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Pensar é muito perigoso, diz viúva de Paulo Freire

“O presidente eleito, o homem eleito, diz que vai defenestrar Paulo Freire, vai extinguir Paulo Freire da educação no Brasil, vai fazer o povo brasileiro esquecer Paulo Freire. Eu já disse e repito: se ele tentar fazer isso, ele vai se estrepar um pouco. Nunca, nunca, nunca educadores do Brasil ou de qualquer parte do mundo esquecerão Paulo Freire.”

É o que afirma a pedagoga Ana Maria Araújo Freire, viúva de Paulo e guardiã de sua obra e seu legado, em entrevista ao TUTAMÉIA (veja no alto desta página o vídeo completo de nossa conversa).

Do alto de seus 85 anos, Nita Freire, como é mais conhecida, analisa as razões da onda de ataques a Freire desfechada pelo atual governo brasileiro, em diversas instâncias. Diz que é porque o educador ensinava a pensar.

“Ele ensinava a pensar. Não quero uma alfabetização mecânica -ele dizia-, eu quero, o povo precisa, o Brasil precisa de uma alfabetização conscientizadora. Pensar é muito perigoso. Sempre foi, na história do mundo, e aqui no Brasil há muito forte essa questão contra aqueles que pensam. Pensar é perigoso para as pessoas autoritárias. O autoritário quer que, ao dizer Faça isso!, a pessoa faça, não pense nem se é bom ou é ruim. Para quem, e por que vai fazer aquilo.”

Participante de projetos de educação e conscientização popular antes do golpe de 1964, o educador pernambucano (1921-1997) foi perseguido pela ditadura militar, sendo obrigado a buscar o exílio para garantir a integridade física. Trabalhou em projetos educativos, deu aulas pelo mundo afora, produziu alguns dos mais emblemáticos livros no terreno da educação –“PEDAGOGIA DO OPRIMIDO”, já com mais de cinquenta anos, está entre os três livros mais citados nas ciências sociais e entre os cem mais pedidos e consultados por universidades em língua inglesa, segundo pesquisa feita pela London School of Economics.

Paulo voltou ao Brasil depois da Anistia, em 1979. Deu aulas na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT). Entre 1989 e 1991, foi secretário Municipal de Educação de São Paulo, na gestão de Luíza Erundina (então, PT). Entre inúmeras honrarias, foi laureado com 41 títulos de Doutor Honoris Causa de universidades no mundo todo. Também ganhou diversos títulos da comunidade internacional, como o prêmio da Unesco de Educação para a Paz, em 1986.

Ao contrário do que dizem seus críticos, sua linha pedagógica se opunha à doutrinação e à manipulação de conceitos, ainda que incentivasse que os professores apresentassem suas ideias em sala de aula:

“O que não é possível na prática democrática, é que o professor ou a professora (…) imponha aos alunos sua ‘leitura de mundo’, em cujo marco situa o ensino do conteúdo. Combater o autoritarismo de direita ou de esquerda não me leva, contudo, à impossível neutralidade, que não é outra coisa senão a maneira manhosa com que se procura esconder a opção”, escreve em “Pedagogia da Esperança: Um Reencontro com a Pedagogia do Oprimido”.

E orienta: “Devemos dizer aos alunos como pensamos e por quê. Meu papel não é ficar em silêncio. Tenho que convencer aos meus alunos de meu sonho, mas não conquistá-los para mais silêncio. Tenho que convencer aos meus alunos do meu sonho, mas não conquistá-los para meus planos pessoais”. (Medo e Ousadia)

É exatamente essa visão libertadora que, diz Nita Freire ao Tutaméia, atemoriza os poderosos:

“A casa grande impede as pessoas de ser. A pessoa ser um ser sujeito e não apenas objeto de mando. Quer as classes subalternas apenas como objetos, sem direito a nenhum pensamento, sem direito a nenhuma ação. Objetos de manipulação da classe dominante.”

A pedagoga nos falou também dos sentimentos, das emoções de Paulo Freire, das perseguições que sofreu e de sua reação:

“Paulo sofreu muito. Ele se rebelava contra a violência e as injustiças cometida pela ditadura. Tinha o que chamava de justa raiva. Ele dizia: ’Para a gente fazer as coisas, e fazer as coisas profundamente arraigadas na verdade, a gente tem de ter raiva. Se eu não tivesse raiva da injustiça de 90% do meu povo ser analfabeto, se eu não tivesse raiva disso, eu não teria me dedicado tanto, não teria dado a minha vida para isso. É porque eu tenho raiva. Não é possível termos uma elite, uma casa grande que impede as pessoas de serem’. E foi a isso que ele se dedicou. A ajudar a pessoa a ser um ser sujeito, e não apenas um objeto.”

Apesar da empolgação com a obra e o legado de Paulo –na época da entrevista, no final do ano passado, Nita Freire acabara de lançar uma nova edição de “Pedagogia do Compromisso”, uma série de artigos, palestras e entrevistas organizada por ela –, a entrevista trafegou também por terrenos mais pessoais e particulares, o mundo do afeto, da paixão, do namoro.

“Estás tão bonita, Nita”, disse um encabulado Paulo para sua então orientanda, em meio a conversas cabeçudas sobre teses acadêmicas e pedagogia.

A frase pegou de surpresa Anita, que tinha enviuvado fazia pouco, como também acontecera com o mestre. E abriu caminho para conversas, almoços e jantares em que o mundo acadêmico passava longe.

Acabaram iniciando um namorico, que virou namoro e culminou em casamento. Mas Paulo chegou a pensar em botar freio no processo, como nos contou Nita Freire, lembrando momentos do início do romance:

“Paulo disse: ‘Eu sou um homem doente e acho que teria poucos dias de vida. Talvez alguns poucos anos. Você já ficou viúva, sofreu muito. Eu não gostaria de dar motivo de você sofrer mais. Eu acho que a gente devia acabar esse romance como está’. Eu disse: Paulo, se tu fosses um homem marcado para morrer, que é um ditado muito nordestino, marcado para morrer daqui a dois anos, eu ia viver os dois anos com você”.

O casamento só aconteceu na segunda metade da década de 1980, mas os dois se conheciam havia muito, desde os tempos da infância, como Nita lembra na conversa com TUTAMÉIA, em que contou mais detalhes da infância, dos encontros e da trajetória pessoal de Paulo Freire. Logo a entrevista volta para a obra e o legado do educador e para os tempos de hoje:

“Paulo é um intelectual que descreve as coisas com uma beleza de linguagem, quase uma poesia, nos encantando mesmo quando ele está condenando, denunciando certas posturas. Por conta disso, as denúncias de Paulo já são o anúncio de uma nova possibilidade.

“Paulo sempre foi um homem dialético, que dizia: ‘Quando eu denuncio, quando qualquer um de nós na sociedade denuncia, nós criamos a possibilidade de anunciar uma outra coisa’.

“Por isso acho que, em relação a esse governo, a gente deve denunciar toda vez que ele pisar fora do trilho. E vão ser muitas vezes que a gente vai ter de refutar o que ele vai dizer e o que ele vai fazer.”

Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena

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