Depois de sofrer derrota humilhante no Irã, “Trump pode buscar novos alvos, e certamente se voltará para Cuba e a eleição brasileira”, diz o professor José Luís Fiori em entrevista exclusiva ao TUTAMÉIA.
Professor emérito de economia política e de ética na UFRJ e autor de “Uma Teoria do Poder Global”, Fiori afirma: “Não há dúvida de que a impotência dos EUA frente ao fechamento iraniano do Estreito de Ormuz acelera o processo, em curso, de deslocamento do centro do poder político e econômico do sistema mundial na direção da Ásia, em particular na direção da China. Isto não significa o fim do “poder americano”, mas seu debilitamento atual, ainda que possa ser transitório, deve contribuir para que as negociações de paz com o Irã acabem se transformando na primeira grande negociação da nova era multipolar do sistema mundial, mesmo que ninguém saiba exatamente o que ela virá a ser”.
Leia a seguir a íntegra da entrevista, realizada por mensagem de texto em 23 de junho de 2026.
UMA “RENDIÇÃO HUMILHANTE”
TUTAMÉIA TV – O memorando de entendimento assinado pelos EUA e pelo Irã na semana passada está sendo avaliado como uma derrota histórica para os Estados Unidos. O sr. concorda com essa análise? Por quê?
JOSÉ LUÍS FIORI – O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e altos funcionários do governo israelenses consideraram o “Memorando de Entendimento” assinado pelos EUA e pelo Irã, uma “rendição vergonhosa e humilhante”. E os israelenses têm toda razão, porque os 14 pontos que foram acordados representam de fato, e indiscutivelmente, um “ato de rendição” da parte dos EUA. O governo de Donald Trump nunca conseguiu explicar nem justificar seu ataque em meio a um processo de negociação que avançava favoravelmente para os objetivos norte-americanos. E os objetivos que tomou emprestado de Israel e foram sendo apresentados de forma desordenada através do tempo, nenhum deles foi alcançado. Afinal, a promessa de não fabricar armas nucleares já havia sido feita há muito tempo por sucessivos governos iranianos. E a abertura do Estreito de Ormuz, a segunda grande conquista de Donald Trump, é absurda e quase ridícula, uma vez que o estreito só foi fechado devido ao ataque dos próprios norte-americanos. Com o “pequeno” detalhe de que, para obter essas promessas de que os iranianos manterão as coisas como estavam antes da guerra, os EUA gastaram cerca de 40 bilhões de dólares, assassinaram quase todo o alto comando religioso político e militar do Irã, mataram cerca de 3500 iranianos e destruíram, além de objetivos militares, grandes extensões da infraestrutura civil do país. Além disso, para obter estes dois objetivos pífios e rebarbativos, os EUA, junto com Israel, atingiram em cheio o mercado mundial de energia e alimentos, provocando uma queda do produto mundial e um abalo estrutural da economia europeia, que já vinha enfrentando uma grande crise econômica e política desde o início do conflito ucraniano. Tudo isso graças a uma guerra completamente absurda, que não foi provocada, não foi justificada e nem foi explicada. Tudo para que, no final, EUA e Israel se rendessem e optassem por um armistício que não deve durar muito tempo, com ou sem Donald Trump na presidência dos EUA.
TUTAMÉIA TV – E Israel, como saiu desse conflito, e qual o futuro desse país?
JOSÉ LUÍS FIORI – Com toda certeza, Israel saiu dessa guerra pior do que os EUA. Na verdade, Israel e seu primeiro-ministro foram os maiores perdedores desta guerra. Afinal, faz mais de duas décadas que Benjamin Netanyahu conspira e defende, junto ao governo americano, a proposta de um ataque conjunto, massivo, surpreendente e definitivo dos dois países contra o Irã. Um ataque que destruiria a capacidade militar, a capacidade de resistência do povo, e a própria estrutura religiosa e civil do Estado Persa. E, finalmente, esse ataque aconteceu, no dia 28 de fevereiro, mas nenhum dos objetivos de Netanyahu foram alcançados. As forças coligadas mataram, nas primeiras horas do ataque, quase todas as lideranças religiosas e civis do Irã; depois disso, bombardearam mais de 130 cidades iranianas e atacaram de forma contínua, durante mais de um mês, milhares de alvos militares e civis em todo o país. Ainda assim, as duas potências atômicas não conseguiram derrubar o governo nem interromper o programa nuclear do Irã; não conseguiram destruir a capacidade balística dos iranianos nem muito menos dividir e dobrar moralmente o povo persa. Pior ainda, o Irã resistiu, contra-atacou e ainda conquistou uma posição de poder que não tinha antes da guerra – o controle militar e econômico do Estreito de Ormuz, que foi a peça-chave da derrota estratégica imposta pelo Irã contra os EUA. Além disso, o sistema de defesa aérea de Israel, seu famoso Domo de Ferro, foi vazado de forma sistemática pelos drones e novas armas balísticas iranianas, restando para Israel apenas o controle do território arrasado de Gaza, e a região que ocupa atualmente, no sul do Líbano. Por fim, Israel foi excluído das negociações de paz e ainda foi obrigado a ouvir uma das admoestações mais duras que jamais foram dirigidas por uma autoridade norte-americana contra os israelenses, quando o vice-presidente americano, J. D. Vance, declarou numa entrevista na última semana que “o presidente Donald Trump é o único chefe de Estado em todo mundo que ainda demonstra simpatia pela nação de Israel neste momento”, aproveitando para lembrar, ao mesmo tempo, aos governantes de Israel que “dois terços das armas defensivas que protegeram Israel foram fabricadas por mãos norte-americanas e pagas com o dinheiro dos contribuintes norte-americanos”. Algo absolutamente inusitado. De qualquer forma, Israel deverá seguir sendo uma “máquina em estado de guerra contínua” quase mais do que um Estado. Até porque tem plena consciência da quase inutilidade do seu arsenal atômico, que não pode ser utilizado no Oriente Médio sem atingir diretamente o seu pequeno território e sua própria população.
TUTAMÉIA TV – Israel será um obstáculo para um tratado de paz mais estável? Há divergência de fato entre as posições estadunidenses e israelenses, ou trata-se apenas de uma ruptura circunstancial?
JOSÉ LUÍS FIORI – Será agora e sempre, porque existe aí uma “guerra religiosa” no fundo desse confronto de “soma-zero” entre Israel e Irã. Não são apenas os dois Estados mais poderosos da Ásia Ocidental; são também dois Estados religiosos que reproduzem continuamente uma disputa em torno do território de Israel, considerado pelo Irã como um território que pertencia aos palestinos islâmicos e que foi invadido e ocupado pelos israelenses que vieram da Europa e dos EUA, sobretudo, com apoio, patrocínio político e tutela militar e financeira da Grã-Bretanha e dos EUA. Nesse sentido, o que se deve prever é que esse conflito permaneça, mesmo que se mantenha durante algum tempo em “banho maria”.
TUTAMÉIA TV – As pressões econômicas decorrentes da guerra e a perda de popularidade a pouco meses das eleições pesaram na decisão de Donald Trump de se render?
JOSÉ LUÍS FIORI – É bem possível, apesar de que Donald Trump parece ser uma pessoa que costuma jogar avançando e apostando sempre em algum “ponto futuro” que lhe seja favorável, no próprio tabuleiro no qual está perdendo. De qualquer maneira, para um bom observador, dá para ver que ele é um jogador que sabe recuar e reconhecer quando perdeu, por mais que siga se vangloriando de vitórias que só aconteceram na sua própria cabeça.
TUTAMÉIA TV – As consequências da guerra no Irã freiam as pretensões imperiais de Trump ou o farão buscar outros alvos – Cuba, por exemplo – para tentar escapar do carimbo de derrotado?
JOSÉ LUÍS FIORI – Trump pode buscar novos alvos, e certamente se voltará para Cuba e a eleição brasileira. Mas a expansão imperial americana não parará de forma alguma, e só “estancará’ ali onde for parada por alguma força igual e contrária. Os EUA já foram derrotados muitas vezes, mas essas derrotas localizadas não alteraram sua trajetória expansiva, até porque seu território nunca foi atingido ou afetado, que não fosse nos atentados de 11 de setembro de 2001. E seja lá como tenham sido montados aqueles atentados, a verdade é que eles abriram ainda mais as portas da expansão global do poder americano, encoberta pela consigna da guerra terrorismo, uma guerra tipicamente imperial. Os EUA acabam de sofrer uma pesada derrota estratégica, mas isto não significa, de forma alguma, o fim do “poder americano”, nem muito menos que os EUA deixarão de ser uma grande potência no século XXI. Mesmo derrotados no Vietnã, no Afeganistão e agora no Irã, os EUA mantêm sua capacidade global de atacar, punir e destruir seus “desafetos”, e isso lhes assegura lugar central dentro da ordem multipolar que estará sendo construída ao longo desse novo século, por meio de muitas novas guerras.
TUTAMÉIA TV – Muitos apontam que a guerra contra o Irã teve o objetivo de sufocar a China. Qual a sua avaliação?
JOSÉ LUÍS FIORI –
Se isto tiver sido verdade, foi mais um cálculo desastroso dos estrategistas norte-americanos. Porque a China saiu ganhando de todos os pontos de vista, inclusive com a visita quase “humilde” que Donald Trump foi obrigado a fazer à China, depois do acordo do cessar-fogo com os iranianos, que teve uma participação fundamental dos chineses.
TUTAMÉIA TV – A construção de um mundo multipolar se fortaleceu com a conclusão desse conflito, apesar da fragilidade da paz?
JOSÉ LUÍS FIORI – Ninguém sabe exatamente o que seja e como funcionará um mundo multipolar, com tamanha quantidade de Estados nacionais e com tão poucas grandes potências continentais, como EUA, Rússia, China e Índia. O que existe neste momento é um mundo em avançado processo de fragmentação do “mundo ocidental”, como efeito direto da desunião e enfraquecimento da União Europeia, do divórcio entre EUA e Europa e do afastamento atual entre EUA e Israel. Nesse contexto, não há dúvida de que a impotência dos EUA frente ao fechamento iraniano do Estreito de Ormuz acelera o processo, em curso, de deslocamento do centro do poder político e econômico do sistema mundial na direção da Ásia, em particular na direção da China. Isto não significa o fim do “poder americano”, mas seu debilitamento atual, ainda que possa ser transitório, deve contribuir para que as negociações de paz com o Irã acabem se transformando na primeira grande negociação da nova era multipolar do sistema mundial, mesmo que ninguém saiba exatamente o que ela virá a ser.
TUTAMÉIA TV – China e Rússia atuaram em apoio ao Irã. Que papel esses dois países tiveram para a suspensão das hostilidades até aqui?
JOSÉ LUÍS FIORI – Há fortes indícios de que a China e a Rússia tenham repassado para os iranianos um sistema de informação e comunicação imune à intervenção americana e israelita, que cumpriu papel decisivo na identificação e localização dos principais centros de controle, rastreio conjunto dos EUA e de Israel. Isto explicaria a extraordinária precisão e eficácia dos ataques persas que conseguiram destruir estes centros de comando antes de atacar praticamente todas as bases americanas distribuídas pelos países árabes que cercam o Golfo Pérsico e o Mar Vermelho. Rússia e China vêm dando apoio diplomático às negociações de paz, e a China em particular vem atuando de forma quase direta por meio de seu aliado, o Paquistão, que cresceu e se tornou uma peça chave nessa nova conjuntura internacional, que culminou com a assinatura do Memorando de Entendimento. Os dois países também vêm atuando para neutralizar a oposição israelense ao acordo de paz.
TUTAMÉIA TV – A guerra terá consequências de longo prazo para a economia mundial e a área militar. Quais são as inovações militares e econômicas mais importantes que devem ser observadas?
JOSÉ LUÍS FIORI – A primeira, sem dúvida, não é nova, e já foi utilizada muitas vezes através dos séculos. Foi o uso estratégico do Estreito de Ormuz como uma arma de guerra do Irã. Não apenas para estrangular uma economia nacional, como já aconteceu muitas vezes através da história. A novidade foi a forma em que o Irã atingiu seus invasores “pelas costas”, ao provocar uma crise nos mercados globais de energia e alimentos, sobretudo. Mais do que isso, uma crise que foi progredindo e acelerando com o passar das horas, jogando quase toda a humanidade contra as potências invasoras. Esta “inovação estratégica” deixou como lição a possibilidade de que isso possa voltar a ocorrer em vários outros estreitos e checkpoints que tenham a mesma importância estratégica de Ormuz, como é o caso dos Estreitos de Málaca e Bab el-Mandeb, ou dos Canais de Suez e do Panamá. Por outro lado, do ponto de vista militar propriamente dito, a grande novidade dessa guerra, que já vinha se anunciando na Ucrânia, foi a “dronificação” dos ataques e da defesa aérea, com a utilização massiva de novos modelos de drones muito baratos e que demonstraram enorme eficácia na defesa do território e nos ataques iranianos contras bases americanas, e contra o território israelense.
TUTAMÉIA TV – A guerra também parece modificar o cenário geopolítico do Golfo e da Ásia Ocidental. Os EUA abrirão mão dessa região estratégica?
JOSÉ LUÍS FIORI – Com certeza, essa guerra deve modificar profundamente o mapa e o equilíbrio geopolítico do Oriente Médio. O Irã sobe vários degraus e assume a posição de grande potência regional, e Israel desce outros tantos degraus apesar de ser a única potência atômica da região, adequando seu poder ao tamanho do seu território e de sua população. Além disto é muito provável que se redefinam as relações entre os protetorados árabes dos EUA situados em torno do Golfo Pérsico. Ficou visível sua artificialidade, como também ficou visível a ineficácia defensiva da proteção americana. Na hora da batalha, quando o Irã atacou as posições americanas, o que os árabes viram foi a prioridade absoluta dos EUA na defesa de seus próprios homens e equipamentos militares. E isto deve pesar muito na hora de desfazer os escombros físicos, morais e políticos dessa guerra. Não é provável, entretanto, que os EUA se retirem da região. Pelo contrário, considerando o descompromisso dos EUA com todo e qualquer acordo que assinam, o mais provável é que eles assumam uma posição de pressão contínua e indireta, mantendo seu poder de assédio e punição sobre os governos dos seus velhos aliados árabes.
TUTAMÉIA TV – Na Europa, crescem as pressões econômicas e militares sobre a Rússia, que, seis meses atrás, parecia ter liquidado a disputa com a Ucrânia. O que se deve esperar dessa guerra?
JOSÉ LUÍS FIORI – Parece cada vez mais claro que o simples bombardeio aéreo não vence uma guerra. E as forças que jogam na defensiva podem se manter por muito tempo realizando ações de guerrilha com efeito midiático, por mais que elas não mudem o resultado final do enfrentamento militar. Mas, nesse caso, o problema é bem mais complexo. Em primeiro lugar, porque a resistência nunca foi e segue não sendo da Ucrânia exclusivamente, e sim da União Europeia e da OTAN, que se propõem a prolongar esse conflito pelo máximo de tempo possível, com o objetivo de reerguer sua indústria e sua própria capacidade militar, independentemente dos EUA. E, em segundo lugar, porque apesar de que a Rússia esteja prestes a concluir sua conquista do Donbass, seu grande objetivo nunca foi apenas regional. Desde o início, declaradamente, a Rússia esteve questionando e se propondo modificar os acordos e o equilíbrio geopolítico que lhe foi imposto pelos EUA e pela Europa, depois da derrota e dissolução da União Soviética, em 1991. Desse ponto de vista, aliás, a Rússia ainda não obteve um novo acordo formal com os europeus, mas já obteve grandes vitórias estratégicas, ao conter o avanço da OTAN e – como efeito colateral – instalar uma crise política e econômica generalizada dentro da Europa e nas relações da Europa com os EUA. Basta olhar para a divisão, a fragilidade atual da Comissão Europeia e para o “ostracismo’ da Sra. Ursula von der Leyen, que foi excluída, pura e simplesmente, de todas as negociações de paz em curso no momento, no Irã, como na Ucrânia.
TUTAMÉIA TV – Trump entrou abertamente nas eleições brasileiras. O que esperar para os próximos meses até as urnas em outubro?
JOSÉ LUÍS FIORI – Uma verdadeira guerra, com forte intervenção externa, sobretudo dos grandes grupos financeiros e tecnológicos de extrema-direita e associados à defesa dos EUA e de Israel. Porque, apesar das sucessivas vitórias da extrema-direita na América do Sul, neste s últimos tempos, sempre com o apoio e a intervenção do governo Trump, e apesar de que todos esses novos governantes logo declarem seu apoio a Israel, a verdade é que todos eles individualmente são inteiramente irrelevantes, para a Grande Estratégia dos EUA e para as grandes disputas geopolíticas mundiais. De forma muito simples e direta: os países da América do Sul, sem o Brasil, não têm a menor relevância mundial, nem mesmo para Donald Trump. Portanto, desse ponto de vista, a grande batalha sul-americana estará sendo travada mesmo é no Brasil, no segundo semestre. Diria mais, o futuro do Continente estará sendo decidido nestas próximas eleições presidenciais brasileiras.