TODO MUNDO SE BEIJOU NAQUELA NOITE
texto de Eleonora de Lucena
Uma garoa fininha pairava como um véu diáfano sobre a Avenida Paulista. As pessoas chegavam cantando, gritando, sorrindo, dançando, pulando, abraçando umas às outras. Conhecidos, desconhecidos _todos ali faziam parte da mesma turma, todos se amavam. Alguns estavam com a família, outros com os colegas da escola, do trabalho, do bairro. Bebês nos carrinhos, crianças nos ombros dos pais, namorados enganchados. Todo mundo beijou alguém naquela noite de 25 de outubro. Ninguém ligou para o refresco das gotículas que salpicavam as roupas, os cabelos, o asfalto. O calor da vibração daquela massa inebriada de felicidade vai ficar marcado para o resto das nossas vidas.
A festa geral que tomou conta do Brasil se esparramou por praças, avenidas, ruelas, quintais, sacadas, becos. Churrascos foram improvisados, bailes pulularam, buzinas de carros tocaram sem cessar, fogos explodiram como em vitória de copa do mundo e, das janelas de prédios, gritos sufocados se misturaram à catarse coletiva. Durou até quase o nascer do sol, porque segunda era dia de trabalho. De verdade, ninguém queria sair daquele samba de alívio, alegria, êxtase, orgulho. Orgulho, sim, pois todo mundo sabia que tinha contribuído para derrotar o antipovo, o antinação, o antidemocracia. Vencemos!
Parecia inacreditável. O lado de lá insistia em dizer que era impossível. Que nunca antes nesse país algo assim acontecera. As pesquisas desanimavam. É a onda da época, não tem como escapar do avanço da extrema direita, do neoliberalismo, da lei da selva, do cada um por si. Tem o Trump, o Milei, o Zuckerberg, o Peter Thiel. Tá tudo dominado. O ódio já se expunha com aquela desenvoltura violenta e covarde de quem corta um sinal fechado ou acende o fósforo na mata ou numa escola.
Só quem vive descolado das ruas, desconhece a história do Brasil e ouve apenas a chorumela midiática do ajuste fiscal não entendeu o que se passou no Brasil nos 20 dias que separaram o primeiro e o segundo turno das eleições presidenciais. Aturdida pela surpreendente derrota de seu candidato, a mídia resolveu apresentar sua simples explicação: foi Janones o mago que mudou o jogo, com o seu Exército de 10 milhões de internautas.
Sim, Janones foi importante. Organizou a vontade desesperada de milhões de fazer alguma coisa para impedir a chegada ao Planalto do miliciano traidor da pátria. Canalizou energias e traçou uma estratégia clara de combate à extrema direita nas redes: apenas ignorar o que eles dizem e reforçar de todo jeito o que nós dizemos. Com isso, conquistou um vasto terreno internético para os democratas.
A escolha do nome “Exército do Lula” foi feliz. Colocou no centro uma ideia de guerra –era do que se tratava– e tudo o que isso implica: comando central, organização vertical, tarefas a serem cumpridas, empenho dia e noite. Introduziu também uma ideia lúdica de pertencimento e de participação. Todos os “soldados” curtiram fazer suas fotos fazendo o L com camisetas verde e amarelo exatamente às 9h daquela manhã de sábado. Depois seguiam as instruções para lançar as hashtags específicas, seguindo a estratégia do comando central.
Mas isso só foi possível porque a maioria do povo brasileiro estava consciente do que estava em jogo na urna. Porque conhecem a trajetória de Lula, gostando ou não do seu governo. Porque reconhecem os avanços sociais e econômicos do país desde a Constituição de 1988. Porque valorizam o SUS, as vacinas, a escola pública, os direitos trabalhistas, o salário mínimo, a aposentadoria, o bolsa família. Porque querem um futuro com um trabalho bem qualificado e remunerado. Porque não querem que o Brasil volte a ser colônia. Porque não querem que Trump mande no Brasil. Porque querem democracia. Ditadura nunca mais.
Tudo isso estava nos cartazes das manifestações que reuniram milhões de pessoas pelo Brasil afora nesses 20 dias. Começou 24 horas após a divulgação do resultado aterrador do primeiro turno. Sob chuva, os estudantes de direito da Universidade Federal Fluminense em Niterói tomaram as ruas da cidade por Lula. Na dianteira, jovens que têm os seus horizontes alargados pelas políticas públicas dos últimos anos, como a do projeto dos institutos federais espalhados pelas entranhas do país.
A partir do dia 5 de outubro, em todos os outros dias seguintes houve passeata, assembleia, reunião, bandeiraço, carreata, panfletagem. Nas redes, centenas de atividades eram divulgadas diariamente.
Nas capitais, nas cidades médias, nos vilarejos, nos entroncamentos de estradas uma mobilização inédita fez aflorar forças que pareciam esmagadas pelo individualismo e narcisismo embalados na conversa da meritocracia. Correntes solidárias se formaram para produzir material de campanha, financiar deslocamentos, percorrer bairros, discursar nas estações de metrô e nos terminais de ônibus. Corredores, ciclistas, nadadores, remadores organizaram dezenas de eventos esportivos por Lula. Músicos improvisaram orquestras nas ruas; cantores, corais.
Foi uma avalanche cívica como nunca se viu. Em espetáculos e nas redes, artistas começaram a divulgar o seu apoio a Lula. Professores, médicos, engenheiros, economistas, advogados, intelectuais, religiosos, bispos, pastores, agricultores, líderes sindicais organizaram atos, manifestos, abaixo-assinados em defesa da democracia, da soberania, da reeleição de Lula. Entre uma atividade e outra, houve ligações de convencimento para familiares distantes, amigos de infância, conhecidos quase desconhecidos. O ritmo foi frenético. Não dava para parar _o risco era ser tomado pela depressão só de imaginar o que seria do país se o patife ganhasse.
O governo e a campanha de Lula não ficaram inertes. Ao contrário. Quase que atropelados pelo movimento que tomava conta do país, trouxeram novas lideranças para oxigenar a política. No Congresso, a aprovação do fim da escala 6X1 foi sinal claro de que lado estava o governo. Antes, o fim das bets foi outra medida ousada, que colocou uma linha divisória entre os interesses da sociedade e os de meia dúzia de empresas com ligações obscuras.
O papel de Lula e sua disposição de luta foi crucial. Sem fraquejar, ia de passeata em passeata, de comício em comício, atravessando o país, pondo o dedo na ferida da questão política do dia, atacando os interesses da Globo, da Faria Lima, das big techs, de Trump. Falou menos do seu imenso legado e mais dos planos para melhorias no ensino público, para a criação de empregos de qualidade para a juventude, para proteção para as mulheres e os idosos, para ampliação das vacinas e oferta de exames complexos no SUS.
Do outro lado, a prepotência e a soberba tomaram conta. Flávio Bolsonaro e sua candidata a Zélia saíram a anunciar ampliação de mandato, cortes no bolsa família e na aposentadoria, 20 anos de poder, entrega de tudo aos EUA. A Meta, braço militar e midiático do governo Trump, passou a agir descaradamente para sabotar a comunicação dos apoiadores de Lula e espalhar mentiras. Ainda serão investigadas as denúncias de financiamento externo para manipular o processo eleitoral, o que é proibido no Brasil.
Trump deixou claro desde o ano passado que faria de tudo para impedir um novo mandato de Lula, que ele definiu como perigoso. Impôs tarifas, sancionou ministros, descredenciou a embaixadora do Brasil, pressionou o sistema judiciário brasileiro, quis definir os parceiros comerciais do país, tentando afastar a China de negócios por aqui. Foi arrogante, desrespeitoso, deselegante.
O sequestro de Maduro e o saque da maior reserva petrolífera do planeta fizeram com que ele acreditasse que o seu domínio seria incontestável.
Trump foi derrotado no Irã e está perdendo o poder em toda a Ásia Ocidental. Sua supremacia militar está sendo desafiada. A hegemonia do dólar também. O Brics, do qual o Brasil é membro fundador, é um exemplo eloquente do avanço da multipolaridade que se recusa a beijar a mão do império. Cuba segue resistindo a um bloqueio criminoso que sufoca a ilha.
Nas Américas, Trump investiu na extrema direita em diversos países e promoveu um cerco pra intimidar o Brasil. No norte, avançou sobre a Groenlândia, com a submissão da Dinamarca. Dos países com maior peso, restam o Canadá, o México e o Brasil na resistência. O Brasil acaba de descobrir uma nova reserva petrolífera na costa do Amapá, a poucos quilômetros dos EUA. Temos a Amazônia, os minerais, as águas, as terras, o mercado consumidor. Trump quer tudo isso para se preparar para uma situação de guerra mundial. Encontrou nos Bolsonaro e em parcela da elite colonizada o entreguismo que precisa. Perdeu, playboy.
Do nosso lado, a campanha trouxe depoimentos em vídeos e reportagens que ajudaram a escancarar as vinculações dos Bolsonaro com Trump. E com o crime. O caso Vorcaro, o maior escândalo financeiro da história do país, tem o miliciano candidato como personagem central. Na verdade, praticamente qualquer escândalo de monta no Brasil traz as digitais do nefasto clã.
Mais do que as patifarias do grupo, talvez o que tenha tido maior impacto na memória do cidadão seja o morticínio na pandemia, resultado direto da política negacionista de Jair Bolsonaro. Mais de 700 mil mortes (há estimativa de que esse número deva ser na casa dos 2 milhões) deixaram cicatrizes na maior parte das famílias brasileiras, apesar das tentativas de apagar a história de horrores. Não tinha vacina, não tinha oxigênio para os doentes. Tinha zombaria e desrespeito. Negociata e curandeirismo.
E teve a tentativa de golpe, com plano para assassinar Lula e Alckmin antes da posse de 2023.
O caráter golpista, tosco e desumano de Flávio Bolsonaro foi ficando evidente no decorrer desses 20 dias, especialmente nos dois debates. No primeiro, imitando a tática de Trump contra Hillary, adotou uma postura arrogante e desrespeitosa para tentar desestabilizar Lula. Não deu certo.
No segundo, ensaiou uma persona mais contida, mas deixou a máscara cair, chamando o presidente “nove dedos”. Lula reagiu com firmeza e contundência, rejeitando o ataque e pedindo respeito à sua trajetória. Foi operando uma máquina no chão de fábrica à noite, aos 17 anos, que Lula perdeu o dedo. Não podia aceitar que um grã-fino que nunca trabalhou o ofendesse. Para muitos, naquele instante da noite de 23 de outubro, Lula virou o jogo definitivamente.
O dia 24 amanheceu com Copacabana lotada à espera de Lula. Uma semana antes, os maiores artistas do país tinham estado ali mesmo num show enorme em defesa da democracia, contra o fascismo, pela soberania nacional. “O Brasil Não Cabe no Quintal de Ninguém”, título de livro do economista Paulo Nogueira Batista Júnior, foi a palavra de ordem constante nesse e em tantos outros atos espalhados pelo país naquela véspera de eleição.
No meio da tarde, na Paulista, dois milhões de pessoas foram apoiar Lula. A multidão tomou toda a avenida e as ruas adjacentes, na maior manifestação política que a cidade viu. Não era só o número que impressionava. Mas a determinação, a alegria e a consciência que estava estampada nos rostos, nas cantorias, nos cartazes. Alguns lembravam que eram os primeiros universitários da família; outros contavam que tinham filhos universitários graças a Lula: outros simplesmente afirmavam: “Ditadura Nunca Mais”. O Hino da Independência foi cantado como nunca antes. Exemplares da Constituição de 1988 eram exibidos por jovens pendurados em postes e em árvores ao longo da passeata. Algo sem precedentes acontecia no Brasil.
Para a mídia oligárquica, que se acha dona do país, mais uma campanha chegava ao fim. Os dois candidatos foram tratados como equivalentes. Alguém lembrou que isso era como igualar Pelé ao goleiro Bruno. Submissa aos interesses de Trump e de boa parte do mercado financeiro, a mídia abriu mão de enxergar o Brasil e sucumbiu ao fascismo e ao entreguismo. No cair da noite, as pesquisas davam empate, com leve vantagem numérica para Bolsonaro. O desânimo deu sinais, mas a vontade de continuar lutando apesar de tudo parece ter crescido nas horas decisivas.
O que se viu no dia da eleição também foi inédito. Logo cedo, já ouvi um vizinho gritando da janela: “É Lula! É Lula”. Era o seu jeito de fazer campanha. No trajeto até a votação, pessoas de vermelho, com o 13 na roupa, sorriam, se cumprimentavam como se fizessem parte da mesma família e estivessem indo para uma festa. Velhinhos de bengala, de andador, de cadeira de rodas eram ajudados por parentes e chegavam até a urna.
Choramos todos ao ver os velhinhos pelo Brasil todo irem votar. Alguns foram carregados no colo de netos; outros empurravam seus tubos de oxigênio; um paraplégico entrou em uma maca na sala de votação. Na juventude, testemunharam os tempos de ditadura. Têm na memória as mudanças enormes pelas quais o Brasil passou e sabem do papel de Lula e da democracia em tudo isso.
Lula encarna a própria luta pela redemocratização e pelos avanços que o país viveu nas últimas cinco décadas. Encabeçou as greves históricas na virada dos 1970/1980 que ajudaram a derrubar a ditadura. Foi preso como dirigente sindical, fundou o PT, foi deputado constituinte, debateu com todas as personalidades da República, políticos, intelectuais, trabalhadores, professores. Fez caravanas pelas entranhas do Brasil, que conhece como ninguém. Dias atrás me surpreendi quando ele disse que nunca tinha ido aos Lençóis Maranhenses. A política pouco lhe permitiu o lazer, o turismo.
Derrotado em tantas eleições, não desistiu. Concorreu e venceu. Condenado ilegalmente na esteira do golpe que derrubou Dilma, ficou 580 dias preso. Durante todo esse tempo, recebeu gritos de bom dia, boa tarde e boa noite dos brasileiros acampados em Curitiba. Saiu da prisão para a Presidência da República. Agora, foi reeleito pela quarta vez, se igualando a Franklin Roosevelt, que governou os EUA no contexto de uma recessão bravíssima e da Segunda Guerra Mundial.
Um pouco dessa garra e determinação de Lula deve ter se espalhado pelo povo brasileiro, que decidiu não se conformar com as previsões de derrota e foi para a rua e para as redes sem parar. O exemplo do presidente deve ter embalado as passeatas, as conversas, os mutirões para fazer cartazes e organizar grupos de ação. No exterior, brasileiros fizeram caminhadas, bandeiraços, atos públicos.
Começaram a surgir denúncias de boicote no transporte público em cidades onde o PT tem sempre boa votação, como Salvador. Lula apontou que prefeitos e empresários bolsonaristas estavam reduzindo a frota de ônibus em circulação para interferir no resultado eleitoral. Mas, antes disso, a população de Salvador e de outros lugares passou a organizar caronas solidárias para driblar o golpe da extrema direita. Deu certo.
A abstenção caiu, e Lula teve mais 10 milhões de votos em relação ao primeiro turno, avançando também em áreas que tinham sido mais simpáticas a Bolsonaro. Um feito inédito baseado em um movimento inédito da sociedade brasileira.
Assim Lula derrotou Trump, Zuckerberg, a extrema direita, o fascismo, a Faria Lima. Assim Lula e o povo brasileiro deram uma lição para o mundo e para o sul global: é possível derrotá-los. É possível não se submeter ao império. E fazer o “L” virou gesto de rebeldia pelo mundo.
Perto da uma da manhã deixamos a Paulista. A garoa já estava mais forte. Metrô lotado. Muita gente ainda chegava para comemorar. Grupos com bandeiras vermelhas e musiquinhas que ridicularizavam Bolsonaro. Na nossa estação, quase no fim da linha, o movimento já era menor. Um casal de jovens se aproximou e perguntou se a gente não queria andar com eles porque já estava tarde e escuro ali. Seguimos junto, eles dividindo conosco seus sentimentos daquele momento histórico. Estavam emocionados como nunca, diziam. Queriam nos proteger; nos escoltaram até a esquina de casa. Solidários, felizes, como se nos conhecêssemos há muito tempo. Talvez a gente não se encontre mais. Mas estamos juntos. É possível.