“O Brasil tem, à frente do TSE, neste momento crucial, o ministro Kássio Nunes Marques, bolsonarista confesso, que já deveria ter sido afastado de suas funções, pelo grau de envolvimento e partidarismo com que atua para favorecer o candidato miliciano”, diz a jornalista Angela Carrato, professora da Universidade Federal de Minas Gerais e especialista em comunicação. Leia a seguir a íntegra do texto em que ela analisa o processo eleitoral brasileiro.
A MÍDIA CORPORATIVA,
GRUPO GLOBO À FRENTE,
MENTIU E DISTORCEU A REALIDADE
Texto de ANGELA CARRATO
O termo suruba vem do tupi suru’ba. Ao passar a ser adotado no português antigo assumiu os significados de grande confusão, escândalo, orgia e bacanal. Significados com os quais é entendido na atualidade.
A campanha eleitoral terminou ontem. Hoje os brasileiros e brasileiras vão às urnas para votar, escolher entre dois projetos opostos: o que defende a democracia, a justiça, a inclusão social e a soberania e o outro, que apoia o ganguesterismo, assassinos, sicários, milicianos, golpistas, falsários, coachs e entreguistas.
Em condições normais a escolha seria muito fácil. Mas a campanha eleitoral, precisamente os últimos anos no Brasil estão longe de serem normais.
A mídia corporativa, grupo Globo à frente, mentiu e distorceu a realidade, sempre com o objetivo de impedir que a população soubesse e entendesse o que estava acontecendo. O mesmo pode ser dito das big techs, os gigantes de tecnologia estadunidenses, que fizeram de tudo para criar uma realidade paralela no Brasil.
Como se isso não bastasse, tivemos e estamos tendo interferência direta do governo dos Estados Unidos, através de Donald Trump e de seus assessores para, até o último momento, tentar impedir a reeleição de Lula.
Some-se a isso o azar de o Brasil ter, à frente do TSE, neste momento crucial, o ministro Kássio Nunes Marques, bolsonarista confesso, que já deveria ter sido afastado de suas funções, pelo grau de envolvimento e partidarismo com que atua para favorecer o candidato miliciano.
Tudo isso constitui o que denomino surubas da mídia, das big techs, dos institutos de pessquisa e do presidente do TSE.
Vamos aos fatos.
A SURUBA DA GLOBO
Não é novidade para ninguém que o Grupo Globo sempre foi contra e sabotou governos progressistas. De Getúlio Vargas a Lula, a família Marinho esteve do lado errado da história. Foi fundamental para levar Getúlio ao suicídio, derrubar João Goulart e Dilma Rousseff,, derrotar Lula em 1987 e prendê-lo, sem provas, por 580 dias.
Em 2017, o Grupo Globo escondeu da população brasileira quem era Jair Bolsonaro. naturalizando os seus absurdos e atuações. Com Lula preso, ele conseguiu se eleger e deu no que deu. Mais de 700 mil mortos pela pandemia do covid-19, sendo que a maior parte dessas pessoas poderia ter sido salva; o Brasil despencou em todos os índices de desenvolvimento e se tornou chacota mundial.
Mesmo sendo achincalhada por Bolsonaro, como de resto toda a mídia corporativa brasileira, a família Marinho, na campanha atual, decidiu combater Lula. O motivo é puro ódio de classe, pois com Lula ganhou muito dinheiro. A família Marinho tentou de todas as formas criar uma “terceira via”. Não deu certo, porque a extrema-direita daqui, que atende pelo nome de bolsonarismo, inviabilizou esta possibilidade. Mesmo assim, incensou candidatos como os fraquíssimos e entreguistas Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Augusto Cury com o único objetivo de evitar uma possível vitória de Lula no primeiro turno.
Essas estão longe de ser as atuações mais graves e perniciosas do Grupo Globo contra a candidatura de Lula. Desde o início de seu mandato, a TV Globo, principal emissora de TV aberta do país, criticou o governo, não noticiando e escondeu da população o muito que estava sendo feito para recuperar o país herdado dos golpistas Temer e Bolsonaro.
Exceto nas primeiras semanas após a tentativa fracassada de golpe de 8 de janeiro de 2023, onde era impossível esconder a destruição e o vandalismo praticados pelos golpistas, as emissoras do grupo Globo bateram diuturnamente no governo Lula. Segundo elas, Lula era responsável pela energia elétrica cara, sendo que Bolsonaro privatizou a Eletrobras e deixou o governo sem meios para controlar as tarifas. Lula foi responsabilizado pelo preço dos combustíveis, quando a Petrobras foi quase privatizada por Bolsonaro e sua rede de distribuidoras, a BR, privatizada a preço de banana. Lula foi responsabilizado pela alta taxa de juros, quando a taxa de juros herdada de Bolsonaro foi de 13,75%, sem falar que durante os dois primeiros anos de seu governo, Lula teve que conviver com o Banco Central independente, presidido pelo amigo do corrupto Daniel Vorcaro e de Flávio Bolsonaro, Roberto Campos Neto. Lula fez muitas viagens ao exterior, mas todas voltadas a abrir mercados para os produtos brasileiros. No entanto, para o grupo Globo e a maioria da mídia corporativa brasileira ele e a primeira dama Janja iam passear e gastar o dinheiro público.
A subserviência ao imperialismo estadunidense por parte da mídia corporativa brasileira é tamanha, que quando Trump, a pedido da família Bolsonaro, taxou as exportações brasileiras, esta mídia teve o desplante de responsabilizar Lula. Não faltaram editoriais indignados, exigindo que Lula telefonasse ou fosse aos Estados Unidos implorar que Trump mudasse de ideia.
Não vi nenhum editorial indignado cobrando o oposto: que a família Bolsonaro parasse de trabalhar contra o Brasil e o povo brasileiro. Aliás, a presença do hoje condenado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos não foi alvo de crítica por esta mídia. Ele é tratado como estando passando férias lá. Chama a atenção, por exemplo, como essa mídia não pediu que seus vários correspondentes nos Estados Unidos cobrissem o dia-a-dia de Eduardo Bolsonaro. Acredito que os brasileiros teriam muito interesse em saber como ele vive e o que faz em terra estrangeira.
Até o fim da Copa do Mundo, que coincide com ano eleitoral no Brasil, a mídia corporativa, Grupo Globo à frente, ignorou as eleições. Durante o primeiro turno, o assunto também continuou praticamente ignorado. O que continuou sendo noticiado foram críticas ao governo Lula e encobertas todas as suas realizações. Mais ainda: a família Marinho fez de tudo para Lula ir a debates no primeiro turno, apostando nos ataques que receberia dos candidatos fantoches. Lula, que não tem nada de bobo, não foi. É importante lembrar que a mesma Globo não só naturalizou a jogada de Fernando Henrique Cardoso que estabeleceu a reeleição que o beneficiou, como nunca cobrou a ida dele a debates nas eleições de 1995 e 1998.
A Globo tem lado e não é o do povo brasileiro.
No segundo turno da eleição de 2026, a Globo repetiu com Flávio Bolsonaro a naturalização que fez com o pai. Ao longo das últimas três semanas, escondeu do público o mar de gente que tomou ruas e avenidas das capitais e da maioria das cidades brasileiras em apoio a Lula. Flávio Bolsonaro não levou nem um décimo dessas pessoas às ruas. No dia da entrevista de Flávio na TV Globo, a família Marinho o recebeu para almoço em grande estilo (sobre o que conversaram?). Na entrevista, Flávio foi visivelmente poupado.
No debate entre os dois, na última sexta-feira, a TV Globo poderia ter feito história se tivesse adotado – como era o clamor nacional – a checagem dos fatos em tempo real. Não adotou. Fez uma suposta e parcial checagem e impediu que a população brasileira soubesse que as afirmações de Lula eram 92% verdadeiras, enquanto Flávio disse só 28% de verdades. Ah, para despistar a parcialidade, na véspera da eleição, mostrou imagens de rua das duas campanhas e uma matéria, só no final da edição, dizendo que Flávio Bolsonaro acabava de ser incluído, pelo ministro Alexandre de Moraes do STF, no inquérito que investiga seu amigo Weller Tomaz, aquele que ganhou bilhões com as Bets, sonegou uma fortuna e se encontra nos Estados Unidos.
A SURUBA DAS BIG TECHS
O governo Lula tentou, por quase dois anos, que o Congresso Nacional aprovasse legislação regulando as big techs. Não conseguiu devido à atuação da extrema-direita. Para evitar que o Brasil se tornasse uma terra sem lei e que essas grandes empresas estadunidenses fizessem o que bem entendessem, o STF, através do ministro Alexandre de Moraes, impôs restrições à atuação delas. A mais visível foi exigir que a plataforma X, do bilionário Elon Musk, tivesse escritório e representante no Brasil. Musk se recusou e teve sua plataforma suspensa por 28 dias, até cumprir as exigências legais.
O Brasil não é o único país em que as big techs tem feito estragos na política. Na Europa vários países também tentam regulá-las. No Brasil as mídias corporativas, que atuam sintonizadas com esses gigantes da tecnologia, escondem isso da população.
As big techs estadunidenses atuam em sintonia com Donald Trump, que tudo tem feito para impedir a reeleição de Lula. Elas atuam através dos algoritmos, confinando os usuários em bolhas, reduzindo o alcance de postagens do presidente Lula e de seus apoiadores e potencializando as postagens favoráveis a Flávio Bolsonaro. O deputado Nikolas Ferreira que o diga, uma vez que suas postagens, como foi denunciado pelo deputado André Janones chegavam inexplicavelmente a milhões de pessoas, inclusive quem não fala português. Tais ações têm o papel de impressionar os incautos.
A manipulação dos algoritmos já foi denunciada em outras eleições, inclusive nos Estados Unidos, A diferença é que fora do Brasil o assunto ganhou a mídia corporativa. Aqui o silêncio é absoluto. Para tentar se colocar como imparcial, o que definitivamente não é o caso, o conselho da Meta, empresa do bilionário Mark Zuckerberg, admitiu, na última quarta-feira, que “houve falhas” em relação à campanha eleitoral no Brasil. Isso que deveria ser manchete em toda a mídia, limitou-se a uma nota no portal UOL da Folha de S. Paulo, mesmo assim por algumas horas. Se tivéssemos uma mídia corporativa digna, o mínimo era exigir que tudo fosse paralisado e que a Meta explicasse em detalhes quais foram essas “falhas”.
A atuação da Meta – dona do Facebook, do Instagran e do Whatsapp – tem sido a de interferência direta dos Estados Unidos nas eleições brasileiras. Some-se a isso que, na véspera do primeiro turno, Trump, sem qualquer motivo, determinou o fechamento da embaixada e dos consulados de seu país no Brasil, a fim de criar medo e insegurança na população local e em estrangeiros que viessem para cá. Tanto essa atuação como a manipulação da Meta foram denunciadas pela campanha de Lula junto aos órgãos competentes no Brasil e no exterior. Aqui, a mídia corporativa fingiu que não viu.
O jornal britânico The Guardian denunciou que o governo Trump liberou, às vésperas do primeiro turno, US$ 1 milhão para apoiar entidades e influenciadores que fizessem denúncias contra o STF e a censura que dizem esta corte impõe ao Brasil. Neste projeto batizado como Coutering Lawfare and Censorship in Brazil, o alvo era o ministro Alexandre de Moraes, que teve papel decisivo no julgamento e condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão.
A jugada repete o que aconteceu no pré-1964, quando instituições bancadas pelos Estados Unidos como o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) e o Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais (IPES), derramaram milhares de dólares na campanha dos candidatos de oposição a João Goulart e pagaram regiamente a jornalistas brasileiros para escreverem contra o Brasil, O escritor Rubem Fonseca foi uma dessas pessoas.
A mídia corporativa escondeu esse assunto.
Trump manteve-se calado neste segundo turno. Silêncio que pode ser interpretado como preocupação com o resultado das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, que ocorrem em 3 de novembro próximo. Depois de declarar que faltava só vencer no Brasil para toda a América do Sul passar a ser controlada por ele, enfrenta dura oposição de congressistas do Partido Democrata, que estão denunciando a interferência dele nas eleições brasileiras. Isso não virou manchete na mídia brasileira, mas foi destaque na mídia em todo o mundo, a começar pelos jornais The Guardian (inglês), Le Monde Diplomatique e Liberación (franceses), Página 12 (Argentino).
São enormes as chances de Trump perder a maioria nas duas Casas ou, pelo menos, em uma delas. Se isso acontecer, ele se torna vulnerável a investigações e a pedidos de impeachment, Fato que deve preocupar à família Bolsonaro e seus apoiadores diretos. Até porque, o quê a mídia corporativa brasileira e as big techs escondem aqui, acaba aparecendo lá fora.
Vale lembrar que mesmo esta mídia tendo escondido que em todos os países da América Latina onde a extrema-direita, com o apoio de Trump, venceu as eleições, a população está nas ruas exigindo seus direitos e denunciando esses governos. Vale até mesmo para o Peru e a Colômbia, cujas eleições aconteceram a poucos meses. Coincidentemente nesses dois países, os candidatos foram apresentados como “empatados” na reta final e a extrema-direita venceu por uma diferença mínima. A lição que vem daí é que a manipulação aconteceu antes das eleições, durante a campanha eleitoral e até mesmo na apuração dos votos. As urnas eletrônicas no Brasil são seguras, mas até agora continuo achando muito estranha aquela paralização de uma hora na apuração durante o primeiro turno.
A SURUBA DOS INSTITUTOS DE PESQUISA
As pesquisas eleitorais adotam metodologia científica e quando seguida à risca são seguras. O problema é saber se isso acontece. Desde a redemocratização do Brasil, os institutos de pesquisa tem sido alvo de críticas, a grande maioria delas corretas. A primeira dessas críticas é que resultado de pesquisa, que deveria servir para orientar as campanhas, acabou se transformando em principal item de marketing. Ao invés de divulgar os pontos dos programas dos candidatos, a mídia corporativa transformou a cobertura das campanhas eleitorais em corridas de cavalos. O importante é estar na frente, mesmo que o candidato defenda o corte de R$ 250 bilhões do orçamento, que significa inviabilizar a maioria dos programas sociais em execução.
Mais grave ainda a mídia e as big techs divulgam e impulsionam esses resultados sem qualquer contextualização. Por exemplo: a rejeição a um candidato é tão importante quanto o apoio que ele tem. A rejeição a Flávio Bolsonaro aumentou muito nesta reta final de campanha, mas o silêncio é total.
Outros aspectos que precisam ser observados dizem respeito à escolha da amostragem. Quais cidades foram pesquisadas, como foram escolhidas? Como foram escolhidas as pessoas que foram ouvidas nestas cidades? Algumas pesquisas são presenciais, mas a muitos institutos se valem do celular e de plataformas. O que pode indicar que eleitores de um lado estão sendo privilegiados em detrimento do outro. As plataformas têm como fazer tais escolhas e algo que não tem nada de aleatório acaba parecendo correto.
Vale lembrar ainda que todos os institutos de pesquisa em atividade nesta eleição são contratados e pagos pelo mercado financeiro (“Faria Lima”) e os resultados divulgados pela mídia corporativa. É vergonhosa a parcialidade do jornal Folha de S. Paulo contra Lula. Será que o instituto de pesquisa deste jornal, o Data Folha, fica isento de partidarismo? Quanto ao instituto Quaest, bancado pelo banco Genial, do amigo de Daniel Vorcaro, é isento? Detalhe: o dono da Quaest, Felipe Nunes é também comentarista da GloboNews.
Tamanha suruba pode ser considerada isenta?
A SURUBA DO TSE
Como se não bastasse a mídia corporativa e as big techs terem transformado a campanha eleitoral em críticas ao STF, ao ministro Alexandre de Moraes e ao presidente Lula, substituindo o debate de propostas dos candidatos, ministros do STF e do TSE deram contribuições inestimáveis à campanha de Flávio Bolsonaro. Sem qualquer motivo, o ministro André Mendonça, do STF, mandou investigar o filho de Lula, Flávio Luiz, quando todos os indícios de corrupção apontavam para Flávio Bolsonaro. Mendonça, na prática, blindou Flávio de qualquer apuração em relação à corrupção do banco Master e de seu ex-dono, Daniel Vorcaro. Há vídeo, áudio, troca de mensagens entre Flávio e Vorcaro. Mendonça fingiu que não viu nada.
Foi preciso a corrupção da turma do Flávio cair nas mãos de outro inquérito, relatado por Alexandre de Moraes, para que um dos amigos de Flávio, Weller Diniz, fosse indiciado e, na sequência, o próprio Flávio. Isso aconteceu às vésperas do segundo turno.
Para ampliar ainda mais a suruba, o presidente do TSE, ministro Kássio Nunes Marques, indicado como André Mendonça por Bolsonaro, está longe de ser imparcial. Às vésperas do primeiro turno, os TREs comandaram uma grande mudança nos locais de votação em todo o país, com o apoio do TSE. As denúncias foram tantas, que neste segundo turno as mudanças são bem menores. Mais ainda, Kássio não moveu uma palha para apurar as denúncias da campanha de Lula de atuação das big techs favoráveis a Flávio. Por incrível que possa parecer, Kássio pediu às big techs que monitorarssem as duas campanhas!!!! Algo como o lobo cuidando do galinheiro.
Kássio tem muito o quê explicar sobre o relacionamento seu e de sua família com Vorcaro, de quem o filho recebeu milhões e o pai participou de orgia, literal, bancada por Vorcaro.
De positivo, em meio a tantas surubas, é que a população brasileira foi às ruas e às redes defender os seus direitos, a luta e a história de Lula.
Será impossível, qualquer que seja o resultado, silenciá-la de novo.