(Transcrição da fala da jornalista ELEONORA DE LUCENA, editora do TUTAMÉIA,

no evento “Direitos Humanos, Memória e Resistência”, realizado no Memorial da Resistência em 9.12.23,

véspera do Dia Internacional dos Direitos Humanos e do 75º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos)

 

Falar de direitos humanos hoje no Brasil e em qualquer lugar do mundo é falar de Palestina. É falar do genocídio que acontece há dois meses na Faixa de Gaza.
Os últimos números, divulgados ontem, afirmam que Israel já assassinou 17. 272 pessoas na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, deixando 42.000 feridos.
São 6.150 crianças assassinadas.
São 4 mil mulheres, 695 idosos.
Há 7 mil desaparecidos, entre eles, 4.700 crianças.
É um massacre contra as crianças, contra a possibilidade de futuro dos palestinos.
Hospitais, escolas, universidade, abrigos, mesquitas, igrejas foram destruídas pelas bombas lançadas pelos israelenses. Água, luz, comunicações foram cortadas. Falta tudo: comida, remédio, amparo. Sessenta por cento das moradias foram aniquiladas.
Cotidianamente, as forças de ocupação de Israel cometem atrocidades, atentados aos direitos básicos de qualquer ser humano de forma implacável e violenta. Rasgam todas as leis, tratados e convenções construídos por séculos a respeito da guerra, da convivência com humanidade, do direito internacional. Tortura e humilhação são rotina em Gaza e na Cisjordânia.
Confiando na impunidade e no apoio incondicional dos Estados Unidos (que vetaram ontem uma resolução que pedia um cessar fogo imediato!), Israel esgrime um autoproclamado direito divino para seguir matando, ignorando os apelos crescentes da comunidade internacional.
Nesses dois meses, 250 profissionais da saúde foram assassinados. Entre os jornalistas, a matança é totalmente sem precedentes: 75 foram mortos.
Relatório divulgado nesta semana pela Federação Internacional de Jornalistas apontou que 72% dos jornalistas mortos no mundo estavam trabalhando em Gaza. Desde 7 de outubro, um jornalista foi morto por dia na região. Nunca antes um conflito foi tão mortífero para os jornalistas.


Os jornalistas e suas famílias são alvos claros da força assassina. É um extermínio planejado, com o objetivo de silenciar atrocidades, impedir que o mundo acompanhe o genocídio em curso.
Os relatos são aterrorizantes. Os números são estarrecedores. Mas não são números.
“Nós não somos números” é o nome do projeto fundado por Refaat Alareer, poeta e professor de literatura inglesa na Universidade Islâmica de Gaza. Refaat, um dos nomes mais importantes da literatura palestina da atualidade, foi morto anteontem por bombas lançadas por Israel na Faixa de Gaza.
Ele era uma das vozes que denunciavam a continuada violação de direitos promovida por Israel nessa ocupação colonial que acontece há 75 anos.
Essa política de Israel se insere no quadro de mudanças tectônicas na geopolítica mundial. Nesse momento, Gaza condensa a disputa pelo poder no globo. Os palestinos encarnam hoje os pobres, os despossuídos, os esquecidos, os descartáveis, os desprezados pela ordem que gera concentração de riqueza e destruição do planeta.
Uma ordem de séculos que está sendo colocada em xeque. O repúdio ao massacre dos palestinos está levando multidões às ruas. É preciso mais. É preciso uma reação mais forte da comunidade internacional contra esse morticínio, talvez o mais grave atentado contra os direitos humanos que a minha geração assistiu.
Minha geração lutou contra a ditadura militar. Muitos dos que estão aqui estiveram na linha de frente desse enfrentamento. Muitos morreram em combate. Devem ser sempre lembrados e homenageados. As novas gerações que aqui estão têm uma dívida com esses brasileiros que não hesitaram em se levantar contra a tirania.
Na segunda metade dos anos 1970, quando eu comecei a trabalhar, a ditadura já cambaleava em razão desses corajosos militantes. O movimento operário tomava as praças e a anistia conquistada trouxe oxigênio para a vida política nacional.
A redemocratização construiu uma política de direitos humanos, ainda capenga, mas responsável por avanços. Bolsonaro tentou dinamitar toda essa construção de décadas. Foi um governo de glorificação da brutalidade, da violência, da morte.
Com a volta de Lula, estamos vivendo uma reconstrução também nessa área.
Logo nos primeiros dias desse ano, o mundo viu o massacre que Bolsonaro executara contra o povo yanomami. A partir daí, programas foram lançados para refazer direitos, promover igualdades, resgatar os mais fragilizados.
Mas há muito para ser feito.
Basta olhar para as prisões e constatar como direitos humanos são violados a cada minuto.
Basta olhar para as ações das polícias militares pelo país.
Basta olhar para a PM de São Paulo, que, no início do ano, saiu matando na Baixada Santista.
Basta falar com dona Maria Cristina Quirino, que, na semana passada, liderou mais um protesto contra a polícia que assassinou o seu filho e mais oito jovens em uma festa em Paraisópolis, na capital paulista, em 2019.
Basta olhar para a violência policial dentro da Assembleia Legislativa de São Paulo na última quarta-feira.
Basta constatar a hesitação do governo em instalar a comissão de mortos e desaparecidos políticos.
A luta pelos direitos humanos não para, não tem fim. Desde a Revolução Francesa é uma construção, com avanços e reveses. Que o governo Lula consiga impulsionar um salto para a valorização da vida, da igualdade, da justiça.

Aqui a poesia do palestino Refaat Alareer:

SE EU DEVO MORRER

Se eu devo morrer,
você deve viver
para contar a minha história
para vender minhas coisas
comprar um pedaço de pano
e algumas cordas,
(deixe-o branco com uma cauda longa)
para que uma criança, em algum lugar em Gaza
enquanto ela encara o céu nos olhos
esperando seu pai que partiu em chamas
e não se despediu de ninguém
nem mesmo de sua carne
– nem mesmo de si –
veja a pipa, minha pipa que você fez, voando acima
e imagine por um momento que um anjo está lá trazendo de volta o amor.
Se eu devo morrer,
deixe que isso traga esperança,
deixe que isso seja um conto.