiado, mesmo alguns entrevistados lembrando que ainda existem problemas para marcar cirurgias. Uma estudante de Medicina, moradora da favela da Maré, fez verdadeira profissão de fé na educação. Só que programas essenciais dos governos petistas como Prouni, Cotas, ampliação do valor das bolsas de estudos, criação de dezenas de novas universidades federais e de centenas de centros tecnológicos, ou mesmo o Bolsa Família não foram sequer mencionados. Com fome ninguém aprende, não é mesmo? E não há saúde sem segurança alimentar.
Some-se a isso que a riqueza e a pobreza no Rio de Janeiro, representadas na reportagem pelo entorno do castelo da Fiocruz, são mostradas como algo que deve ser combatido, mas não se aponta como e, muito menos, quais propostas de governo são mais adequadas para mudar este quadro.
Exceto Lula, nenhum dos demais candidatos se preocupa com estes temas. Ao contrário. Querem privatizar tudo: do SUS às universidades e centros tecnológicos, mas a reportagem embaralha as cartas e confunde os desatentos.
A série continua amanhã, tendo como novo local a histórica cidade de Pirenópolis, em Goiás, e como tema o agronegócio. Ela tem tudo a ver com aquelas reportagens “Que Brasil você quer para o futuro?” Lembra-se?
Exibida pelo JN na campanha eleitoral de 2018, a série mencionava o tempo todo a necessidade de “mudança”. O resultado foi a vitória de Jair Bolsonaro.
O objetivo do JN, naquela época como agora, era construir uma narrativa sobre a realidade segundo os interesses da classe dominante e não a partir das necessidades da população brasileira.
O grande problema brasileiro segue sendo a desigualdade.
Como a família Marinho é parte do “andar de cima”, ao invés de falar em políticas públicas que contemplem a maioria, falam em “gastança do governo”, em “desequilíbrio fiscal”, defendem todas as privatizações, escondem a atuação do Congresso Nacional, dominado pela extrema-direita e encobrem péssimas administrações como as de Tarcisio de Freitas, em São Paulo, ou a de Zema, em Minas Gerais.
É por isso que esta nova série, com toda a demagogia de Tralli e Renata no meio do povo e em painéis digitais nos pontos de ônibus – o grupo Globo comprou recentemente a Eletromídia, maior empresa deste tipo no Brasil por R$ 3 bilhões – serve para a família Marinho e seus amigos tentarem emplacar o Brasil que desejam, e passa longe de verdadeiramente dar espaço à voz das ruas.
Alguma surpresa?