RESISTIR E OCUPAR é a palavra de ordem que toma conta da obra de um dos talentos da nova geração de escritores brasileiros. Multipremiado por seu livro “A Resistência”, Julián Fuks escreve agora um livro que vai se chamar “A Ocupação”. Ambos trazem um pouco da vida real, da percepção que o jovem autor tem da realidade brasileira.

“Os assuntos do presente merecem ser trazidos à tona, trazidos ao primeiro plano da literatura. Não panfletária, ela não é a defesa de um programa político, mas é a percepção de que a literatura participa de um mesmo momento político, ela é reflexo de um momento político”, diz ele em entrevista ao TUTAMÉIA.

Momento político que exige mesmo de escritores –supostamente seres introspectivos e dados ao ensimesmamento —a afirmação da voz e da vontade. Foi o que Julián fez quando bradou “FORA TEMER!” ao final de seu discurso na cerimônia em que recebeu o prêmio Jabuti –o mais importante da cena literária nacional—por seu romance “A Resistência”.

“Eu estava em um momento de alegria, de realização, o livro estava sendo reconhecido, passou a ser mais reconhecido desde então. E ainda assim havia algo em mim que não estava alegre, que não estava feliz. A gente tinha passado por um momento duríssimo, e continua passando por um momento duríssimo. E é preciso se insurgir contra isso”, diz Fuks, que nasceu em São Paulo em 1981, filho de pais argentinos que se exilaram por causa da ditadura militar no país vizinho.

A política, talvez por isso, perpassa sua obra, mas se expressa mais nitidamente em “A Resistência”, de 2015, e em “A Ocupação”, no qual trabalha atualmente.

“Sinto que o ocupar e resistir, que é o duplo mandamento desses dois livros em sequência, é a palavra de ordem deste momento. É preciso ocupar e é preciso resistir. A ocupação é talvez a forma mais efetiva e direta, neste momento, de resistir. Prédio ocupados, escolas ocupadas, fazendas ocupadas, uma série de ocupações. Sinto que é preciso ampliar essa noção para um campo mais abstrato: a ocupação da literatura pelo pensamento, pela política”, reflete Fuks.

A seguir, mais algumas pinceladas da conversa do jovem autor e pai novato –seu primeiro filho tem dez meses—com TUTAMÉIA. São uma espécie de aperitivo para a entrevista completa, que você pode acompanhar com todas as inflexões, senões e pontuações no vídeo que aparece no alto desta página.

QUEM É JULIÁN FUKS

A origem argentina da minha família me marca bastante, está na base de muito do que eu escrevi, está na base dessa história de “A Resistência”.

Em algum momento defini para mim mesmo que seria escritor, e desde então estou procurando uma maneira de executar esse plano, em busca de algo que mereça ser escrito.

Sou jornalista de formação, mas com o tempo corrigi o rumo… No próprio jornalismo, consegui encaminhar meus estudos em direção à literatura:

Meu primeiro livro escrito com mais cuidado, “História de Literatura e Cegueira” (2007) é meu trabalho de conclusão de curso no Jornalismo. Depois fui para a literatura como crítico. Fiz mestrado em literatura hispano-americana, lidando com a morte do romance. Escrevi essa dissertação sobre a impossibilidade de narrar e narrei um romance sobre a impossibilidade de narrar , interiorizando essa paradoxo.. (“Procura do Romance”, de 2012, finalista de vários prêmios). Depois disso, fiz meu doutorado em teoria literária.

A RESISTÊNCIA

É um livro muito mais pessoal do que os anteriores, trata de uma história muito própria, de meu irmão, adotado na Argentina em 1976. Para contar essa história da adoção, eu tinha de contar a história dos meus pais e a militância deles durante a ditadura militar na Argentina, a perseguição que sofreram, o exílio no Brasil, meu nascimento aqui, algo da nossa infância aqui. De repente, estava contando um romance que tinha muito de autobiográfico, quase que um respeito ao acontecido, ao factual –o que, em alguma medida, me devolvia ao jornalismo.

Eu sou brasileiro, falo essa língua, enxergo o mundo dessa maneira porque meus pais estavam exilados no Brasil, e as questões identitárias se tornam fluidas e indefinidas a partir disso. A pergunta, que está na base de “A Resistência”, é em que medida o filho de um exilado não é também um exilado, se o exílio é algo que se herda. Ou não, eu sou brasileiro, e a história dos meus pais não me pertence.

O exílio dos meus pais, no Brasil, eu nunca cheguei a sentir efetivamente como um exílio. Afinal, este era o meu país, onde eu me encontrava, onde eu me sentia em casa. No momento em que meus pais resolveram voltar para a Argentina, depois que a ditadura terminou lá, aquilo, sim, eu senti como uma espécie de exílio meu. Eu tinha seis anos naquela época, não foi uma escolha mim.

Foram só dois anos. Meus pais também não se adaptaram.

A resistência do título fala de muitas resistências: a resistência dos meus pais à ditadura militar, do irmão ao convívio familiar, e a resistência do narrador a contar essa história. Que, em parte, é não querer expor para todos as feridas que são, talvez, íntimas. Questões que são, para a família, centrais demais para que sejam expostas ao público.

ADOÇÃO E SEQUESTRO

Eu achava que a questão da adoção seria forte, e que tratar desse assunto seria algo muito sensível. Por isso durante o tempo todo eu me investi da máxima delicadeza. Não é um livro que se propõe a ser um livro de ruptura.

Falar tem o seu papel, provoca efeitos positivos, ainda que pareça que não. A própria psicanálise parte dessa noção, de que dar palavras para alguma coisa transforma essa coisa. Ao falar, as coisas se modificam, a gente tem acesso e a gente é capaz de transformar essas coisas.

Falar era importante. O livre se abre dessa maneira: “Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado”.

O que me interessou nessa história tão pessoal é justamente o caráter político que essa história ganha. Essas vidas próprias, individuais, estão muito marcadas por movimentos coletivos, por grandes gestos, por grandes rupturas. O destino do país marca muito diretamente, muito concretamente a existência daqueles indivíduos.

Meus pais adotaram esse menino, meu irmão, em 1976, em um processo de adoção ilegal, de um jeito que se fazia muito comumente no Brasil e na Argentina naquela época –e que ainda se faz bastante–, em que você não sabe ao certo as origens daquela criança.

Há intermediários que pegam um bebê de uma família que não gostaria de cria-lo e passam para uma família que gostaria de criar, sem passar por trâmites muito rigorosos e burocráticos, da adoção legal.

A princípio era só isso.

Com o tempo, a partir de 1978, e cada vez mais com mais força, vão vindo à tona os relatos das crianças sequestradas. Há bebês que foram tirados de seus pais antes de seus pais serem mortos pela ditadura argentina.

O mecanismo era sórdido. Prender, como se prendiam tantos militantes na Argentina –morreram 30 mil… Nesses trinta mil havia muitas mulheres grávidas. Essas mulheres não eram torturadas e mortas de imediato, elas eram mantidas em cativeiro até o momento em que davam à luz e em seguida erma mortos. Os bebês eram retirados dos pais e entregues—em princípio, era o funcionamento geral—a famílias amigáveis ao regime, próximas aos militares ou dos próprios militares.

Aos poucos vão surgindo esses relatos. Foram 500 bebês sequestrados pelos militares. E começam a surgir convocações: se você adotou uma criança nesse período e não sabe bem as origens desse bebê, por favor nos procure.

Meus pais, eu me pergunto como terão recebido esses comunicados, essas convocatórias, que ainda hoje existem.

Meus pais sempre souberam que eles não estavam ligados a esse tipo de funcionamento; pelo contrário, eles eram inimigos do regime, não amigos do regime para receber uma criança sequestrada.

OCUPAÇÃO

É um pouco uma saída em relação a mim mesmo e meu universo.

“Procura do Romance” é muito sobre mim mesmo, minha busca individual. “A Resistência” já é uma tentativa de expansão em direção a um outro, de busca de um outro, mas esse outro ainda muito próximo de mim: meu irmão, meus pais. Em “A Ocupação” a ideia é de um afastamento maior.

Coincidiu de me chamarem, enquanto eu estava escrevendo esse livro, que, a princípio, tinha o título “Os Olhos dos Outros”, me chamaram para uma residência artística em uma ocupação no centro de São Paulo.

Eu passei um tempo ali, em princípio querendo só ouvir histórias, mas, na prática, me envolvendo mais com a luta deles e até participando da ocupação de um novo prédio, de uma nova ocupação.

Basicamente isso se tornou um dos pontos centrais desse novo livro que estou escrevendo agora, que se chama “A Ocupação”, mas, como “A Resistência”, que eu falei que tinha uma pluralidade de sentidos, a ocupação também tem. Há elementos mais pessoais sendo narrados ali. Há uma mulher grávida – nesse período, minha mulher estava grávida – e a mulher grávida é também o corpo ocupado de uma mulher.

Há também o problema da literatura se convertendo em ocupação, se convertendo em ofício, e os problemas e as questões que isso traz. E a noção de literatura ocupada, que se deixa ocupar pela visão do outro, pela voz do outro, e noções mais imediatas do presente.

MOMENTO DRAMÁTICO

A tentativa de supressão da esquerda não é mais, hoje, pelas armas, mas pela toga. Em vez dos tanques, os juízes. Com flagrantes injustiças.

Aos poucos, [essas injustiças] vão ficando muito claro em relação ao impeachment da Dilma, como aquilo não tinha uma razão de ser, era uma tomada de poder por outro grupo, por outra ideologia.

Que ficou evidente no exercício do poder. Quando se faz algo totalmente oposto ao que foi eleito e votado, basicamente houve um golpe. A ruptura democrática foi por um golpe parlamentar.

A prisão de Lula parece uma segunda etapa de um mesmo processo, de banimento de parte da esquerda, da parte da esquerda que poderia ter uma chance de disputar o poder.

A prisão de Lula, sob todos os aspectos, tem uma cara de prisão política. Lula é um preso político. Um processo com traços evidentes de perseguição específicas: quero este sujeito, que está no centro do grande powerpoint.

REDESCOBERTA DA POLÍTICA

Já há algum tempo eu me sentia mais perto do PSOL do que do PT, e não bancando tudo aquilo que o governo do PT representava.

Agora, eu estou vendo um exercício do poder mais imoderado e antidemocrático do que jamais antes na minha vida, que foi esse governo Temer, com uma reforma atrás da outra, um golpe atrás do outro.

Para mim, é um momento de redescoberta do que a política pode ser.

Mesmo em relação a veículos de informação. Eu sempre achei excessiva [a caracterização da imprensa] como PIG, partido da imprensa golpista. Achava um pouco forçado. Mas, de repente, as coisas se organizaram e se estruturaram de uma forma tal, durante o impeachment da Dilma, que eu repensei tudo.

A política pode ser exercida com muito mais força e violência, e a imprensa pode participar disso de uma maneira muito mais explícita do que eu imaginava.

Eu achei que a gente vivesse em um país mais pacato do que isso. E, de repente, você se vê num novo país, e você tem de reagir a isso. Esse é o meu sentimento: é um momento de resistência, é um momento em que é preciso falar sobre isso, que é preciso não calar. E o próprio exercício da literatura se aproxima disso.

Esses assuntos do presente eles merecem ser trazidos à tona, trazido ao primeiro plano de uma literatura. Que não se faça panfletária, ela não é a defesa de um programa político, mas é a percepção de que a literatura participa de um mesmo momento político, ela é reflexo de um momento político, ela é sintomática desse momento, e é preciso que ela responda de alguma maneira.

TRANSFORMAÇÃO DA CULTURA

Meu projeto literário concebe que a política é inevitável. Há política em todos os cantos da vida, ela se imiscui, penetra em cada um dos nossos vãos. A gente é pura política, tudo que é pessoal é político, fundamentalmente.

Em momentos de aguda tensão, como os que agente tem vividos, em momentos dramáticos, isso vai se exacerbar. Há uma complexidade na relação entre política e literatura que vai se manifestar nos livros inevitavelmente.

Nesse momento crucial, há uma reação, há uma reorganização. De fato, você percebe diversos movimentos ganhando força.

É importante valorizar o que existe agora. A gente volta a falar em uma unidade de esquerda, coisa que era impensável tempos atrás. Há a possibilidade de a gente reunir vozes sem que uma abafe as outras, sem que tenha de prevalecer uma única visão do que o país deve ser.

A gente percebe em toda parte esse movimento acontecendo. Na literatura isso é forte. Estou falando de uma literatura de resistência. Há vozes ganhando muita força, há uma cena literária de periferia muito poderosa, muito potente. Há os saraus acontecendo, as pessoas ganhando voz e, aos poucos, rompendo uma certa hegemonia. Aos poucos essas vozes estão se multiplicando de uma tal maneira… Esse movimento é imparável, essa literatura vai se transformar plenamente, a cultura como um todo vai se transformar.