Em visita ao Irã, TUTAMÉIA entrevista Foad Izadi, professor de assuntos internacionais da Universidade de Teerã.
Na conversa exclusiva, realizada na capital iraniana em 22 de novembro de 2025, ele fala sobre a recuperação do país após os ataques dos EUA e de Israel. Afirma que o Irã está mais preparado e fortalecido, pronto para enfrentar novas agressões (veja a entrevista na íntegra no vídeo acima e se inscreva no canal TUTAMÉIA TV)
Ao analisar a situação política interna país. avalia que os bombardeios norte-americanos em junho último unificaram o país, isolando os defensores de concessões aos EUA.
Trata do apoio iraniano à Palestina, das relações do Irã com Rússia, China, Brasil e Brics, das políticas de Trump para a Ásia Ocidental, especialmente com a Arábia Saudita. Examina os revezes da resistência anti-imperialista e se define como um otimista em relação ao futuro. Descreve o bombardeamento ideológico e midiático promovido pelos EUA especialmente sobre a juventude iraniana.
Analisa os desafios do Irã, a situação das oposições de esquerda e a necessidade de enfrentamento das correntes neoliberais dentro do país. Mulheres, energia nuclear, religião também foram temas da entrevista, na qual ele rememorou as raízes da revolução iraniana e definiu do que é ser revolucionário atualmente.
Leia a seguir a transcrição da entrevista traduzida para o português
TUTAMÉIA – Professor, muito obrigado por nos conceder esta entrevista. Estamos em Teerã e foi um prazer finalmente conhecê-lo pessoalmente, pois já realizamos duas entrevistas online. Gostaria de começar dizendo que acabei de ler no Tehran Times uma entrevista que o Ministro das Relações Exteriores do Irã concedeu à revista The Economist, na qual afirmou que o Irã está mais preparado do que nunca para responder decisivamente a qualquer ato de agressão do regime israelense. Ele disse que as capacidades defensivas iranianas aumentaram significativamente desde a guerra de 12 dias em junho passado e que a nação se transformou em uma fortaleza formidável. O que o senhor pode nos dizer sobre a situação aqui no Irã em relação à possibilidade de outra guerra ou da continuação de uma guerra com Israel neste momento?
PROFESSOR FOAD IZADI – Como você sabe, da última vez que o Irã foi atacado, o país foi pego de surpresa, pois os ataques ocorreram em meio a negociações. O Sr. Witkoff havia anunciado que estaria em Mascate, assim como o Sr. Arafshi, Ministro das Relações Exteriores do Irã. A reunião estava marcada para um domingo, e os americanos atacaram na manhã de sexta-feira, dois dias antes.
Isso ensinou muitas lições às autoridades iranianas. As técnicas usadas pelos israelenses, como a operação de desinformação com negociações, fizeram os líderes iranianos perceberem que precisam estar mais preparados, porque todos sabem que israelenses e americanos não têm padrões éticos. Eles têm muitas armas e querem balcanizar o Irã.
Eles querem derrubar o governo iraniano e fragmentar o país, basicamente acabar com o Irã, na visão deles. Por isso, nos últimos cinco meses desde os ataques, o Irã se preparou mais, militarmente, em termos de inteligência e em termos de contatos políticos. E eu acho que, considerando que o Irã não seria pego de surpresa novamente, devido à experiência anterior, o custo de um ataque aumentou.
Portanto, se estiverem fazendo uma análise de custo-benefício, o custo será maior. E a esperança é que não cometam o mesmo erro de antes, porque da última vez pensaram que poderiam atacar o Irã, derrubar o governo e então alcançar seus objetivos. E falharam, e o custo que Israel pagou não foi mínimo.
Se eles atacarem o Irã novamente, o custo será muito maior, porque o Irã está mais preparado. Portanto, a esperança das autoridades iranianas é que não haja mais guerra. Mas nunca se sabe, porque sabemos que os israelenses são capazes de cometer um genocídio.
Eles mataram mais de 60.000 pessoas na Palestina, a maioria mulheres e crianças. Portanto, são capazes de cometer crimes muito graves. E por essa razão, as forças armadas iranianas estão em constante vigilância.
TUTAMÉIA – O senhor diz que o custo de um novo ataque ao Irã será maior, por quê?
PROFESSOR FOAD IZADI – Bem, as autoridades iranianas, militares e de inteligência, aprenderam muita coisa. Da última vez que o Irã foi atacado, em 24 horas, muitos líderes militares iranianos foram mortos. Em 24 horas, o Irã conseguiu se reerguer e começou a revidar contra os israelenses.
Os israelenses não esperavam que isso acontecesse tão rápido. Pensavam que o Irã levaria talvez semanas para se reorganizar. Mas o Irã conseguiu se recuperar em 24 horas, e então foram os israelenses que pediram um cessar-fogo, porque os ataques iranianos em Israel eram bastante graves.
E se o Irã conseguiu, em 12 dias, forçar o outro lado a pedir um cessar-fogo, agora que o Irã está mais preparado, será mais difícil para os israelenses atingirem seus objetivos. Portanto, os iranianos aprenderam muitas lições em termos de inteligência, em termos de como gerenciar os mísseis balísticos que o Irã possui. Eles sabem como proteger alguns dos comandantes, porque da última vez os israelenses atacaram as casas dos comandantes por causa dessa manobra de negociação.
As pessoas pensavam que, se os israelenses quisessem atacar, atacariam caso as negociações falhassem. Por isso, houve certa surpresa. Mas desta vez, ninguém ficará surpreso.
Quando você está preparado para um ataque, fica mais difícil para o outro lado atingir seus objetivos. Mas, na sua opinião, o Irã está perto da guerra agora? Eu não acho que eles tenham desistido. Eu não acho que os israelenses tenham desistido.
Não acho que os americanos tenham terminado. Trump ficará no cargo por mais três anos, talvez até mais. E acho que eles querem acabar com a questão do Irã nos próximos três anos.
O único país que resistiu seriamente ao genocídio foi o Irã e o povo do Iêmen. Esses dois países resistiram ao genocídio na Palestina. Então, eles pensam que, se conseguirem se livrar do Irã, poderão lidar com o Iêmen.
O Iêmen será mais fácil do que o Irã, então se eles conseguirem lidar com o Irã, lidarão com o Iêmen. Então poderão ter domínio total no Oriente Médio, domínio total. Eles podem controlar o petróleo, podem controlar tudo.
E usar o Oriente Médio para pressionar a China, pressionar a Rússia, pressionar outros países independentes como o Brasil e outros.
TUTAMÉIA – Isso significa que o senhor considera que uma guerra contra o Irã, ou uma vitória americana ou israelense contra o Irã, prejudicaria o Brasil?
PROFESSOR FOAD IZADI – Sim. O motivo é que estamos caminhando para um mundo multipolar.
E durante a era da globalização, houve integração das economias. As economias se integraram. Mas, à medida que avançamos, devido à pressão exercida sobre a China, a Rússia e o Brasil para que trabalhem em conjunto com a China e a Rússia, e com países como o Irã, esses países percebem que precisam se separar.
À medida que avançamos, veremos um novo mundo com dois blocos. Um bloco será formado pelos Estados Unidos e os países que estão sob domínio dos Estados Unidos. E o outro bloco será formado por países independentes.
Rússia, China, Irã, Brasil, os países que não querem ser dominados. Porque nos lembramos do que é a dominação americana. Tínhamos um governo fantoche americano no Irã antes da Revolução Islâmica de 1979.
No Brasil, você sabe o que é dominação americana. Porque de vez em quando surgem governos fantoches no Brasil que se alinham com a política dos EUA. Como Bolsonaro.
Assim como Bolsonaro, que foi preso hoje. Boas notícias. Parabéns.
Assim, quando um país é dominado pelos Estados Unidos, surgem muitas dificuldades. O país não consegue crescer adequadamente. Portanto, o primeiro passo para um crescimento normal é a independência.
Independência da dominação dos EUA. E isso está acontecendo porque muitos países percebem que, com os Estados Unidos, uma potência em declínio, eles querem manter seu status. Mas não conseguem.
Então eles começam a atacar diferentes lugares, causando dificuldades, apoiando o genocídio, como vimos em Gaza. Portanto, no geral, estou otimista em relação ao futuro, porque o poder dos EUA está diminuindo.
Países como o Brasil, a China e a Rússia estão ganhando poder. Estão se fortalecendo. E o resultado é que, à medida que se distanciam dos Estados Unidos, os EUA têm menos ferramentas para pressioná-los.
Menos dispositivos, menos oportunidades para pressioná-los. E isso é bom. Isso é bom.
Quando o declínio dos EUA passar por seu processo, os EUA se tornarão um país normal. E quando os EUA se tornarem um país normal, você poderá lidar com eles normalmente. Mas enquanto eles se considerarem uma superpotência, enquanto eles acharem que podem dominar os outros, a única solução será a resistência.
Resistência contra a dominação, resistência contra a pressão externa. E os países que vivenciaram isso precisam trabalhar juntos. É por isso que a China está comprando petróleo iraniano.
A Rússia está ajudando o Irã com alguns equipamentos militares. As relações entre Irã e Brasil são boas. Se você for a alguns mercados aqui, verá que a carne é brasileira. Então o Irã importa carne do Brasil. Há muita cooperação econômica entre o Irã e o Brasil.
TUTAMÉIA – O senhor disse que o Irã está se preparando para outro ataque. E como está a sociedade iraniana desde o ataque de junho? Lemos que havia, ou ainda há, algum tipo de divisão na visão da sociedade sobre como lidar com os Estados Unidos. Alguns no poder, no governo, na sociedade ou alguma facção burguesa podem defender que é possível fazer negócios com os Estados Unidos, negociar nos Estados Unidos. E uma parte da sociedade não acredita nisso. O que aconteceu com essa divisão após o ataque, após a guerra, a Guerra dos Doze Dias? Como a sociedade está lidando com essa situação agora? Ainda existe esse tipo de divisão? O que o senhor pode nos dizer sobre o impacto do ataque na sociedade iraniana?
PROFESSOR FOAD IZADI – O Irã tem uma população de 90 milhões de pessoas. Portanto, existem diferentes segmentos da sociedade. Existem opiniões diversas.
Neste momento, temos um governo reformista. Quando o Sr. Pešiškan assumiu o cargo, disse que queria negociar com os EUA. Queria chamar a atenção dos EUA, por isso iniciaram as negociações. E então os EUA atacaram o Irã no meio das negociações.
Então, as pessoas que vinham pensando em normalizar as relações com os EUA perceberam que isso é muito difícil, porque os EUA não querem relações normais com o Irã. Os EUA querem derrubar o governo iraniano e dominar o Irã. Assim, muitos jovens, como eu, que leciono na Universidade de Teerã, muitos jovens que não presenciaram a revolução, que não viram os últimos 40 anos em que esses eventos ocorreram, estão percebendo por que seus pais eram antiamericanos.
Eles perceberam por que houve uma revolução. Então, o Sr. Trump transformou uma nova geração de iranianos em antiamericanos. Portanto, se o governo iraniano quisesse fazer isso, seria difícil.
Mas Trump, com suas ações, gerou união dentro do Irã. Há esse efeito de união em torno da bandeira. As pessoas estão se reunindo porque sabem o que os EUA fizeram ao Irã.
Então, pessoas com diferentes opiniões e visões políticas estão deixando de lado muitas de suas diferenças porque percebem que seu país está em perigo.
TUTAMÉIA – E quanto ao empresário, à burguesia, que sempre teve uma visão neoliberal sobre o que fazer no Irã? Como eles estão lidando com isso, e como o governo está lidando com o empresarido que ainda quer fazer negócios com os Estados Unidos e tem uma visão neoliberal da sociedade?
PROFESSOR FOAD IZADI – Sabe, nós temos essas pessoas. Temos pessoas que acreditam no neoliberalismo.
Há pessoas que pensam que podem negociar com os EUA, fazer negócios com os EUA. O único problema é que os EUA não estão dispostos a negociar com elas. Talvez queiram negociar com os EUA, talvez gostem dos EUA, mas o afeto é unilateral, não recíproco. E por isso ficam desapontadas.
Eles estão decepcionados com a experiência que o Irã teve. Eles têm alguns veículos de comunicação. Eles têm alguma influência na opinião pública.
Eles têm tentado influenciar a opinião pública para que haja relações normais com os EUA, e muitas pessoas não se importam com relações normais. Mas o problema é que os EUA não estão interessados em relações normais. Os EUA estão interessados em dominação.
Então, eles estão passando por um momento difícil.
TUTAMÉIA – Em nossa entrevista anterior, o senhor disse que um dos objetivos de Israel e dos Estados Unidos com o ataque era inflamar a população contra o governo. E você disse que, em vez de manifestações em massa contra o governo, o que houve foram manifestações massivas em defesa do governo, em defesa da paz, em defesa da revolução. Fico pensando no que foi feito com esse espírito. Quer dizer, vocês conseguiram manter todas essas pessoas organizadas, ou elas só aparecem quando e se o governo precisar?
PROFESSOR FOAD IZADI – Sabe, houve aquela manifestação em torno da bandeira logo depois dos ataques. Mas com o passar do tempo, conforme a vida volta ao normal, essas pessoas se sentem normais.
Então, quando você tem uma vida normal, você se lembra das suas dificuldades, e essa união vai diminuindo aos poucos. Isso é uma má notícia. A boa notícia é que a retórica de Trump e Netanyahu, porque eles ameaçam o Irã todos os dias, quando fazem esses comentários anti-Irã, faz as pessoas se lembrarem: “Ah, essas pessoas ainda estão tramando contra o próprio país”.
Então eles se lembram de que a união é necessária. Então vamos e voltamos. Vamos e voltamos.
É um processo. Muitas pessoas entendem o que está acontecendo. Portanto, o Irã, o povo iraniano, o país, passou por um período de aprendizado.
Eles aprenderam muito sobre os Estados Unidos, sobre o imperialismo, sobre a história das relações EUA-Irã. E enquanto Trump for presidente, acho que essa preocupação com os EUA continuará, porque Trump é quem atacou o Irã.
TUTAMÉIA – Vemos, não sei se é correta essa avaliação, mas parece, andando pelas ruas de Teerã, que há uma ação do governo para conscientizar as pessoas sobre o que está acontecendo e quais são os objetivos. Quer dizer, não conseguimos ler as palavras, mas vimos muitos painéis ao ar livre com o que parece ser propaganda governamental, propaganda nacionalista ou propaganda da Revolução Islâmica. Portanto, parece haver uma ação específica do governo para elevar o moral do povo.
PROFESSOR FOAD IZADI – Sabe, há vários canais financiados por Netanyahu que transmitem para o Irã por meio de antenas parabólicas.
Temos a BBC em persa, do Reino Unido. Temos a Voz da América dos EUA, todos serviços em persa. Então, é como uma bomba, todos os dias há um bombardeio de propaganda contra o povo iraniano.
Então, a Guerra dos Doze Dias foi um bombardeio físico. Desde então, antes da guerra, durante a guerra e depois da guerra, temos esse bombardeio de propaganda. E pessoas como nós na universidade, talvez alguns programas de televisão, diferentes tipos de pessoas tentam apresentar a verdade, os fatos, porque a maneira como essas potências externas, esses veículos de propaganda, funcionam é apresentando alguma verdade e misturando-a com mentiras.
Então, fica difícil discernir o que é verdade e o que é mentira, porque está tudo misturado. E é nosso trabalho, como professores, como pessoas que falam para o público, apresentar os fatos e deixar que eles decidam. Deixar que eles decidam o que querem fazer.
Então, existem alguns esforços nesse sentido; por exemplo, a prefeitura de Teerã está nas mãos do campo principalista. O governo é reformista, mas a prefeitura e a prefeitura são principalistas.
Às vezes, em Teerã, vemos outdoors projetados para influenciar a opinião pública. Existem iniciativas desse tipo. E também há muitos esforços externos para influenciar a opinião pública, porque eles percebem que, se o Irã se mantiver forte, não poderão dominar esta parte do mundo.
Então eles precisam derrubar o governo iraniano. E como se faz isso? Com um ataque militar, isso não acontece. Então é preciso usar a propaganda.
É preciso que haja alguns tumultos nas ruas. Talvez assim eles consigam atingir seu objetivo.
Do lado de fora do seu hotel, há uma livraria. Você viu a livraria? Então você vai para o outro lado da rua. Eu recomendo que você visite a livraria. Se você for lá, está tudo em farsi, mas há alguns pôsteres, alguns objetos que você pode gostar.
Então, eu recomendo que você vá lá e visite. E se você visitar aquela livraria, terá uma ideia dessa resistência cultural. A resistência cultural ocorre quando você pressiona as pessoas, e duas coisas podem acontecer.
Eles podem se render. Essa é uma opção. A outra opção é lutar.
E os iranianos, ao longo de sua história, demonstraram que, quando pressionados, reagem. E você pode ver alguns exemplos dessa resistência cultural na livraria em frente ao seu hotel. Existe uma cultura de usar poemas, poesia, para expressar a resistência e convocar as pessoas à resistência.
Sim, existe muita cultura iraniana. A literatura se envolve bastante com a poesia. Isso faz parte da cultura.
Então você tem poesia que é usada para unir pessoas, para se opor a poderes que tentam dominar. Você tem música. Você tem música que usa essa poesia como letra.
Existem alguns filmes sobre a guerra durante o regime de Saddam, sobre como os iranianos resistiram e contribuíram para o esforço de guerra. Então, algumas dessas atividades acontecem por lá.
TUTAMÉIA – Hoje tivemos a oportunidade de visitar a antiga embaixada dos Estados Unidos no Irã, ou o bunker da CIA. E todos com quem conversamos se lembram da ação dos estudantes que atacaram a embaixada. Eu me pergunto como está a organização dos estudantes e da juventude hoje em dia?
PROFESSOR FOAD IZADI – Sabe, existem alguns grupos estudantis, organizações estudantis. Talvez eu dê aulas na Universidade de Teerã.
Temos 15 ou 16 organizações estudantis políticas. Depois, temos organizações estudantis científicas para diversas áreas. E também algumas organizações estudantis culturais.
Sabe, a Universidade de Teerã tem cerca de 50.000 alunos. Então você tem muitos alunos com diferentes linhas de pensamento.
Então eles se reúnem, formam um grupo. Às vezes vamos conversar com eles. Hoje, a Universidade de Teerã tem televisão.
A emissora de televisão da Universidade de Teerã. Então, fui como professor. Havia três estudantes de doutorado e houve um debate.
Eles discordaram de muitas coisas que eu disse. Então, pediram à universidade que convidasse esse professor, e nós queremos debater com ele. Então, fomos hoje.
Então, antes de vir para cá, eu estava lá. Eu te encontrei de manhã, depois fui para a aula, depois tivemos uma conferência, depois fui a este debate e agora estou te vendo de novo. Então, antes de vir para cá, eu fui ao debate.
Então, há muita negociação. Eles estavam dizendo que talvez as pessoas não devessem fazer isso com os Estados Unidos. Então, você vai a manifestações no Irã e ouve um slogan, um slogan… Então, eles estavam dizendo que talvez as pessoas não devessem dizer isso.
Então eu disse a eles: “Olha, dizer isso aos Estados Unidos não é obrigatório no Irã. Vocês não dizem isso, e muita gente não diz. E as pessoas que dizem isso geralmente são pessoas que foram afetadas negativamente pelos Estados Unidos.”
Talvez tenham perdido alguns familiares. Talvez estejam cansados das sanções contra o Irã. Eles sabem que os EUA são os responsáveis.
Então eu disse que deveríamos deixar as pessoas se expressarem. Algumas pessoas querem dizer isso para os Estados Unidos, tudo bem, que digam. Algumas pessoas não querem dizer, que não digam.
Então, há muito debate acontecendo. Há muito debate acontecendo, e acho que isso é geralmente útil, porque quanto mais debates e conversas houver, menos eficaz será o bombardeio de propaganda externa. Você estava falando sobre o movimento de resistência.
TUTAMÉIA – Muitas figuras importantes da resistência, da resistência iraniana, o Hezbollah, foram assassinados nos últimos dois anos. Como o senhor vê a resistência? Há o caso da Síria, claro, que é muito importante. Como o senhor vê esse movimento como um todo? Ele está se tornando mais frágil? Está se tornando mais frágil neste período de dois anos? Como a resistência, esse movimento, pode ganhar novo fôlego?
PROFESSOR FOAD IZADI – Você sabe, esse eixo da resistência perdeu vários líderes.
No Líbano, Sayyid Hassan Massoud Nasser foi assassinado. Entre os palestinos, Ismail Haniyeh, Senwar e outros líderes desse movimento de resistência foram assassinados. O Irã perdeu diversos cientistas e generais.
Então, esses são os fatos. Isso é uma má notícia. A boa notícia é que temos muitos jovens que podem ocupar os lugares daqueles que perdemos.
E quando o país foi atacado, seja o Irã, o Líbano ou a Palestina, as pessoas perceberam que isso era injusto. Os palestinos estão sob ocupação há mais de 70 anos e sofrerão um genocídio. Eles não podiam matar todos.
Eles mataram mais de 60 mil pessoas. Mas os jovens que sobreviveram ao genocídio não se lembram, não esquecem o que os israelenses fizeram às suas famílias. O povo do Líbano não esquece o que os israelenses fizeram ao Líbano.
Os iranianos não esquecem. Isso cria uma nova geração de resistência, uma nova geração de pessoas que acreditam na resistência porque sabem o que acontecerá se não resistirem. E elas compreendem a importância do poder.
Eles percebem que precisam se fortalecer para que os israelenses não possam atacá-los novamente. Então, na prática, os israelenses podem pensar que vencemos. Eles podem ter essa falsa sensação de vitória.
Na realidade, eles geraram uma nova geração de combatentes da resistência. E, a longo prazo, isso vai muito contra os interesses deles, ter esse grupo de pessoas, esses milhões de pessoas que se opõem a Israel por causa de suas experiências pessoais, por causa do que os israelenses fizeram a elas.
TUTAMÉIA – Então, o que pode acontecer com o governo de Israel no mundo árabe?
PROFESSOR FOAD IZADI – Acho que ele vai desaparecer. Acho que Israel não conseguirá sobreviver. Vai se desintegrar.
TUTAMÉIA – O país?
PROFESSOR FOAD IZADI – O país. Por quê? Sabe, por vários motivos. Primeiro, os israelenses não conseguem sobreviver sem a ajuda dos Estados Unidos.
Eles precisam do dinheiro dos EUA, precisam das forças armadas dos EUA. E você vê que nos Estados Unidos o apoio a Israel está diminuindo. Você viu em Nova York, aquele homem muçulmano, Zohran Mamdani, hasteando a bandeira palestina.
Ele apoiava a causa palestina. Ele é muçulmano. E ele é muçulmano.
Ele é muçulmano xiita. Pertence à mesma seita dos iranianos. E as pessoas votaram nele.
E ontem à noite, ele foi à Casa Branca e repetiu essa ideia de que houve um genocídio, dizendo que os contribuintes americanos pagaram por ele. Portanto, ele não abandonou a retórica anti-Israel, mesmo depois da eleição. E essa população vai crescer, porque há uma mudança demográfica nos Estados Unidos.
Trump tentou impedir a imigração para os EUA, mas é tarde demais. Essa mudança demográfica vai acontecer. Os dados do Censo dos EUA indicam que os Estados Unidos terão uma minoria branca até 2045, daqui a 20 anos.
E esse racismo que existia nos Estados Unidos, que oprimia minorias e pessoas de fora, essa mesma mentalidade, essa mentalidade de supremacia branca, vai desaparecer aos poucos. E se os israelenses não tiverem o apoio dos Estados Unidos, os europeus não os apoiarão dessa maneira. Vimos países como Espanha, Irlanda e, em menor grau, França, mas a Espanha e a Irlanda ficaram realmente revoltadas com o que viram.
Então, essa é uma das razões. Uma razão pela qual eles apoiarão os governos ocidentais, o governo dos EUA. Isso acelerará sua queda.
O segundo motivo é que, nos territórios ocupados, a população palestina já é maior que a israelense. Essa é uma das razões pelas quais eles queriam o genocídio. Eles queriam expulsá-los à força.
Porque, desde 2020, há mais não israelenses do que israelenses na Palestina histórica. E, mais cedo ou mais tarde, as pessoas vão exigir o direito ao voto. Portanto, a solução para a Palestina é a solução de um único Estado.
É isso que o Irã vem dizendo há muitos anos. O Irã pergunta aos governos ocidentais: vocês acreditam na democracia? Eles respondem que sim. Ótimo, se vocês acreditam na democracia, deixem-nos votar.
TUTAMÉIA – Um homem, um voto.
PROFESSOR FOAD IZADI – Um homem, um voto. É isso que o Irã vem dizendo há 30 anos.
Nos últimos 30 anos, um homem, um voto. Se você acredita na democracia. Porque dizem que Israel é a única democracia no Oriente Médio.
Certo, se só existe democracia no Oriente Médio, por que não deixar as pessoas que vivem lá votarem? Eles têm esse apartheid, só os sionistas podem votar. Então, essa é a segunda razão. Gradualmente, haverá pressão sobre Israel para que aceite a solução de um Estado.
O terceiro motivo são as dificuldades internas em Israel. Existem alguns grupos extremistas que estão em conflito com judeus mais liberais. Portanto, há extremistas, e o crescimento populacional desses extremistas é maior do que o dos liberais.
Então, pouco a pouco, eles assumem o controle da administração da cidade. E se você é um judeu liberal, não consegue viver sob essa ideologia extremista. E os israelenses geralmente têm dois ou três outros passaportes.
Como vieram de outros lugares, mantiveram o passaporte dos países de origem. Portanto, há uma migração reversa. Ou seja, eles estão saindo do país.
Eles estão indo embora. Porque quando foram incentivados a entrar, a propaganda, a propaganda do governo israelense, era que vocês entrassem, nós lhes daríamos terras de graça, dinheiro, emprego, tudo. Venham.
Eles incentivavam as pessoas a virem, porque Israel é ótimo. Agora, a economia não está bem. Suas terras pertencem a outros povos.
A terra não lhes pertence, pertence a outras pessoas. E eles olham pela janela e veem mísseis vindo do Irã. Portanto, não há segurança.
Porque se eles atacarem o Irã, o Irã vai retaliar. Este não é lugar para se viver. Eles precisam voltar para os países a que pertencem.
Eles não deveriam estar ocupando terras alheias. E eles sabem disso. É por isso que eu acho que, talvez dentro de 15 a 20 anos, veremos o fim de Israel.
É uma tendência. Aos poucos, eles vão perdendo apoio. A pressão externa vai aumentar.
E essa mudança demográfica, a saída de pessoas, resultará no fim de Israel. Portanto, estou muito otimista em relação ao futuro. O futuro será um Oriente Médio livre da dominação israelense.
Um Oriente Médio livre da dominação americana. Então, países como o Irã, você sabe, o Irã é o número um em petróleo e gás. Nenhum país tem mais petróleo e gás do que o Irã.
Portanto, o Irã é um país rico em recursos. Eles podem comercializar. Eles podem ter boas relações econômicas.
E as pessoas se lembram. Elas se lembram de que o Brasil estava ajudando o Irã em um momento difícil. Por quê? Porque elas comem carne brasileira.
Então, eles se lembram de que o Brasil negociava com o Irã quando o Irã estava sob sanções. Assim, os iranianos se lembram dos amigos que tiveram durante os momentos difíceis. E eles teriam melhores relações com esses países que foram amigos deles durante esses períodos difíceis.
Portanto, acredito que, no futuro, as relações entre Brasil e Irã irão se intensificar e melhorar. Principalmente porque o Irã agora faz parte do BRICS. Então, há muita cooperação entre os dois países.
E o futuro será um mundo mais pacífico. Porque a tendência está do nosso lado. Sabe, não dá para cometer genocídio o tempo todo.
Talvez seja possível cometer genocídio por um ano, por dois anos, mas não para sempre. E percebemos que eles precisam parar. Não lhes resta outra escolha.
TUTAMÉIA – O senhor mencionou as sanções. Qual o impacto econômico das sanções americanas contra o Irã?
PROFESSOR FOAD IZADI – Sabe, é difícil dizer. Bem, as sanções prejudicam as camadas mais pobres da sociedade. Para os ricos da sociedade, as sanções não são um problema. Eles podem arcar com elas. Mas as camadas mais baixas da sociedade são afetadas negativamente.
A ideia por trás das sanções é pressionar as pessoas. Assim, elas se cansam, vão às ruas, fazem protestos e mudam o governo. É mais fácil fazer isso do que enviar caças F-35 e bombardear lugares.
Se você conseguir fazer com que os iranianos promovam uma mudança de regime, é mais fácil do que tentar fazê-lo por via aérea, enviando bombas. Portanto, as sanções estão prejudicando, inclusive no setor farmacêutico. Os medicamentos não são afetados pelas sanções.
Mas, devido às sanções bancárias, as empresas iranianas não conseguem pagar por eles. Elas têm o dinheiro para comprar os medicamentos, mas não conseguem. Os iranianos estão sofrendo muitos efeitos colaterais das sanções.
E, no geral, acredito que essa cultura de resistência ajudará o Irã a sobreviver às sanções. E, gradualmente, os EUA perderão seu poder de impor sanções severas. Porque, para que as sanções funcionem, é necessária a cooperação de outros países.
Se a Rússia, a China e o Brasil não cooperarem, se não derem ouvidos aos políticos americanos, as sanções não terão muito efeito. E acho que estamos caminhando nessa direção.
TUTAMÉIA – Então, qual é a situação das relações entre o Irã, a Rússia e a China? Como o senhor descreveria isso? Porque, no passado, muitas vezes não houve uma situação muito boa.
PROFESSOR FOAD IZADI – Sabe, as relações estão melhorando. Isso porque os chineses perceberam que, se os Estados Unidos forçarem a queda do governo iraniano, dominarem o Irã e o desintegrarem, eles dominarão todo o Oriente Médio. Atualmente, a China obtém cerca de 50% de seus combustíveis fósseis do Golfo Pérsico.
Então, a China é muito dependente de combustíveis fósseis daqui. E a Arábia Saudita vende petróleo, os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait, o Iraque, todos esses países vendem.
E os EUA não se incomodam com isso. Por quê? Porque se eles quiserem limitar a venda de petróleo para a China, o valor do petróleo iraniano aumentará. Já que eles não podem dominar o Irã.
Como não querem que o valor do petróleo iraniano suba, os EUA permitirão que esses países clientes vendam petróleo. Mas se conseguirem dominar o Irã, se o governo atual cair, poderão forçar todos os países a não vender petróleo, pressionando a China. E os chineses entendem isso.
É por isso que eles compram petróleo do Irã, é por isso que ajudam o Irã. Portanto, as relações Irã-China são relativamente boas. As relações Irã-Rússia também são boas por causa da Ucrânia.
Os Estados Unidos criaram a Ucrânia para pressionar a Rússia. A Ucrânia está causando dificuldades para a Rússia em suas fronteiras ocidentais. Se o Irã cair, o Irã estará na fronteira sul da Rússia.
Portanto, a única maneira de os russos terem acesso ao Oceano Índico e ao Golfo Pérsico é através do Irã. A outra rota é o Afeganistão e o Paquistão. E não há muita infraestrutura no Afeganistão.
Existem muitos problemas de segurança complexos no Afeganistão. Portanto, os russos percebem que, se o Irã cair, o país se tornará uma nova Ucrânia para a Rússia. Isso causará dificuldades.
Os governos ocidentais criarão dificuldades para a Rússia. Portanto, as relações entre Rússia e Irã são boas porque é do interesse da Rússia manter boas relações com o Irã. Assim, no geral, as relações são boas.
O Irã esperava mais, talvez. O presidente iraniano disse há dois dias que esperava mais ajuda da Rússia e da China. Às vezes, essa ajuda é militar, econômica, entre outras coisas.
Mas, no geral, eles estão bem.
TUTAMÉIA – Se falarmos da região, a região do Oriente Médio, na semana passada, um príncipe saudita foi à Casa Branca. Ele foi recebido em um grande jantar. E depois houve alguns negócios relacionados ao F-35 e ao envolvimento na OTAN. Como você vê essa iniciativa de Trump de tentar atrair a Arábia Saudita? Esse é um país fundamental nessa região. Será que Trump vai conseguir atrair a Arábia Saudita ou não?
PROFESSOR FOAD IZADI – Sabe, os sauditas têm pedido quatro coisas aos Estados Unidos. Primeiro, este Sr. Bin Salman, que é o príncipe herdeiro, não era príncipe herdeiro até alguns anos atrás. Mohammad bin Khalid, seu primo, era primeiro-ministro.
Ele era o príncipe herdeiro. E foi uma operação conjunta do líder dos Emirados Árabes Unidos e dos Estados Unidos para trocar o príncipe herdeiro na Arábia Saudita. Para trazer Mohammad bin Salman, porque eles achavam que ele era uma pessoa mais jovem, inexperiente e também muito violenta.
Ele é uma pessoa muito violenta. Você se lembra do que ele fez com o jornalista Khashoggi? Foi algo muito mais complexo. Ele esquartejou o corpo com uma motosserra.
Muito, muito feio. Por isso, eles não sabem como matar pessoas. Acham que precisam esquartejar o corpo para matar.
Então, o Sr. bin Salman está preocupado porque muitas pessoas no Congresso dos EUA não gostam dele. Porque acham que ele não é mentalmente estável. A Arábia Saudita é importante para os EUA. Eles querem um rei estável lá.
Eles não querem um criminoso insano governando o país. Então, a primeira coisa que Mohammad bin Salman quis de Trump foi que o deixasse ser rei, porque seu pai está muito doente.
Seu pai pode morrer a qualquer momento, qualquer dia. Por isso, ele queria ter certeza de que os americanos não se oporiam à ascensão do seu rei ao trono, já que os americanos têm muita influência na Arábia Saudita.
Esse foi o primeiro pedido. O segundo pedido foi para que eles conseguissem um importante aliado fora da OTAN. A Arábia Saudita não pode ser membro da OTAN, mas queria ser um aliado que os EUA ajudariam em caso de guerra.
A terceira coisa que eles queriam eram esses F-35, aeronaves mais sofisticadas. A quarta coisa era o enriquecimento de urânio dentro do país. Eles queriam instalações nucleares e enriquecimento de urânio dentro do país.
Essas são as quatro coisas que ele queria. Mas o governo Trump disse a ele que, se ele quisesse essas quatro coisas, precisaria reconhecer Israel, normalizar as relações com Israel e aderir aos Acordos de Abraão.
Foi isso que o governo Trump disse. O que eles estão fazendo é dizer que vão dar a Israel o F-35, mas existe uma lei nos Estados Unidos que exige que Israel tenha um caça de alta qualidade. Portanto, se Israel tiver o F-35, a Arábia Saudita não poderá tê-lo.
Então seria uma versão reduzida. E talvez nem lhes forneçam o código. Assim, se os sauditas quiserem bombardear o Iémen, eles lhes darão o código.
Se eles quiserem bombardear algum lugar que os EUA não gostem, é inútil. É como o Catar. O Catar comprou US$ 19 bilhões em mísseis antiaéreos, e não adiantou nada.
Quando Israel atacou, todos se calaram porque Israel não queria que o Catar pudesse se defender. Quanto ao enriquecimento de urânio dentro do país, isso não vai acontecer. Não vai acontecer.
Com relação aos principais aliados não pertencentes à OTAN, eles assinaram um acordo. Mas o quanto os EUA ajudarão os sauditas se houver dificuldades, isso é duvidoso. E quanto ao quarto ponto, acho que os Estados Unidos vão decidir se querem que ele tenha sucesso ou outra pessoa.
Portanto, a viagem não foi tão bem-sucedida. Porque em todas as quatro áreas há ambiguidade. Ambiguidade em relação ao que vai acontecer. Será que os americanos vão mesmo cumprir o que prometeram em relação ao governo saudita?
TUTAMÉIA – Antes, o senhor nos falou sobre as agressões midiáticas perpetradas pelos Estados Unidos, utilizando veículos de comunicação governamentais como a Voz da América, entre outros, mas o que dizer da chamada mídia tradicional? Qual a sua opinião sobre o que aconteceu, por exemplo, com o New York Times, o Washington Post e a mídia americana em geral?
PROFESSOR FOAD IZADI – Nos Estados Unidos, existe a grande mídia. E essa grande mídia pertence às grandes corporações americanas.
Eles os chamam de mídia corporativa porque fazem parte de um grupo de mídia maior. E essas empresas, esses veículos de comunicação, esses grandes veículos de comunicação, não gostam do Irã. Há muita influência sionista nessas empresas.
Eles geralmente seguem as ordens dos EUA em matéria de política externa. Portanto, a cobertura desses veículos de comunicação não é muito boa quando se trata do Irã. Depois, temos a mídia alternativa nos Estados Unidos.
E a mídia alternativa, em geral, está em melhor situação. Ela não tem muita informação, mas a informação que possui, tenta apresentar de forma mais equilibrada. E essa mídia alternativa está fazendo um bom trabalho no que diz respeito à Palestina.
Veja bem, se as pessoas em Nova York tivessem como principal fonte de informação a grande mídia, elas não seriam pró-Palestina, mas sim pró-Israel. Isso demonstra que elas têm outras fontes de informação, mídias alternativas. Portanto, o trabalho que você realiza é muito importante.
Por quê? Porque agora percebemos que a mídia alternativa pode ter um impacto importante em seu público quando ele busca informações não distorcidas.
TUTAMÉIA – Nas últimas décadas, os planos nucleares do Irã têm sido usados para todo tipo de especulação e ataques. O que o senhor pode nos dizer sobre o status dos planos nucleares do Irã? E os EUA tiveram sucesso no ataque? Ou o Irã, ontem, dois ou três dias atrás, declarou que não permitirá mais visitas porque é inútil? O que o senhor pode nos dizer sobre essa parte, a questão nuclear?
PROFESSOR FOAD IZADI – Como você sabe, instalações nucleares iranianas foram atingidas pelos Estados Unidos e por Israel. Então, o que sabemos é que elas foram danificadas. A extensão dos danos, porém, não sabemos.
E os líderes iranianos não querem fornecer essas informações porque, se os EUA ou Israel não souberem onde atacar, precisarão obter essas informações antes do próximo ataque. Mas se tiverem todas as informações, atacarão mais cedo. Por quê? Porque sabem os locais que precisam atingir.
Estive neste canal árabe, Al Mayadeen, há duas noites. E eles tinham outro convidado. Na verdade, tinham dois outros convidados, um do Reino Unido e outro do Egito.
O convidado do Egito foi inspetor da Agência Internacional de Energia Atômica por 25 anos. Eu tenho o vídeo, se quiser, posso mostrar. E depois foi diretor de inspeções por cinco anos.
Então, ele trabalhou para a AIEA por cerca de 30 anos. E ele dizia, dizia na televisão, que 90% dos consultores da AIEA pertencem a serviços de inteligência ocidentais. 90%.
Se quiser, posso lhe enviar o vídeo. 90% dos consultores trabalham para a inteligência ocidental. Portanto, fornecer informações à AIEA é fornecer informações à CIA.
Eles estão fornecendo informações para o Mossad. Não, eles não guardam segredos. Estão lá para fornecer e repassar essas informações.
E é compreensível que os líderes iranianos façam perguntas à AIEA. Se lhes fornecermos essas informações, vocês as manterão em segredo ou as repassarão? Porque a experiência passada deles mostra que costumavam compartilhá-las com outros países, inclusive países hostis ao Irã. Então, vamos esperar para ver.
TUTAMÉIA – Durante a reunião desta manhã, o senhor foi questionado sobre as conquistas da revolução iraniana. E o que foi alcançado até agora? Já se passaram 46 anos…
PROFESSOR FOAD IZADI – Nossa primeira conquista foi expulsar os americanos. Porque se você tem americanos dentro, seus recursos são saqueados.
Então, conquistamos a independência, essa é a primeira conquista. Como sabemos que expulsamos os americanos? Nós nos encontramos com vocês na antiga embaixada americana. Eles não estão mais lá.
Eles foram expulsos. Então, essa é a primeira conquista. Uma vez que o país se torne independente, os recursos desse país poderão ser usados em benefício do povo.
Foi isso que eu disse esta manhã. Antes da revolução, a idade média no Irã era de 53 anos. Agora é de 79 anos.
Então, temos esse enorme aumento na média de idade. Isso mostra que há melhor alimentação, melhores medicamentos, maior disponibilidade de médicos, um ambiente mais limpo e melhor educação. Mencionei o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que é um dado da ONU.
Então, se você observar o crescimento, alguns países europeus estão à nossa frente. Mas em termos de crescimento, onde o Irã estava e onde está agora, o Irã é o número um do mundo em termos de crescimento.
Em segundo lugar está a Coreia do Sul. O Irã ocupa o primeiro lugar porque a situação do país era muito ruim. E nas últimas décadas, desde a revolução, muitos cidadãos comuns têm se beneficiado da riqueza do país.
Então, apesar de todas as sanções, todas as dificuldades, todas as guerras, as pessoas ainda estão muito melhor do que na época em que não havia sanções e o Irã era um fantoche dos Estados Unidos. E esse é o fruto da independência. Ser independente é difícil, mas não ser independente é ainda mais difícil.
É por isso que muitas pessoas não são afetadas por essa propaganda, porque sabem como era o Irã antes. E as pessoas que fizeram a revolução eram cidadãos comuns de cidades menores. Então, quando chegaram ao poder, começaram a ajudar seu próprio povo.
O povo deles era composto por cidadãos comuns de cidades menores. E foi assim que isso aconteceu. Portanto, temos uma conquista em termos políticos.
O Irã é independente. Isso representa uma conquista em termos econômicos para os cidadãos comuns. Eles estão se beneficiando mais agora do que antes.
E temos essa conquista cultural. As pessoas conseguem resistir à pressão externa. E temos essa conquista social.
Existe essa unidade, especialmente depois da guerra, que pode ajudar o país a resistir ao imperialismo americano.
TUTAMÉIA – E quanto ao fato de ser uma república islâmica? Religião e política.
PROFESSOR FOAD IZADI – Sabe, no Brasil, a maioria das pessoas é católica, certo? Então, no catolicismo, existe essa teologia da libertação.
Você conhece a teologia da libertação? São aqueles padres que se preocupavam com os pobres. No Irã, a maioria é muçulmana. E no Islã, temos essa libertação, a teologia da libertação muçulmana.
Então, esses clérigos que se preocupavam com os cidadãos pobres e comuns, lideraram a revolução. Eles resistiram ao Xá.
Porque durante o reinado do Xá, toda a oposição era reprimida. Mas era difícil reprimir a oposição religiosa por causa das mesquitas. Porque havia uma mesquita em cada esquina.
E escolas. A mesquita não é bem uma escola. E é difícil administrar todas as mesquitas.
Assim, a oposição religiosa conseguiu sobreviver. Mesmo durante o reinado do Xá, eles mantinham uma rede de mesquitas.
TUTAMÉIA – Vocês ouviam as palavras dele.
PROFESSOR FOAD IZADI – Sim, em fitas. Ele estava no Iraque, exilado no Iraque, então ele fazia um discurso, gravava em fitas e as pessoas ouviam.
E foi assim que aconteceu. Ao contrário do cristianismo, que durante o colonialismo foi usado pelas potências coloniais, muitos indígenas foram forçados a se converter ao cristianismo no Brasil.
Não é bom. Deus não permite que você oprima outras pessoas ou exerça muita pressão sobre elas sem motivo. Portanto, essa não é uma boa religião.
Essa é a religião usada para promover algum objetivo colonialista. Mas no Islã, geralmente não tínhamos isso porque não vivenciamos a era do colonialismo. Foi uma experiência europeia.
Não tivemos um colonialismo islâmico nesse sentido. E o resultado foi que os clérigos do Islã conseguiram se tornar, de certa forma, mais independentes do Estado. Basicamente, conseguiram se proteger da corrupção estatal.
E por essa razão, as pessoas os respeitavam mais. Assim, existia essa relação entre os cidadãos comuns e os clérigos. Os clérigos gostavam do povo, e o povo gostava dos clérigos.
Assim, no Irã, a religião na verdade ajudou esse movimento anti-imperialista. Ao contrário da experiência do cristianismo, em que a religião foi usada para oprimir os povos indígenas, no Irã ela foi usada para fazer com que as massas se submetessem aos desejos do Estado. Na experiência islâmica, os clérigos eram fontes de refúgio para as pessoas.
Então, quando os governantes praticavam a opressão, as pessoas recorriam à religião e aos clérigos para se protegerem até certo ponto. É por isso que, quando os clérigos se insurgiram contra o governo, houve muito apoio da população em geral. E é por isso que houve a revolução.
TUTAMÉIA – Mas a revolução também foi produto de movimentos de massa nas fábricas, nas refinarias. Havia um movimento sindical na época, em 1979. E li que o Partido Comunista também foi uma força muito importante naquele período. O que o senhor pode nos dizer sobre esse movimento que, além da religião, ocorreu no Irã naquela época? E qual é a posição deles hoje em dia? Os comunistas e as outras forças, as forças de esquerda, estão no Irã. E como eles conseguiram lidar com o governo?
PROFESSOR FOAD IZADI – Sabe, a experiência do comunismo no Irã foi um tanto diferente da de países como a América Latina. Na América Latina, após a Doutrina Monroe, os Estados Unidos queriam dominar a região.
E a ideologia comunista, a ideologia socialista, foi usada para lutar contra o imperialismo americano. Então, o comunismo, o socialismo, assim como a teologia da libertação, foram forças positivas dentro da sociedade para resistir. No Irã, por estarmos próximos da União Soviética, antes da revolução de 1979, a União Soviética ainda existia.
O país caiu no início da década de 1990. Portanto, o Irã fazia fronteira com a União Soviética. A República do Azerbaijão e a Armênia faziam parte da União Soviética.
O Turcomenistão fazia parte da União Soviética. Portanto, o Irã fazia fronteira com a União Soviética. E a União Soviética era um país comunista e queria influenciar o Irã como país vizinho.
Então tínhamos o Partido Tudeh, que era o partido comunista. Tínhamos o Partido Tudeh. E o Partido Tudeh se aproximou demais dos soviéticos.
Às vezes, os interesses do seu país e os do país vizinho não coincidem. Principalmente quando o país vizinho deseja dominar o seu. Portanto, a experiência do comunismo no Irã não foi muito bem-sucedida.
Porque eram vistos como muito próximos de outra superpotência que não se comportava adequadamente. Sabe, eles invadiram o Afeganistão. Tinham planos para o Irã.
É verdade que, antes da revolução, os sindicatos eram ativos. Os trabalhadores eram ativos. Os agricultores eram ativos.
Mas essas pessoas pertencem às camadas mais baixas da sociedade iraniana. E as camadas mais baixas da sociedade iraniana são ainda mais religiosas do que as camadas mais ricas. Portanto, elas não precisavam do comunismo.
Porque o comunismo pregava o afastamento da religião. Por exemplo, na Venezuela, Hugo Chávez era socialista. Talvez fosse comunista.
Não sabemos. Mas ele também era religioso. Ele tinha esses sentimentos religiosos.
TUTAMÉIA – Assim como Maduro.
PROFESSOR FOAD IZADI – Assim como Maduro. Certo? Então eles conseguiram ser religiosos e socialistas ao mesmo tempo.
No Irã, o partido comunista, o Partido Tudeh, dizia às pessoas: não leiam por religião. Vocês só precisam ser comunistas. Se quiserem ser comunistas, deixem a religião de lado.
E se as pessoas tivessem que escolher entre o comunismo e a religião, a maioria ficaria com a religião. Porque o comunismo era uma ideia estrangeira. Vinha da Europa.
Veio da União Soviética. Não era autóctone. E para resistir, eles recorreram à religião.
Clérigos e religião. Então, inicialmente, após a revolução, a cooperação foi boa. A cooperação foi boa.
Mas, depois de alguns meses, alguns partidos comunistas, não todos, alguns partidos comunistas disseram que, bem, por causa da doutrina comunista, a revolução deveria vir do campo. E dos trabalhadores. Não das cidades.
No Irã, aconteceu o contrário. Foi nas cidades que a revolução começou. Principalmente nas cidades religiosas.
Assim como Qom. Nós vamos para Qom. Então os comunistas perceberam que a popularidade dessas organizações religiosas era maior.
Então, houve uma certa competição política pelo poder. E aí, infelizmente, alguns deles pegaram em armas. Então, a competição se acirrou.
Houve algumas dificuldades com os partidos comunistas. Mas isso foi há 46, 45 anos. Hoje em dia, a esquerda no Irã geralmente apoia o governo porque percebe que o Irã está resistindo ao imperialismo.
Então, essas são as pessoas mais jovens. As pessoas que não viram. A esquerda no Irã é semelhante à esquerda na América Latina em seu apoio ao próprio governo.
Principalmente depois da guerra, depois dessas regulamentações, depois das sanções. Então, temos entre nossos estudantes universitários alguns estudantes que são de esquerda. Estudantes de esquerda.
Mas eles gostam mais de mim do que de outras pessoas porque compartilhamos essa ideologia anti-imperialista. Uma ideologia semelhante em termos de anti-imperialismo. E o Irã está trabalhando muito bem com países socialistas como Cuba e Venezuela.
Já estive na Venezuela cinco vezes. E numa dessas ocasiões, o governo venezuelano enviou um avião para o Irã para ser consertado, porque eles têm aviões da Boeing e os EUA não lhes fornecem manutenção devido às sanções americanas. Então, quando os aviões quebram ou precisam de manutenção, os iranianos podem consertá-los.
Como os iranianos tinham Boeings e nós não tínhamos assistência técnica para eles durante 45 anos, temos mais experiência em consertar Boeings. Por isso, quando a Venezuela precisa consertar um avião, eles o enviam para o Irã.
Para o Irã atualizar e corrigir. Então, certa vez, fui convidado e decidimos que aquele era um avião voltando para a Venezuela. Então, embarcamos naquele avião.
Era um avião vazio. Portanto, não era um avião comercial. Então, éramos eu, o piloto, o copiloto e um funcionário de apoio.
TUTAMÉIA – Um salão de baile…
PROFESSOR FOAD IZADI – Sim, o avião inteiro. O avião inteiro. Avião vazio.
Então, o Irã está fornecendo esse tipo de serviço a países como a Venezuela. E você sabe, quando eles tinham apagões, os engenheiros iranianos iam até lá e tentavam consertar. Consertar a indústria petrolífera porque temos muita experiência com veios de petróleo.
Então, há muita cooperação entre o Irã e esses governos de esquerda. No Equador, quando o Equador tinha um governo de esquerda, eu fui ao Equador uma vez naquela época. Sim.
E a Nicarágua, países assim. A Bolívia, durante o governo anterior. A Colômbia agora.
Portanto, o Irã mantém boas relações com países que estão sob pressão dos EUA. O Irã tem boas relações. Logo, não há problema com a ideologia comunista ou socialista.
Trabalhamos com eles com muito mais facilidade. Por exemplo, na Turquia, trabalhamos com os partidos comunistas com muito mais facilidade do que com o governo. O governo é membro da OTAN.
Os partidos comunistas na Turquia são muito próximos de nós. Vou participar de uma conferência no dia 12 de dezembro, se não me engano. O evento será organizado por um partido de esquerda na Turquia.
Então, as coisas estão assim agora, as relações são boas. No passado, houve algumas dificuldades.
TUTAMÉIA – E quanto às mulheres jovens? Quero dizer, uma das coisas que se diz no Ocidente sobre o Irã é que é um país que oprime as mulheres.
PROFESSOR FOAD IZADI – Sabe, as mulheres são oprimidas no mundo todo. Infelizmente, é um problema, um problema internacional. Mas no Irã, a propaganda é geralmente falsa.
Geralmente falso. Mencionei isso para você hoje de manhã: na Universidade de Teerã, 60% dos alunos são mulheres. Na nossa faculdade, no primeiro ano, tínhamos cinco vagas de doutorado, todas ocupadas por cinco alunas.
Porque elas, sabe, as mulheres estudam mais, são mais inteligentes, então conseguem todas essas vagas acadêmicas. E, na verdade, a Revolução Islâmica ajudou as mulheres iranianas porque, antes, as famílias religiosas não mandavam suas filhas para a universidade porque o ambiente não era religioso, era de certa forma corrupto, elas achavam que era corrupto. Mas depois da revolução, nenhum problema.
As meninas vão para as universidades. Então, na verdade, isso ajudou na participação feminina. E eles, você sabe, querem usar esses pontos de propaganda para criar uma imagem negativa do Irã no exterior.
Por quê? Porque, da próxima vez que quiserem atacar o Irã, as pessoas no mundo dirão: “Ok, o governo não era bom, oprimia as mulheres, então não tem problema, os EUA podem atacar”. Então, eles estão manipulando a opinião pública internacional para transformar o Irã em um monstro, para que possam atacá-lo e sancioná-lo com mais facilidade. Você pode ver isso em Teerã, pode ir lá e constatar.
Você não vê nenhum problema, é difícil ver algum policial. O Irã é um país muito normal, apesar de todas as sanções. Sabe, você vai às lojas, vai aos mercados, e tudo está normal.
É como Brasília, é como qualquer outro lugar. Você não sente toda a pressão quando está no Irã.
TUTAMÉIA – Fomos ao metrô hoje e havia alguns vagões somente para mulheres dentro.
PROFESSOR FOAD IZADI – Sim, há vagões para mulheres na parte de trás e na parte da frente da composição, e vagões para homens e mulheres. Então, se for mulher, ela pode ir para a seção feminina ou para a seção mista. Às vezes, famílias vão juntas para a seção mista.
Às vezes, sabe, quando está lotado, fica muito cheio. As mulheres querem ficar sozinhas, então elas vão todas juntas. Então, essa é uma forma de deixá-las mais seguras, de fazê-las se sentirem mais à vontade, em vez de ficarem misturadas, já que neste horário é hora do rush e o metrô fica muito lotado.
TUTAMÉIA – Temos isso no Rio de Janeiro, esse tipo de separação. Pensando no futuro, o senhor nos disse que está otimista. Pensando no Irã, quais são três ou quatro desafios que o Irã precisa superar para melhorar? Quais são os problemas mais importantes que o Irã precisa superar?
PROFESSOR FOAD IZADI – Sabe, o primeiro desafio, o básico, é o das sanções, porque elas exercem muita pressão sobre os cidadãos comuns.
Então, e o BRICS pode ser vantajoso para o Irã, se o Irã conseguir trabalhar mais com os países do BRICS. Esses são países importantes: China, Brasil, Rússia, grandes economias. Portanto, o principal objetivo é encontrar maneiras de contornar as sanções, porque as sanções sempre existirão, independentemente de haver ou não sanções decorrentes de um acordo nuclear.
Conversar com o outro lado, bombardear, então há muitas dificuldades. Portanto, a primeira questão são as sanções. A segunda questão é a seca causada pelo aquecimento global.
TUTAMÉIA – Aqui no Irã?
PROFESSOR FOAD IZADI – Em Teerã, em todo o Oriente Médio, não apenas no Irã, mas em toda esta região, esta região está sofrendo com a seca devido ao aquecimento global. Então, precisamos encontrar uma solução para isso, porque, sabe, se você não tem água, o Brasil é uma boa opção, fica na Amazônia, tem muita chuva, então você não tem tantos problemas. Mas no Irã, existe esse problema de seca.
A terceira questão é essa propaganda cultural que, como eu disse, está bombardeando as mentes iranianas. Temos mais de 300 canais em farsi vindos do exterior, 300. Trezentas emissoras de televisão estrangeiras bombardeando, bombardeando todos os dias.
Isso causa dificuldades em termos de coerção social. Afeta negativamente esse aspecto. Portanto, deve haver alguma solução para isso.
Essa questão do neoliberalismo é complexa. Temos alguns indivíduos no Irã, alguns políticos, que acreditam no neoliberalismo, o que é contrário à ideia da Revolução Islâmica. A Revolução Islâmica rejeitou o neoliberalismo.
Mas, devido às sanções, algumas pessoas dizem que a maneira de fortalecer o país é aceitar essas políticas neoliberais. Esse é o quarto desafio. O quinto desafio é garantir que a imagem do Irã internacionalmente não seja tão negativa.
Porque se não fosse pelo Irã, não haveria a causa palestina, a razão, porque, você sabe, havia a OLP (Organização para a Libertação da Palestina) participando do Acordo de Oslo, passando por esse processo de paz que não resultou em nada. Então, o que o Irã fez foi apoiar a resistência na Palestina, e a resistência na Palestina manteve os palestinos vivos. Portanto, esta é a quinta questão: poder dar continuidade a essa política.
Então, os americanos têm dito ao Irã: se vocês diminuírem o apoio à Palestina, nós retiraremos todas as sanções. Alguns políticos iranianos dizem: vamos fazer isso, vamos fazer isso. Portanto, garantir que a política externa do Irã permaneça independente é outra questão importante.
TUTAMÉIA – E essa é uma decisão da ala religiosa do governo? Como é o equilíbrio entre os líderes religiosos e os líderes civis nessa questão?
PROFESSOR FOAD IZADI – Sabe, no Irã, há eleições. E se um político diz às pessoas: “Olha, se eu for eleito, negociarei com os Estados Unidos e conseguirei o fim das sanções”, às vezes ele consegue as duas coisas.
Foi assim que ele foi eleito. Ele disse às pessoas: “Não quero entrar em conflito com os EUA, quero normalizar as relações”. Então, quando você tem uma população sob pressão, se alguém chega e diz: “Vejam, eu vou acabar com toda essa pressão”, isso ajuda a diminuir o ritmo das coisas.
Às vezes há dificuldades, mas isso é o que acontece em uma democracia. Em uma democracia, às vezes você tem Bolsonaro, às vezes você tem (Lula) da Silva, então é uma alternância.
TUTAMÉIA – Nestes dias aqui em Teerã, temos lido e ouvido muito sobre revolução, revolução islâmica, revolução iraniana. O que é ser revolucionário hoje em dia?
PROFESSOR FOAD IZADI – Um dos critérios é opor-se ao imperialismo dos Estados Unidos, seja no Irã ou internacionalmente. Esse é o critério número um. Número dois: apoio à Palestina.
Apoio à Palestina. Se você não se importa com a Palestina, você não é revolucionário. Você está desqualificado.
Número três, apoio aos pobres. Se você não se importa com os pobres, você não é revolucionário. Número quatro, apoio à independência dos países.
Se os EUA dominam seu país, você não é revolucionário. Então, acho que se esses quatro critérios forem mantidos, você pode adicionar um quinto sobre espiritualidade. Porque se você quer resistir, não pode fazê-lo sem alguma paz interior.
E para ter paz interior, algumas pessoas precisam de uma espiritualidade forte. Caso contrário, ficariam sob pressão e acabariam desistindo. Portanto, acho que esses quatro ou cinco pontos são importantes.
TUTAMÉIA – O senhor acredita que os jovens, a juventude iraniana, ainda nutrem esse sentimento revolucionário? A geração que fez a revolução em 1979 já está idosa, está saindo de cena. O senhor acredita que essa geração jovem ainda tem esse tipo de sentimento revolucionário?
PROFESSOR FOAD IZADI – Alguns têm, outros não. Depende da família.
TUTAMÉIA – As famílias?
PROFESSOR FOAD IZADI – As famílias.
TUTAMÉIA – Mais do que as escolas?
PROFESSOR FOAD IZADI – Porque as crianças são influenciadas pela família mais do que pelas escolas, em geral. E você sabe, quando a revolução aconteceu, a forma de governo mudou.
Mas a influência ocidental no Irã foi extensa. Então, as famílias que foram ocidentalizadas ainda estão aqui. Seus filhos estão aqui.
Então essa mentalidade ocidental ainda existe. Alguns jovens têm esse espírito, outros não. A guerra contra o Irã ajudou a formar mais jovens revolucionários.
Então, Trump queria prejudicar o Irã, mas, na prática, ajudou os jovens iranianos a perceberem o que é o imperialismo americano. E esse foi um dos sucessos da revolução: eles conseguiram transmitir as ideias revolucionárias a uma parcela da população mais jovem.
Então, quando há dificuldades, há manifestações no Irã, muitos jovens participando das manifestações. Ou quando esta guerra começou, muitos jovens se voluntariaram. Muitos jovens se voluntariaram.
Então, existem alguns desafios nessa área, mas, de modo geral, estamos caminhando para uma posição positiva, cada vez mais positiva.
TUTAMÉIA – Gostaríamos de agradecer muito por esta entrevista, por todas essas informações sobre o Irã e a revolução. E antes de encerrarmos, gostaria que você enviasse sua mensagem ao povo brasileiro.
PROFESSOR FOAD IZADI – Então, peço desculpas por estar falando com você em inglês. Não sei português. Sei um pouco de espanhol, mas isso não ajuda.
Então, espero poder visitá-los no Irã, assim como fazemos com nossos amigos. Claro que a distância é grande, mas como a maioria de vocês não pode vir ao Irã, espero que consigam manter contato pela internet, por meio de programas como este. É importante que vocês aprendam sobre o Irã com os próprios iranianos.
Em vez de aprender sobre o Irã pelos Estados Unidos ou por algum veículo de mídia ocidental, você pode decidir se acredita nos iranianos ou na mídia ocidental. A decisão é sua.
Mas, embora o Irã e o Brasil estejam distantes geograficamente, os povos de ambos os países são calorosos. Há essa cordialidade que é muito evidente. E essa resistência ao imperialismo… na verdade, o Brasil tem mais história do que o Irã, porque o Brasil está mais próximo dos EUA. Então, começamos a ter problemas com os EUA na década de 1950.
Mas o Brasil já enfrentava problemas com a dominação dos EUA muito antes. Então, com a ajuda que podemos receber, acredito que podemos avançar. Os governos estão trabalhando sob a égide do BRICS e de outras formas, mas as pessoas precisam se conectar mais.
Então, os amigos que temos aqui têm meu número de telefone. Se em alguma universidade ou outro local precisarem de uma palestra, conexão ou sessão de perguntas e respostas pela internet, podem entrar em contato com os produtores deste programa e eu estarei à disposição. Portanto, mantenham a esperança viva, como costumamos dizer, e continuem resistindo.