Os acontecimentos deste fim de semana (16 e 17 de maio) trouxeram mais evidências de que parte da oposição ao governo Bolsonaro não está consciente de suas responsabilidades nem do que está acontecendo no Brasil. No Rio de Janeiro, o deputado Marcelo Freixo desistiu de sua candidatura a prefeitura da cidade, incapaz de unir seu próprio partido em torno da política de alianças que defendia; em São Paulo, o PT levou a cabo uma prévia interna para escolher seu candidato na eleição majoritária deste ano.

“Não é preciso ser um estadista, um visionário ou um gênio para reconhecer que subestimamos o potencial de contaminação e de letalidade do fascismo no Brasil, e que não podemos continuar a subestimá-lo”, escreveu o antropólogo Luiz Eduardo Soares, secretário nacional de Segurança no governo Lula, em manifesto inspirado pela desistência da Freixo.

Para o jornalista Renato Rovai, editor da revista Fórum, “a esquerda não está levando a sério os desafios que se apresentam nesta eleição de 2020. E muito menos o quão complexo é enfrentar e derrotar o fascismo.” No mesmo sentido, o também jornalista Haroldo Ceravolo Sereza, do Opera Mundi e editor da Alameda, apontou há mais tempo a diluição e falta de foco de esforços da oposição.

Em todos  eles –e também em nós–, o sentimento de que a oposição precisa tratar de construir uma frente tão ampla quanto possível, com todos aqueles que quiserem enfrentar Bolsonaro e salvar o Brasil (veja o vídeo no alto desta página).

Para contribuir para o debate, publicamos a seguir o manifesto de Luiz Eduardo Soares.

APELO À UNIDADE ANTIFASCISTA

por LUIZ EDUARDO SOARES

No campo das esquerdas, tem sido crescente o apelo a revisões críticas e autocríticas. Afinal, se o país está à beira do abismo, com ameaças seguidas de golpe por parte do garimpeiro genocida do Planalto, se o que nos resta de democracia e de respeito constitucional está se esvaindo a cada dia, ante o avanço do fascismo, é porque, além de um vasto conjunto de fatores que não controlamos, alguns erros nós cometemos. Pelo menos um deles é inegável: nós subestimamos o inimigo. Acho que até aqui há consenso. Muito bem, se é assim, o que não se pode admitir em nenhuma hipótese? A resposta é simples: repetir o erro. Que se cometam erros novos é natural e, na prática, inevitável. Mas insistir no mesmo erro seria estúpido e irresponsável, e demonstraria um nível de incompetência, tibieza, pusilanimidade de nossas lideranças incompatível com a gravidade do momento que vivemos. Não é preciso ser um estadista, um visionário ou um gênio para reconhecer que subestimamos o potencial de contaminação e de letalidade do fascismo no Brasil, e que não podemos continuar a subestimá-lo. A história não se repetiria como farsa, mas, dessa vez, como tragédia absoluta.

Ontem, dia 16 de maio, Marcelo Freixo deu o primeiro passo, teve a coragem e a grandeza de fazer o gesto urgente, apontando o óbvio: diante da dupla catástrofe, a pandemia e Bolsonaro, não podemos pensar como antes nem agir como antes. Não estamos diante de mais uma eleição municipal em contexto de normalidade democrática. Agora, tem de cessar tudo o que a antiga musa canta. É imperioso e inadiável que cada partido, cada corrente, cada liderança, cada pré-candidato adie seus legítimos projetos próprios, ponha suas cartas na mesa, zere o jogo e se abra, desarmado, para uma grande concertação de todas as forças antifascistas, as quais não se esgotam nas esquerdas.

Não é hora de fazer cálculos para 2022, simplesmente porque as eleições de 2022 estão em risco, como as vidas de todos e todas nós, seja pela progressão da pandemia, seja pela iminência de um golpe.

O governo federal aposta no caos, anseia por saques, desespero popular, governos estaduais falidos, sem pagar funcionários, Congresso dividido, metade comprado, Supremo acuado, chantageado, mídia reduzida à irrelevância com sua fé retórica no funcionamento das instituições, crescentemente assaltadas pelo fascismo.

Este será o momento em que Bolsonaro reivindicará concentração de poderes excepcionais no Executivo e nós começaremos a ser presos, se não executados, como prometeu o próprio presidente, em famosa entrevista: “O erro da ditadura não foi torturar, mas torturar e não matar depois. O Brasil só vai mudar quando matarmos uns 30 mil.” As milícias estão a postos, segmentos policiais estão a postos, grupos se armam, setores das Forças Armadas aquecem os músculos e unificam o discurso ameaçador.

E nós, o que fazemos? Vamos continuar com as disputas miúdas de egos, carreiras, doutrinarismos sectários, calculando quantas cadeiras faremos nas Câmaras municipais, como ultrapassaremos a cláusula de barreira em 2022, como fortaleceremos nossos pré-candidatos à presidência?

Pelo amor do que houver de mais sagrado para cada um e cada uma de vocês, companheiros e companheiras, despertem de seu sono dogmático, despertem enquanto é tempo –se é que ainda há tempo.

Freixo saiu na frente, saindo da frente de um processo que estava congelado e agora precisa se completar na formação de uma ampla frente antifascista. Sem olhar para trás. Exigindo compromisso com o futuro. O que está em jogo é a vida ou a morte. É a história de lutas do povo trabalhador brasileiro. É preciso a união de todos em torno da candidatura -em cada capital, pelo menos- da pessoa capaz de ampliar o movimento e de competir para vencer, em nome da resistência antifascista. A credencial indispensável é o compromisso claro de enfrentar o fascismo em todas as suas dimensões, chamando-o pelo nome.

Escrevo este texto com tanta emoção porque fui informado de que, assim que souberam que Freixo se retirara da disputa, partidos e lideranças do campo progressista passaram a rever suas estratégias de pontos de vista meramente eleitoreiros, sem qualquer alteração quanto à disposição de competir nos mesmos termos dos anos anteriores, sem nenhuma consideração, sem nenhuma consciência sobre o que está diante de nós. Será que não resta um mínimo de lucidez e de grandeza? Ninguém mais se erguerá ao lado de Freixo, mostrando estar à altura de seu gesto e se somando a ele na convocação para um pacto antifascista?