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Fé e esperança aos montes

por Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

Eu escrevo porque choro. Enquanto ouço sons díspares – músicas que me vêm tocadas e cantadas por músicos/poetas –, choro e sinto meu peito se apertar. Amo meu ofício de tanto amar, tanto admirar. Choro pelo carinho por quem me faz chorar. Eu escrevo porque choro.

Choro porque respeito o trabalho alheio. Aplaudo quem cria o que me faz chorar. Amo chorar e traduzir meu pranto em termos, com eles teço loas. Eu escrevo porque choro.

Ao primeiro acorde, meus sentidos se aguçam. O coração se contrai e se distende. Minha lágrima traz consigo o respeito por quem faz da música ofício. A eles devo atenciosa audição. A eles, enquanto choro, dou minha emoção.

Tanta utopia. Fé e esperança aos montes. E eu, emocionado, vivendo enquanto escrevo. Reúno palavras em louvor ao som de gente igual a mim: povo que vive de criar e sonhar; de viver e batalhar. Ouvi-los é sentir suas dores e seus amores… chorar enquanto festejo a arte alheia faz bem à minha vida.

As dicas que tenho dado, dou-as com a alma em festa. As palavras que ajunto são meus aplausos silenciosos à produção musical de meus colegas; são tributos à obstinação de musicarem suas existências e dá-las ao mundo. Enquanto os reverencio, saúdo-os fraternalmente por tantas belezas.

Foi ouvindo o CD Melhor Agora – Melissa Mundim musicada por Márcia Tauil (independente) que eu o elegi como a real motivação desta confissão.

O CD reúne músicos e poetas de Minas Gerais para cantar as parcerias da compositora e cantora Márcia Tauil com a poetisa Melissa Mundim.

“(…) Olha pai, já sei andar/ Olha pai, já sei rezar/ Olha pai… já sei amar.” Foram estes versos de “Primeiro Verão” (Márcia Tauil e Melissa Mundim), muito bem interpretados por Tauil, que me levaram a um choro solo. Inexplicável, dirão. Incrível, sim, responderei. Enigmático é o choro que vem sem aviso: ele é a voz do subconsciente.

Através de quatro inspirados poemas de Mundim, da voz delicada de Tauil, uma verdadeira bem-te-vi, ou da graça das suas músicas, as duas mulheres deram-se o direito de bem dizer suas mineirices. Para tanto, ainda contaram com mais três mineiras, uma espanhola, uma paraense e uma canadense. União!

Graças aos bons arranjos de Eric Furlan e à cumplicidade que dividem com ele, a razão de serem mineiras brotou-lhes da pele.

Com a sabedoria de um bão contador de causos, boa é a participação de Ivan Vilela no poema “Coração Caipira” (Melissa Mundim). Enquanto Mundim expõe seu mundo interiorano, a viola conclui os versos da autora, tornando-os sinônimos de seus ponteados.

“Aqui Eu Fico” (Márcia Tauil e Melissa Mundim) vem com o grupo vocal Negr.a – Coletivo Negras Autoras. Com o arranjo incrementado, os versos de Mundim voltam a impressionar pelo vigor do uníssono feminino.

Produzida por Kiko Klaus, “Melhor Agora” (Tauil e Mundim), já apresentada na faixa cinco, volta com novo arranjo – a fortaleza dos tambores conduz o canto a um final que me fez novamente sentir: “Eu escrevo porque choro!”


Rodolfo Lucena

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