“A variante Delta, de alta transmissibilidade, já chegou ao Estado de São Paulo. Em torno de 40% dos casos na Grande São Paulo já são da variante delta, e vai pegar o Estado todo. E nós vamos ter um aumento sem dúvida nenhuma. Então essas flexibilizações são indevidas nesse momento. Eu diria até que em alguns lugares é irresponsável o que está acontecendo, porque se está expondo a população a um contágio maior com a doença, que eventualmente pode ser fatal.”

O alerta é de Marcos Boulos, professor sênior da Faculdade de Medicina da USP, que integrava o grupo de assessores do Comitê de Contingência do Estado, agora dissolvido pelo governador João Dória Jr. Ele fala ao TUTAMÉIA no dia seguinte ao reinício das operações do comércio e serviços em São Paulo sem restrições de horário e de ocupação, ocorrido na última terça-feira (17.8).

“O governo cede, sempre está cedendo”, diz o médico (clique no vídeo para ver a entrevista completa e se inscreva no TUTAMÉIA TV). “O lugar de maior transmissão da doença, no mundo todo, em primeiro lugar são bares e restaurantes e em segundo lugar, os cultos religiosos. Não teve dúvida. Por pressão de ambos, ele abriu os dois, tanto bares e restaurantes quanto cultos religiosos. No mundo todo, essas são as situações de maior contágio, e nós aqui flexibilizando nesse sentido.  Você passa hoje nos bares, as pessoas estão sem máscara, conversando. Como vai parar a epidemia desse jeito? Não vai parar. Primeiro porque obviamente não existe uma política pública adequada, e em segundo lugar por causa da sensibilidade da população. Várias pessoas não estão preocupadas com o bem maior, que é a vida”.

Sobre o fim do Centro de Contingência, ele afirma: “As orientações passadas pelo Centro de Contingência desde dezembro elas não são seguidas. Quando teve aquela epidemia enorme, em fevereiro, março e abril, isso estava previsto. Desde dezembro nós avisávamos:  vai acontecer isso, é necessário tomar todas as medidas –fechar, diminuir a flexibilização porque nós não vamos ter hospitais e leitos de UTI suficientes. O governo demorou quase um mês para tomar as medidas, quando já não existia mais UTI. As condutas estão dificilmente sendo assumidas pelo governo. Nós entendíamos que somos assessores, não somos nós que decidimos, o eleito foi o governador. Mas a continuidade da não aceitação das orientações técnicas fez com que se desgastasse muito essa relação. Nós todos ficávamos muito incomodadas de ele não seguir, porque frequentemente ele falava que a liberação estava sendo de uma certa maneira acertada com o Centro de Contingência, quando isso não ocorreu de fato”.

Sobre a decisão de Dória de transformar o centro em um comitê científico com sete integrantes (antes eram 21), Boulos diz: “Para ele, seria muito mais confortável ter um grupo de pessoas que com ele discutam e façam aquilo que ele quer. O que estava acontecendo é que a falta de sensibilidade para o projeto sanitário, claramente assumida por uma pressão de lobbies econômicos, fez com que nós tivéssemos uma situação também muito ruim até no Estado de São Paulo”.

Ele continua: “Estamos num momento difícil da epidemia. A despeito que comemora um possível decréscimo no número de casos, no número de mortes, nós temos de lembrar que esse decréscimo ocorre em cima de uma elevação extremamente grande, extremamente alta, que fez com que nós tivéssemos o maior número de casos por 100 mil habitantes do mundo. O Brasil lidera ainda, no mundo, o número de casos e de mortes por cem mil habitantes”.

FLEXIBILIZAÇÃO VAI RETROCEDER

Por isso, é preciso manter as precauções, não flexibilizar, argumenta ele: “Quando começou a diminuir, as pessoas começaram a festejar como se a vida estivesse normal. Longe disso! Nós estamos longe da normalidade. Hoje nós estamos com níveis parecidos com o pico do ano passado, quando estava tudo fechado. Então é fundamental ainda, enquanto oitenta por cento da população não tiver duas doses de vacina, que as pessoas mantenham distanciamento social e usem máscara, porque a doença continua sendo transmitida. Provavelmente em duas a três semanas nós tenhamos uma elevação enorme dos casos da variante delta, aqui, com um número de casos muito maior. Toda essa flexibilização que está ocorrendo de uma maneira indevida, certamente ela terá de retroceder”.

Tudo isso é resultado da política negacionista partida do governo federal, avalia o professor: “Nós estamos enfrentando uma guerra sanitária. Quando há uma guerra, é preciso ter organização para se defender, para saber como se conduzir a cada momento. Nós não tivemos essa organização, uma organização vinda de cima para baixo, atrás de protocolos de diagnóstico, de tratamentos, de condutas em UTI, condutas na enfermaria. Como isso não foi assumido pelo governo federal, cada Estado fez à sua maneira, e essa guerra ficou essa bagunça que ninguém consegue resolver, ninguém faz direito, e nós estamos desse número enorme de casos. Por isso que nós estamos numa situação ainda hoje bastante dramática”.

BOLSONARO E DÓRIA

Ainda que existam falhas em muitos Estados –e São Paulo é exemplo disso–, a responsabilidade principal é do governo federal, avalia Marcos Boulos:

“Bolsonaro está sendo chamado de genocida o tempo todo. As pessoas deviam se unir, as pessoas que têm parentes mortos deveriam acionar o presidente da República por causa daquelas mortes. Eu acho que isso é uma questão de crime, como quando uma pessoa infecta outra deliberadamente, está expondo ao risco a outra pessoa. Já existe jurisprudência para que essa pessoa seja responsabilizada. E ele, com a política que ele faz, deveria ser responsabilizado criminalmente. Deveria haver um tipo de consequência contra essa lesa-pátria que está acontecendo aqui. E não é só na área de saúde. Na área social, todos os avanços que nós tivemos em décadas estão sendo derretidas, aqui nesse governo, é uma coisa impressionante.”

O que não redime o governo de São Paulo, ainda que Dória tenha, em alguns momentos, enfrentado afirmações e ações de Bolsonaro: “Não concordar com Bolsonaro é unanimidade. Dória tinha obrigação de não concordar com o negacionismo que estava acontecendo, com todas as perdas sociais que nós estamos tendo nesse governo. Numa fase inicial, o discurso do governo do Estado de São Paulo é seguir a ciência e preservar vidas, mas desde esse ano não está acontecendo isso. A ciência não é seguida, e as vidas não são preservadas, porque quando se expõe quando você expõe a população a um contágio maior, vai acontecer mais mortes.  Não diria que o negacionismo é igual ao governo federal, porque o governo federal fala contra o uso de máscaras, divulga medicamentos que são tóxicos, que não têm nenhuma eficácia, provoca aglomerações. Não é assim que acontece aqui. Mas, por outro lado, ele não segue as normas sanitárias em termos de ter uma organização mais adequada das aberturas, para evitar o contágio maior. Acho que o governo do Estado está pecando nesse sentido”.

A conversa ainda seguiu por outros pontos, como a importância do SUS, a indústria farmacêutica, a vacinação. Leia a seguir trechos das reflexões de Marcos Boulos sobre esses e outros temas.

VACINAÇÃO E NEGACIONISMO

Noventa e nove por cento das mortes nos Estados Unidos foram em pessoas não vacinadas.  Eu não entendo muito bem o que está acontecendo com a nossa população, com cada um de nós. Se a gente não valoriza a nossa vida, não valoriza a sua vida das pessoas que estão ao nosso redor, se a gente não ama a nós e as pessoas ao nosso redor, o que nós estamos fazendo aqui?

Hoje é reconhecido que a vacina protege contra a morte. É reconhecido que, se você evitar aglomerações e usar máscara, você vive mais e melhor, e as pessoas ao seu redor vivem mais e melhor. Mas isso não está sendo suficiente para sensibilizar boa parte da população.

Hoje a vida média no Brasil chega a quase oitenta anos. Há trinta anos, esse número era de cinquenta e poucos. Por que no Brasil e no mundo a vida média subiu de maneira tão acentuada? Pelos ganhos que nós tivermos saúde pública, por uma água tratada, por mais alimento de melhor qualidade, por saneamento básico e por vacina, que fez que a grande mortalidade de crianças com menos de um ano, por doenças infecciosas, deixasse de existir.

Hoje chegam as pessoas e dizem: não quero mais tomar vacina. É voltar ao passado, e voltar ao passado significa viver menos e pior. Os ganhos que tivemos estão de certa forma sendo jogados de lado.

SUS

Vai demorar um tempo para as pessoas esquecerem os resultados conseguidos com o atendimento médico. Se não houvesse SUS, nós estaríamos perdidos nessa epidemia. Todo o atendimento realizado, a universalidade do sistema de atendimento, toda a prestação de serviço, as UTIs compradas de última hora, tudo foi o SUS. Nós não conseguiríamos atender à população sem o SUS. Mesmo na Itália a situação foi pior do que aqui, as pessoas morrendo por falta de leito hospitalar. Aqui isso só aconteceu recentemente, em março, por uma insanidade de políticas pública que permitiu que se chegasse a isso, não acendeu o alerta, não perceberam isso. O SUS é o que nos manteve ainda numa situação adequada em relação ao atendimento médico e até em relação à prevenção, trabalhar melhor, a compra de vacina.

PRIVATIZAÇÃO DA SAÚDE

Geralmente, os investidores querem é saber onde eles ganham mais dinheiro, e para isso não têm limites. Eles não veem o que produz bem à sociedade. Isso cabe aos governantes, é o governante que tem de impor limites. É fato notório: quando o governador de São Paulo assumiu, ele foi para Davos e falou que estava à disposição para privatizar até o Butantan. Imagine se o Butantan fosse privatizado! Teríamos de comprar vacina produzida pelos pesquisadores do serviço público, do SUS.

INDÚSTRIA FARMACÊUTICA

A indústria farmacêutica investe naquilo que dá lucro. Você já viu uma indústria farmacêutica produzir vacina para as doenças negligenciadas? Não há vacina para a lepra, para esquistossomose, para malária, para tantas doenças que nós temos por aqui, que são relações à pobreza. Elas têm todas as condições para produzir. Por que não produzem? Porque não dá lucro, simplesmente por isso. O valor deles é o dinheiro, é o lucro.

Então, quando há doenças com uma distribuição mundial, como é uma pandemia, eles querem mais que produzir. Eles vão inventar uma terceira, uma quarta dose, uma quinta para vender mais. Muito dessa pressão com terceira dose também vem de lobbies da indústria farmacêutica. Ainda não existe a comprovação de tudo isso.

FLEXIBILIZAÇÃO EM SÃO PAULO

O governo não mudou o que está pensando. A decisão de ficar com um grupo menor é apenas para ele ficar mais confortável em relação às críticas do próprio grupo que eu assessorava.

O que vai acontecer é que nós vamos ter mesmo essa liberação total até a hora que vai ter de retroceder. Não tem como. O número de casos vai aumentar maneira importante. Todos os modelos matemáticos que mostram o aumento da epidemia estão falando exatamente dessa replicação muito maior, que vai ocorrer em pouco tempo, e nós vamos ter uma disseminação enorme aqui.

Então vai ter de outra vez voltar para a restrição em alguns lugares, vai ter de diminuir o horário de funcionamento, vai adiar a volta de público nos eventos culturais ou esportivos. Provavelmente vai ter de acontecer isso, porque o momento não é esse.

Vai ter um momento em que vamos ter de abrir. Mas não é o momento agora. Nesse momento é uma abertura prematura, que muito provavelmente vai ter de retroceder em pouco tempo.

 O QUE FAZER

Todos devem se vacinar. O mais importante é manter o uso da máscara: não tire a máscara quando você vai a lugares públicos. E evitar o máximo possível de aglomerações. Se você vai trabalhar, use máscara no trabalho. Se vai no transporte público, use máscara e evite aglomerações. Deixe as baladas, os bares, os amigos, os abraços familiares para depois.

Nós vamos voltar ao normal. Estamos num momento de exceção, um momento excepcional em termos negativos. Esse é o maior problema sanitário não só desse século, mas dos últimos cem anos. É um problema muito triste e chato o que nós estamos passando, mas vai resolver.

Se esse período servir para a gente rever nossos valores, começamos a estar mais junto das pessoas, sermos mais solidários, já vai ser um grande ganho. A vida vai voltar ao normal, vamos voltar a nos abraçarmos, a encontrar os amigos, tomar cerveja no bar, mas espere, não é o momento ainda.