“O país vai ter que tomar um caminho, se nós queremos viver um neocolonialismo digital e institucional, ou se nós vamos afirmar os nossos valores de soberania”, afirmou o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, falando a mais de 700 empresários reunidos com o presidente Lula em São Paulo, em 25 de setembro de 2026.

Acompanhe a seguir a transcrição da fala de Mercadante.

“NÓS TEMOS QUE TER SOBERANIA,

 NÓS TEMOS QUE AGREGAR VALOR,

 NÓS TEMOS QUE DESENVOLVER INDÚSTRIA,

 NÓS TEMOS QUE DIVERSIFICAR”

Tem um tema aqui que é polêmico nessa sala, mas é importante a gente discutir com franqueza, que é como é que a gente vê a relação Estado-economia. Nós precisamos avançar nesse debate e construir um caminho de convergência no Brasil. E aí eu falo um pouco da minha experiência no BNDES, que é um banco público de desenvolvimento.

 

Primeiro, nós temos 558 bancos públicos de desenvolvimento no planeta, 23 trilhões de dólares de ativo, 10% do PIB mundial. Isso aqui não é uma excepcionalidade. A região do planeta que mais se desenvolve tem importantes bancos públicos e uma relação Estado-mercado muito mais criativa do que nós temos na América Latina e o Ocidente, que vem vivendo um declínio econômico.

 

A China cresce 8,4% ao ano há 40 anos, a América Latina 1,2% nos últimos 10 anos. O que é que está por trás disso? Seguramente tem subsídio. A OECD mostrou de 8 a 4 vezes mais subsídios que o Ocidente, que a China vem praticando, muitas vezes, inclusive, com uma concorrência desleal, porque nós não temos instituições e regras internacionais para regular a concorrência.

 

Mas nós não vamos conseguir superar e enfrentar essa concorrência sem instituições públicas eficientes, que não sejam inchadas, que não sejam pesadas e não sobrecarregam os impostos, mas que ajudem a fomentar o mercado de capitais, o investimento, as políticas públicas, a inovação do processo econômico. O PNDES é um grande exemplo. Nós somos hoje o segundo melhor resultado do sistema financeiro, estamos batendo o recorde histórico de ROI (retorno sobre investimento) e de lucro contábil, estamos com a menor inadimplência da história do sistema financeiro, 0,05, a minha condição é mais fácil, porque nós somos um banco de segundo piso, somos um banco público, mas é 0,05%, o que mostra que é possível administrar de forma eficiente uma instituição pública.

 

E um banco que ajuda, na relação com os demais bancos, nós trabalhamos com mais de 80 instituições financeiras, a fomentar o crédito, a gente bota um bilhão de reais por dia na economia e, ao contrário do que muita gente escreve, só 32% dos nossos recursos tem subsídio. 68% do PNDES hoje a gente trabalha com taxas de mercado. Agora, faz diferença colocar o subsídio aonde a economia precisa, não tem inovação se o Estado não correr risco, porque o empresário não sabe se vai chegar, tem que ter poder público.

 

Nós não vamos fazer a transição digital, a transição energética, nós não vamos avançar no combate à descarbonização, enfrentar o aquecimento global, inclusive os desastres naturais, porque só no Rio Grande do Sul, nós pusemos 24 bilhões de reais na economia do Rio Grande do Sul e recuperamos o Estado do Rio Grande do Sul. O Estado do Sul cresceu mais do que a média nacional, porque tinha Estado, porque o presidente Lula determinou e nós fizemos, recuperamos a economia do Estado, acima da média, cresceu 4,9% quando o Brasil crescia 3,4%. Então precisa Estado para combater a crise climática e uma boa parceria com o setor privado.

 

Vou dar um exemplo. Nós estamos com 14 bilhões de reais de crédito, plantando espécies nativas, restaurando florestas com o setor privado, plantando 350 milhões de árvores, descarbonizando e recuperando as nossas florestas e o meio ambiente, inclusive com espécies nativas e produtivas. Então, nós precisamos construir essa relação Estado.

 

Vou dar outro exemplo a Petrobras, que é outro tema também sensível nessa sala. Petrobras tem um terço da energia primária do Brasil. Se o Brasil crescer 3,5% até 2050, ela tem que dobrar de tamanho para continuar com um terço.

 

Dois terços da energia do Brasil é o setor privado que faz. E nós precisamos fazer mais dois terços, se a gente quiser enfrentar um crescimento de 3,5%. Não falta oportunidade para o setor privado fazer energia eólica, elétrica, biomassa, gás e fazer, inclusive, a estatal ajudar, como está fazendo agora na margem equatorial, que nós demoramos demais para fazer, nós temos que enfrentar, está aqui o Alexandre, enfrentar esses sistemas do investimento estratégico do Brasil e uma matriz energética limpa e renovável, que o BNDES é o banco que mais financiou na história do país.

 

Então, a primeira coisa, vamos reconstruir um debate mais aprofundado de como é que o Estado pode ser um parceiro fundamental para alavancar a indústria. O FMI, o Banco Mundial, o CDE, todo mundo defende política industrial hoje e aqui é inacreditável. É obrigado o tempo inteiro, como digo no BNDES, o problema não é matar a União por dia, é desviar das antas, porque repete, repete, repete, você põe os dados na mesa e o argumento não avança.

 

Segundo tema que eu queria falar, que também, talvez, nos divida no Brasil, seguramente, é o tema da soberania. Nós vamos ter, o país vai ter que tomar um caminho, se nós queremos viver um neocolonialismo digital e institucional, ou se nós vamos afirmar os nossos valores de soberania. Vou dar exemplos concretos.

 

O Departamento de Estado solta uma nota agradecendo que um dos candidatos do Brasil convidou o governo americano para participar da transição do governo. O que é a transição? É uma lei. A comissão de transição, eu fui, um dos coordenadores, junto com o nosso presidente Alckmin, a Gleisi, o presidente Lula, monitorando, tem acesso a todas as informações do Estado.

 

Como é que você vai abrir todas as informações diplomáticas, financeiras, econômicas, estratégicas, minerais, para uma outra potência? Isso não é uma relação, nós não queremos nenhum atrito, nós queremos ter independência, soberania, controle das nossas informações. Te dou um outro exemplo aqui, Bardo. Como é que pode um país, desde o Brigadeiro Montenegro, 80 anos de trabalho para a gente construir a Embraer, a empresa que mais valorizou na Bolsa no ano passado, eles estavam entregando para a Boeing.

 

A Boeing montou o escritório para contratar 100 engenheiros do ITA e da Embraer, e ainda assim não consegue competir, porque a Embraer hoje é uma das empresas mais eficientes, modernas, e já é líder absoluto no mercado regional. Nós vamos ter agora a Gol, a Azul, todo mundo comprando avião Embraer. E chegou ali aonde? Porque o BNDES estava junto, o ITA estava junto, porque o INPE estava junto, porque teve uma relação Estado-mercado-construtiva, isso significa soberania.

 

Falo também da relação do tarifaço. Nós recebemos o tarifaço, 50%, teve gente que botou o chapeuzinho do MAGA, saiu com a bandeira americana e batendo palma. Só o BNDES está com R$ 50 bilhões para salvar empresas e empregos, 2.700 empresas.

 

Nós perdemos 15% das exportações para os Estados Unidos, mas aumentamos as exportações para o resto do mundo, aumentamos o superávit comercial, porque tem um governo, um presidente Lula, que além de ter espinha dorsal e defender a nossa soberania, tem diálogo com outros chefes de Estado. Eu dou um dado bem básico. O governo passado teve 20 reuniões, 70 reuniões, o presidente teve 257 com os chefes de Estado, teve 20 visitas, o presidente Lula teve 86, e 60 do PIB mundial hoje, pelo poder de compra comparado, está no sul global.

 

Então, você ter um presidente, um patrimônio como esse, que abre o que abriu de mercado, mais de 600 novos mercados, que conseguiu diversificar as exportações, que consegue enfrentar uma situação como essa, com dignidade e altivez, mas com uma visão estratégica de desenvolvimento, porque a pergunta aqui é o seguinte, nós vamos permitir que as terras raras, que nós temos 23%, minerais críticos, que é a grande fronteira mineral do planeta, vai ser administrada pelo Brasil, ou nós vamos ter que consultar e entregar em nenhuma, como o nosso passado colonial já demonstra? Nós temos que ter soberania, nós temos que agregar valor, nós temos que desenvolver indústria, nós temos que diversificar. Eu vou terminar, porque eu já falei demais, mas eu quero falar só mais duas coisas. Uma, um tema fundamental, que é o fiscal.

 

Todo mundo vê aqui o fiscal, o fiscal, o fiscal, o fiscal, o fiscal. O presidente às vezes fica nervoso. Por que ele fica nervoso? Vou aqui falar, presidente, vou falar, abrir meu coração aqui.

 

Eu comecei com ele em 82, tive todas as campanhas presidenciais, então, ele entrou no governo, Fernando Henrique fez uma grande conquista, e aqui rendo as minhas homenagens, estabilizou o país e superou a hiperinflação, que foi uma contribuição inestimável, mas deixou um problema grave, que era a crise de balanço de pagamentos, o país estava na FMI. Presidente Lula não só fez por essa política externa de paz, de diplomacia, de procurar parceria, de dialogar, o carisma e abrir portas para o mundo, nós fizemos superávit, acumulamos mais de 300 bilhões de dólares de reservas cambiais, superamos a crise da dívida externa, que foi uma coisa que esmagou o Brasil nos anos, atualmente nos anos 80 e 90. Mas não só, os dois governos do presidente Lula tiveram superávit primário anuais de 2,1%, é o único país do G20 que teve superávit todos os anos, 2,1% foi a média de superávit primário e o Brasil passou a ser grau de investimento.

 

Qual foi o superávit do governo anterior? Qual foi? Menos 2,7% foi a média. E por quê? A pandemia, foi por causa da pandemia, seguramente tem um papel decisivo, era uma situação muito adversa, mas o negacionismo nos levou à morte de 720 mil pessoas. No México morreram 320 mil, tem 133 milhões de pessoas, nós tínhamos 210 milhões de pessoas. Aqui o déficit público foi 9,4% do PIB, 743 bilhões de reais, lá 0,5% do PIB, por quê? Porque o negacionismo e o desastre social e político que foi combater a vacina, tomar cloroquina, ser contra o distanciamento, erodiu a base social do governo.

 

Então ele pegou o orçamento de ouro para tentar recuperar qualquer preço político e deixou essa herança para frente. E me desculpem vocês, que deviam reconhecer, quem pegou essa bucha, organizou as finanças e teve que enfrentar no parlamento todos os dias, foi esse companheiro aqui que se chama Fernando Haddad. Foi ele que enfrentou no dia a dia o superávit.

 

E por que é muito mais difícil enfrentar hoje? E termino aqui, por exemplo. Por que é muito mais difícil? É muito mais difícil porque nós temos, primeiro, um problema no judiciário, não é o penduricalho que também é um problema, a perda de consistência do poder judiciário, olha o problema dos precatórios, inclusive com o Ramez Tebet, nós construímos, Bruno estava lá, era consultor, uma proposta de administrar os precatórios. Leilão, deságio, quem quer receber na frente a favor do poder público, o alimentício era pago na fila, o Supremo depois, o Nelson Jobim, o Supremo foi lá e derrubou e deixou esse mercado de precatórios, que virou isso que nós estamos vendo, o cara paga 500 milhões e recebe 8 bilhões e meio na outra mão.

 

E quem é que paga isso? A viúva. Só nesse precatório, essa lista que está pronta, nós vamos chegar a mais de 100 bilhões de reais, é cinco vezes o reajuste da inflação do Bolsa Família. Então se o judiciário não tiver responsabilidade fiscal, se a gente não cobrar, se a gente não construir uma reforma do judiciário que tenha credibilidade, que tenha compromisso com a governança fiscal do país, não adianta cobrar só da União.

 

O governo central tem 4,7% da despesa primária, 20%, 21% é a Previdência Social, e aqui deixa um outro problema para o futuro. Em 20 anos nós vamos dobrar a população com mais de 70 anos, vamos triplicar com mais de 80 anos. Nós temos um grande desafio de cuidar dessa população e vai ter que enfrentar o tema da Previdência Social.

 

E os estados e municípios, eles deixaram uma série de benefícios das chamadas bombas fiscais para a gente repassar para os estados e municípios 50 bilhões de emendas obrigatórias. Sabe quanto custa isso? 200 bilhões a mais para os estados e municípios de 2022 para cá, que esse governo teve que administrar. Se não tiver legislativo, se não tiver judiciário, se não tiver estados e municípios, se não tiver uma discussão um pouco mais profunda do que essa coisa simplificatória, eu vou trazer a motosserra para resolver o Brasil.

 

Olha a Argentina, que motosserra. Ah, vai atrair investimento. Eles tiveram 3 bilhões de dólares de investimento, nós tivemos 74 bilhões de dólares de investimento no Brasil.

 

Cresceu 32% a extrema pobreza e a pobreza. 40% da infância está em situação de pobreza, 10% indigência. 25% dos recursos da universidade foram cortados.

 

Não se constrói uma nação com uma visão simplista como se constrói uma empresa. Está todo mundo aqui querendo se desendividar também. Até o Malui quer, e nós também queremos, porque a taxa de juros está muito salgada e a inadimplência vai crescendo.

 

Então, todo mundo quer. E o Estado também quer se desendividar e o presidente mais do que ninguém. Agora, vamos discutir as coisas com um pouco mais de profundidade.

 

E aqui eu termino. A última questão que eu queria deixar, a seguinte opção que nós temos que fazer, se nós vamos trazer essa cultura da milícia, quem se formou ali naquela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, eu agora sou cidadão carioca, o Rio é um Estado fantástico, é uma cidade fantástica. Mas olhem o que é a história política recente do Rio, seis governadores que foram caçados por corrupção.

 

Veja o trabalho que esse governador atual está fazendo para arrumar o Estado do Rio de Janeiro e combater o tráfico, o crime organizado e a milícia. Nós não podemos mexicanizar, o México é um país incrível, mas a expressão todo mundo entende. Não podemos mexicanizar a política nacional e o Palácio do Planalto.

 

Tem uma questão de segurança estratégica do Estado, e vocês têm a opção. Esse companheiro que está aqui, que eu me orgulho muito de estar mais de 50 anos ao lado, vai entrar, é a última eleição dele, ele diz que vai viver 120 anos, eu não acredito tanto assim não. Mas não acredito não.

 

Não, pode até viver mais, mas se ele viver, a Janja não vai deixar ele continuar, é o último mandato dele. Então, a relação dele é com a história. Esse mandato é o mandato do legado, é o mandato que tem que reduzir os juros, que tem que reformar o país, que tem que avançar no desenvolvimento.

 

Então, presidente, eu termino dizendo o seguinte, o senhor vai entrar para a história como Mandela, depois de 27 anos preso, sai e acaba com o apartheid racial. Ou como Gandhi, com aquela simplicidade e aquela dignidade e ações de não violência, levou a independência da Índia. Então, vai ser um dos grandes estadistas da história, seguramente um dos maiores da história da América Latina e do Brasil.

 

Então, sobe aquela rampa de novo, deixe esse legado, baixe esses juros, vamos reduzir as despesas com eficiência, com racionalidade e vamos mudar a história desse país para melhor. Muito obrigado. Obrigado, querido Aluísio Mercadante, muito obrigado.