Comunidades religiosas, dirigentes sindicais, movimentos populares e a população de Brotas de Macaúbas e região participaram, no último dia 17, da 19ª Celebração Aos Mártires, homenagem a Carlos Lamarca, Zequinha Barreto e outros guerreiros da democracia assassinados na região. A data é o aniversário da morte do Capitão da Esperança, morto em setembro de 1971, depois de já capturado pelas forças da ditadura militar.

As cerimônias se desenrolaram durante todo o dia, havendo momentos religiosos, concentração na Pintada (bairro de Ipupiara, vizinho a Brotas, no interior da Bahia), até o coroamento da celebração, no próprio Memorial dos Mártires.

Antes da Missa celebrada pelo bispo diocesano, D. Frei Luiz Flávio Cappio, o historiador Wanderley Rosa Matos falou sobre a importância histórica do Memorial dos Mártires. Lá há um marco no local exato onde Zequinha e Lamarca foram executados.

Destaque no dia foi a leitura de mensagem de Claudia Pavan Lamarca, filha do líder da resistência armada à ditadura. No texto, ela lembra a luta de seu pai e dos companheiros dele, buscando no exemplo deles inspiração para enfrentamento do ataque à democracia que qacontece hoje no Brasil.

Diz ela: “Que essa homenagem traga também a reflexão pelo arriscado momento vivenciado, que tenhamos sensatez e inteligência para escolhermos o melhor caminho a trilhar, que haja união entre todas as frentes progressistas, que o Mundo esteja no nosso lado para afastarmos o ardiloso fascismo e que mantenhamos a esperança, a garra e a fé como uma chama acesa”.

A seguir a íntegra da mensagem da filha de Lamarca.

AO POVO DE PINTADA

Claudia Pavan Lamarca

 Há 48 anos atrás, jorraram seu sangue e tombaram nessa terra dois patriotas, dois filhos corajosos desta Pátria, dois idealistas, dois irmãos de luta e de ideal: José Campos Barreto e Carlos Lamarca. Esses dois combatentes levaram até as últimas consequências os seus sonhos por um Brasil mais justo e igualitário, por um Brasil democrático e livre da Ditadura militar, instaurada com o golpe de 1964. Muitas vidas se perderam ao longo desse vergonhoso período da história do nosso país. Houve desterro, exílio, desaparecimentos, mortes.

A retomada da Democracia deu-se intrinsecamente como resposta aos anseios do povo brasileiro, que exigiu o restabelecimento de uma sociedade civil, com um governo civil, eleito mediante o voto, e onde houvesse garantias de vida a toda forma de pensamentos e ideais. Jamais imaginaríamos que o fascismo espreitava covardemente para vilipendiar todas as conquistas alcançadas, todo o progresso logrado, principalmente aqueles alcançados durante os governos progressistas.

Há alguns anos, o fascismo era apenas uma ameaça possível, uma tímida sombra, insistindo em assombrar novamente, uma névoa obscura a procura de um solo fértil. Hoje o sabemos real, concreto, palpável, erosivo. O fascismo está entre nós com a sua face mais vil, destruidora, corrosiva, ácida, escancarado no preconceito, na homofobia, na misoginia, no racismo, na derrocada de cada conquista trabalhista e previdenciária. O fascismo deu base para que toda as formas de destruição dos alicerces da sociedade fossem encaradas como processos normais de estabilização econômica de uma sociedade injusta e desigual, e deu-se aval para que palavras como golpe, ditadura, tortura e morte fossem incorporadas como desejos de uma parcela estabilizada e elitista. E nos damos conta que retrocedemos conceitualmente aos anos 70 e assistimos a desconstrução intencional da nossa Nação, com o desmonte da educação e da saúde pública, a entrega do nosso petróleo ao capital estrangeiro, os cortes nas pesquisas científicas, a volta da censura política na cultura, o ataque proposital ao meio ambiente, e ficamos espantados pelo palavreado chulo, grosseiro, sulfuroso de quem deveria intermediar e neutralizar os polos desta Nação dividida e tomada pelo ódio.

Hoje, 17 de setembro, que essa homenagem traga também a reflexão pelo arriscado momento vivenciado, que tenhamos sensatez e inteligência para escolhermos o melhor caminho a trilhar, que haja união entre todas as frentes progressistas, que o Mundo esteja no nosso lado para afastarmos o ardiloso fascismo e que mantenhamos a esperança, a garra e a fé como uma chama acesa.

O meu muito obrigada pelo carinho que toda a população sempre empenha na homenagem aos mortos deste dia: Zequinha e Lamarca. Ousar Lutar, Ousar Vencer!