Por AQUILES RIQUE REIS, vocalista do MPB4

Hoje trataremos de Borogodó (Kuarup), álbum do músico, violonista clássico e
educador Octávio Deluchi. Natural de São João del-Rei, foi na cidade de Prados que,
por meio do violão, ele encontrou a trilha para a formação erudita.
Radicado em Nova York, o jovem Deluchi volta às origens para prestar tributo
ao violão brasileiro de concerto, o que faz através de alguns compositores populares,
numa demonstração de sabedoria explícita. Tal amplitude incondicional ajuda a
desmistificar a “lenda” de que popular e erudito são incompatíveis – conflitantes é que
não são, ora bolas! São todos frutos da árvore que alimenta a diversidade da nossa
música.
Poucos instrumentos são tão brasileiros quanto o violão. Ele sintetiza a
pluralidade do povo brasileiro: simples em sua sabedoria; cauteloso, mas surpreendente,
em seu enfrentamento às tentativas de destituição de direitos conquistados a duras
penas.
Desde a primorosa escolha do repertório, passando por improvisos inusuais,
sonoridades plenas de criatividade e uma força descomunal nos arranjos, ouvir Denuchi
tocar é um prazer! Uma sedução inspiradora a cada faixa.
“Toccata em Ritmo de Samba nº 1” (Radamés Gnattali): a obra de Radamés,
compositor tão erudito quanto popular, propicia a Deluchi um desempenho arrebatador.
Um dedilhado traz o arranjo, causando um suspiro no ouvinte, àquela altura estatelado.
“Serenata”, (Chiquinha Gonzaga): música que integra a burleta A Sertaneja, de
Viriato Correia, de 1915, criada originalmente para canto e piano e posteriormente
pensada na atual versão para violão, à qual Deluchi entregou sua alma. Soando com a
limpidez de um frasco de cristal, o arranjo tem tal finura que, com sua imensa beleza,
comove. “Corta-Jaca” (Chiquinha Gonzaga): o ritmo vem aguçado pela puxada do
violão; o arranjo de Deluchi tem um clima tão brasileiro que quase se pode pegar com a
mão. “Bate-Coxa” (Marco Pereira): novamente o ritmo da obra impregna o violão que
não nega fogo; um improviso vem aceso. “Luar do Sertão” (João Pernambuco & Catulo da Paixão Cearense) tem participação do Duo Aduar; os violões de Deluchi e
Gabriel Guedez (DA), somados à viola de Thobias Jacó (DA), tocam em terças; os dois
do Aduar, também em terças, cantam e agregam riqueza a um trabalho que merece ser
ouvido.
Atando tradição a contemporaneidade, fazendo do violão um guardador da
cultura brasileira, Octávio Deluchi a torna ainda mais bonita do que já é, e diversa que
só ela.

Aquiles Rique Reis
Nossos protetores nunca desistem de nós.

Ficha técnica: Octávio Deluchi: violão e edição; participação: Duo Aduar (Gabriel
Guedez: violão e voz, e Thobias Jacó: viola caipira e voz); arranjos para temas de
Chiquinha Gonzaga: Octávio Deluchi; arranjo para “Luar do Sertão”: Duo Aduar;
Octávio Deluchi; engenheiro de som: Alexandre Andrés; mix & master: Alessandro
Tavares; produção: Ricardo Gomes.

Ouça o álbum:
https://youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_laO_wcs8kCLUBz0pLXcXotTEVETskTd
og&si=IfvteVdjr_euU39H