“O modelo unipolar, surgido depois da desintegração da União Soviética, não pode mais gerenciar o mundo inteiro. É por isso que organizações como o Brics surgiram. Porque os países Brics querem ter sua própria responsabilidade nos processos que ocorrem no mundo, sendo uma espécie de plataforma para um novo ordenamento mundial potencial.”
Essa é a avaliação de Boris Alekseevich Litvinov, integrante do Comitê Central do Partido Comunista da Federação Russa e primeiro secretário da regional de Donetsk do PCFR.
Em entrevista exclusiva ao TUTAMÉIA, falando diretamente do escritório do partido em Donetsk, ele analisou a atual situação da região, ainda sob ataque dos EUA e da Otan por meio da Ucrânia –durante a conversa, ele recebeu a notícia de que dois mísseis de longo alcance disparados por Kiev contra a cidade tinham acabado de ser interceptados e destruídos.
A resolução do Partido Comunista de restabelecer a justiça histórica sobre Stálin também foi tema da conversa com esse economista, músico (toca contrabaixo) e especialista em relações internacionais.
“Apesar da propaganda anti-Stalinista, na consciência da população Stálin é a força, é a ordem, é a justiça social, é a vitória. Ele é um símbolo disso tudo, esses são os atributos ligados à imagem de Stálin que estão na consciência das pessoas”, disse Litvinov, que foi o autor do texto da declaração de Independência da República Popular de Donetsk.
Acompanhe a seguir a transcrição da entrevista, que foi realizada em 19 de julho de 2025.
TUTAMÉIA — Temos uma série de perguntas sobre as resoluções do Congresso do Partido Comunista da Federação Russa. Primeiro, gostaria que o sr. Boris nos contasse um pouco sobre onde ele está e qual é a situação nesse lugar. Você está seguro? Há combates perto de onde você está? Então, nos conte um pouco sobre as condições de vida onde você está.
BORIS LITVINOV — Estamos Donetsk, que é a capital da República dos Povos do Donetsk. E, como vocês sabem, agora a República dos Povos do Donetsk é parte oficial da Federação Russa. Apenas 11 anos atrás, as pessoas que moravam no nosso território se levantaram em uma revolta contra a junta de Kiev, contra a ilegalidade de Kiev. A população de Donbass começou a lutar contra o regime protofascista em Kiev. Muitas pessoas de esquerda, comunistas, socialistas e outros ativistas de esquerda de todo o mundo vieram nos ajudar, porque nós percebemos que não mais queríamos viver de acordo com as instruções de Kiev ou Washington. Esse foi o começo.
Então, após o uso de todas as forças que foram usadas pelo regime de Kiev, não havia jeito de resolver o problema de forma pacífica. Em 2022, Kiev decidiu unir uma força enorme com o objetivo de eliminar a república de Donetsk e Lugansk, com a ajuda de forças que foram trazidas para a Europa, e muitos outros recursos produzidos em muitos países europeus. Então, em 2022, o governo e o parlamento da república de Donetsk e Lugansk pediram ajuda ao presidente Putin, demandando que eles fossem incluídos na Federação Russa. Em muito pouco tempo, antes da globalização das forças ucranianas no nosso território, começou uma operação especial militar da Rússia.
Putin tomou essa decisão. Então, houve um referendum em todo o território que estava sob controle, aproximadamente 65% do território, com a mesma quantidade de população da nossa república. Nesse referendum, 98% da população disse que queriam ser parte da Federação Russa.
E, então, nós nos incluímos no grupo da Federação Russa. Durante todos esses anos, começando em 2014, Donetsk estava cercado pelas forças ucranianas. Mas a situação mudou quando a Federação Rússia entrou em operação especial militar. Agora, a linha de fronteira está a 40, 50 quilômetros de Donetsk, e, no momento, não há ameaça direta de Donetsk ser ocupado.
Essa distância de 40, 50 quilômetros significa que armas comuns não podem ser usadas contra o nosso território em termos de tanques, artilharia. Mas o problema é que, agora, os países da Otan e, na verdade, mais de 50 países participam nessa luta contra a Rússia. Eles usam novos tipos de armas, como os drones de diferentes tipos. E o que é mais terrível são os mísseis de longo alcance, produzidos na Inglaterra e em muitos outros países. Esses mísseis chegam ao território de Donetsk, nos atacam regularmente, causando grande dano. Nós ainda temos que liberar cerca de 30% do nosso território, no qual vivem cerca de um milhão de pessoas.
Apesar disso, a vida aqui acontece, as empresas começam a trabalhar. Apesar de muitas delas terem sido destruídas, há reparação. As escolas trabalham, os hospitais trabalham, as instituições de ensino trabalham. Nos últimos 3 anos a educação foi feita à distância. Mas desde primeiro de setembro de 2025, todos os alunos deverão ser colocados em salas de aula. Haverá novamente um processo de educação normal, com a presença dos alunos, como era antes.
O maior problema é a água, porque nós tínhamos um abastecimento de água de um canal que fica distante 150 quilômetros de Donetsk. Mas o território onde fica o canal ainda está sob ocupação ucraniana. Eles quebraram tudo, destruíram os tanques, destruíram o equipamento, explodiram tudo. Então, o maior problema é a água e a situação está ficando ainda pior. Sim, a Federação Russa fez muito para arrumar o abastecimento de água do rio Don. Mas, infelizmente, esse abastecimento de água consegue satisfazer apenas cerca de 30% das necessidades da população. Então, agora nós sabemos o verdadeiro valor da água. Para você entender a situação: apenas uma vez, a cada dois ou três dias, as pessoas recebem acesso à água. E por apenas três ou quatro horas. São por três ou quatro horas, uma vez, em dois ou três dias. E é água técnica, que não pode ser bebida. Ela pode ser usada para lavar algo, mas não sem chance de beber. Mas somos otimistas. Isso tudo apenas nos dá mais força para continuar liberando os territórios de onde receberemos abastecimento d’água para a população.
Temos também o problema da falta de especialistas, professores, médicos. Muitos homens estão na fronteira, eles têm que lutar. Há grandes migrações, as pessoas se mudam e esse é um grande problema que também afeta a qualidade da vida das pessoas. Não há um número suficiente de pessoas que possam trabalhar, principalmente mulheres, porque os homens estão na fronteira lutando.
No Parlamento, há uma bancada do Partido Comunista da Federação Russa. São seis pessoas. Nós trabalhamos com afinco, estudamos a legislação da Rússia e, paulatinamente, começamos a viver como o resto da Rússia. Isso nos dá força e confiança para superarmos as dificuldades. Então a vida continua, passo a passo. Esse é o jeito que eu vivo.
TUTAMÉIA — Qual é a sua avaliação do 19º Congresso do Partido Comunista da Federação Russa?
BORIS LITVINOV — Qualquer Congresso do Partido Comunista faz uma análise profunda da situação no mundo, do país e do Partido Comunista. Quinze dias antes do início do Congresso, o relatório político do Comitê Central do Partido Comunista foi publicado em meios de informação de massa. E todos, não só os comunistas, mas todos os cidadãos da República foram capazes de ler o relatório e de ver a análise do Partido Comunista sobre suas visões a cerca dos acontecimentos do mundo. Todos os comunistas já tinham tomado conhecimento do relatório. Discutimos, tomamos decisões e houve propostas de melhoramento da obra. Isso possibilitou a participação dos comunistas pelo país, incluindo os da República do Donetsk e da República do Lugansk, e de outros territórios. Assim, fomos preparados para o congresso, para discutir e fazer propostas. E também pra eleger os integrantes das principais instâncias do partido, incluindo o Comitê Central.
Cinco resoluções majoritárias foram tomadas. A mais importante é sobre a restauração da justiça histórica em relação a Stálin.
Após a conferência, todas as organizações estão agora discutindo nos níveis locais e regionais para implementar as decisões tomadas pelo congresso.
O partido tem 150 mil membros, 13 mil organizações de base, 2.450 comitês em vilas e cidades e cidades. Temos 89 organizações regionais. Somos uma organização jovem. Esperamos que, em breve, tenhamos posição mais importante no Partido Comunista da Federação Russa.
TUTAMÉIA — O sr. disse que uma das decisões mais importantes do congresso foi a restauração da justiça histórica para Stálin. Por que é importante reconstruir a justiça histórica para Stálin? E como o sr. acha que isso vai impactar o movimento comunista em todo o mundo?
BORIS LITVINOV — A restauração da justiça histórica para Stálin era uma coisa esperada há muito tempo no mundo, e ainda mais na Federação Russa. Os comunistas falam sobre isso desde o início de sua existência na Federação Russa. Apesar de várias ondas de propaganda anti-Stalinista, que existia no nosso Estado, a imagem de Stálin nunca saiu da consciência das pessoas. É muito comum ver os pôsteres de Stalin, suas fotografias em paredes, caminhões, oficinas. Miniaturas de bustos de Stalin, esculturas são vendidos, as pessoas os compram. Isso prova que, na mentalidade das pessoas sua imagem sempre está viva. Apesar da propaganda anti-Stalinista, na consciência da população Stálin é a força, é a ordem, é a justiça social, é a vitória. Ele é um símbolo disso tudo, esses são os atributos ligados à imagem de Stálin que estão na consciência das pessoas.
Nos últimos dez anos, no território da Federação Russa, foram instalados mais de 200 monumentos a Stálin. Em áreas públicas, privadas, de organizações. São monumentos de diferentes tamanhos, grandes, pequenos. Na mentalidade das pessoas, a imagem de Stálin é a imagem da concentração, dos esforços do Estado e das pessoas para alcançar a vitória, não só na guerra.
Sabemos, historicamente, que depois da Guerra Civil, Stálin recebeu um país que foi arrasado. Para nós, para a população, Stálin é uma concentração de esforços de toda a nação em alcançar seus objetivos. Éramos um país de agricultores que, graças aos esforços de toda a nação, se tornou um dos países mais avançados do mundo. Em 30 anos, Stálin modernizou colossalmente, modernizou o país, criou a potência industrial, a reforma agrícola. Graças aos esforços de toda a nação, tudo isso levou à grande vitória na Guerra Patriótica.
No fim, ele colocou as bases para conquistar o cosmos. Depois da guerra, durante a liderança de Stálin, o escudo nuclear foi criado. O escudo que ainda hoje protege o país. As bases para explorar o espaço também foram feitas, todos esses processos foram feitos por Stálin. Então, para nós, Stálin é um método de vida modernizada, de avanço, e, ainda hoje, o povo demanda como método de governança do país, o método de Stálin.
Mas os países desistiram do método de governança de Stálin e aceitaram o método capitalista de governança do país, esperando… é até difícil dizer o que esperavam. Recentemente, Putin disse que foi um erro. Desistiram do método de Stálin, e o povo, voluntariamente ou não, compara 30 anos de modernização de Stálin e 30 anos de movimento pelo caminho capitalista. O que eles alcançaram naquela época e o que eles alcançaram hoje? Essa é a comparação a favor do método de Stálin.
Em 1991, estávamos sob pressão. Havia outros fatores que influenciaram na decisão [de adotar o capitalismo]. De qualquer forma, agora, até Putin reconhece que foi um grande erro o fato de a liderança do país desistir do método de Stálin de governança da economia nacional. Em uma entrevista, Putin disse que ele, pessoalmente, e muitos outros com quem lidava erraram em acreditar no caminho capitalista.
Eles erraram adotando o caminho capitalista. Eles pensavam que os capitalistas lutavam contra a ideologia comunista, e que, quando nós movêssemos essa ideologia para trás da história, iríamos viver bem com os capitalistas. Os capitalistas iriam nos respeitar, nos apreciar, e, assim, nós entraríamos na família capitalista dos povos.
E, depois, ele disse que, apenas em 2005, em 2007, despertou para o fato de que a Federação Rússia não passou por aquele caminho.
Não é a ideologia a razão dos conflitos atuais no mundo, mas apresentar assim é o desejo eterno dos capitalistas. Então, não é apenas o Putin, mas também algumas outras lideranças que agora reconhecem que não foi a ideologia que causou problemas. Só agora eles começam a perceber que é um desejo eterno do capitalismo apagar alguém que é mais fraco. E, isso é um destino para a história.
Na Rússia, nós percebemos que o nosso país sempre foi um alvo preferido. Os capitalistas sempre sonharam em conquistar a Rússia por causa do território, dos recursos naturais. E, agora, nós vemos o que está acontecendo. Os americanos, os britânicos, os anglo-saxões e muitos outros estão tentando implementar essa ideia de lutar contra o capitalismo russo.
Hoje, entre os jovens que lutam no front, que trabalham nas empresas, cada vez mais, a imagem de Stálin é um exemplo de maneira de governar a nação. As gerações mais velhas saem de cena, mas a imagem de Stálin é mais e mais incorporada na consciência dos jovens. Essa imagem traz perspectivas para um futuro de desenvolvimento. Espero que o método de Stálin nos inspire no futuro, que um governo de toda a Rússia nos ofereça paz para toda a Terra.
Os americanos estão mais e mais interessados nos métodos de Stálin para gerenciar a economia nacional. É nossa convicção profunda que este método tem uma perspectiva e um dia virá a ser implementado. Os muitos desafios resolvidos nos tempos soviéticos, durante o tempo de Stálin, de novo servirão para resolver os problemas.
TUTAMÉIA — Por que Khrushchev recebeu tanto apoio na época, nos anos 1950, e conseguiu abalar a imagem de Stálin? Qual foi o papel dos EUA nesse processo? Por que a China conseguiu enfrentar os ataques a Mao Tse Tung de maneira diferente?
BORIS LITVINOV — Eu não vou falar muito sobre o papel dos Estados Unidos e seu papel em destruir a história do pós-guerra e os seus ataques à União Soviética. Nós todos nos lembramos que assim que a Segunda Guerra Mundial acabou, imediatamente, Churchill e muitos outros líderes mundiais discutiram isso. E Churchill fez sua palestra em Fulton [Missouri, EUA, onde ele usou a expressão ‘cortina de ferro’, declarando o início da guerra fria, em 1946]. Na verdade, essa Segunda Guerra Mundial nunca acabou desde então. Por um período de tempo, sim, nossos países estavam juntos. Mas, assim que a Guerra Mundial acabou, eles continuaram a tentar fazer o que sempre quiseram: destruir a União Soviética. Algo que Hitler não conseguiu fazer, mas os outros líderes decidiram continuar destruindo a União Soviética.
Então, enquanto estávamos falando, veio a notícia que dois mísseis de longa distância foram atirados em Donetsk, há segundos atrás.
Bem, o que eu estava dizendo é que Stálin era um personagem mundial. Um verdadeiro líder. Mas, se o compararmos com Khrushchev, é claro, não há comparação. Khrushchev não era nada. E se compararmos os dois, é claro, você verá o quão grande era a personalidade de Stalin e o quão minúsculo era Khrushchev. Khrushchev precisava mostrar sua personalidade. Khrushchev precisava esmagar o povo soviético com algumas novas ideias. Eu sei o que li. Que Khrushchev tinha suas próprias contendas com Stalin. Até questões pessoais. Então, se olharmos o eixo mais alto do poder e a situação que surgiu mais perto de março, em 1953, quando Stálin morreu, nós chegamos à conclusão de que não havia apenas uma ou duas razões. Havia várias razões juntas. Khrushchev queria introduzir novos jeitos, novos métodos. Ele queria que todos fossem surpreendidos pelas suas novas fórmulas.
Então, globalmente e pessoalmente, havia algumas dificuldades. Após a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Patriótica, na mente dos povos surgiam as imagens dos vencedores, dos militares, dos generais, que prevaleceram sobre as imagens de outros funcionários. Apenas os militares eram muito respeitados. Mas, provavelmente, isso não poderia continuar por sempre.
Um grupo de funcionários e administradores não podia realizar suas próprias ambições, suas próprias aspirações em direção ao poder no país. Eles queriam deixar os heróis um pouco de lado, porque eles também queriam o respeito, eles queriam a atenção de si mesmos. Esse, talvez, tenha sido um dos motivos que influenciaram a situação em geral.
Diferentes analistas, historiadores analisam esses períodos de maneira diferente. Sobre as razões pelas quais agiu Khrushchev, isso é uma conversa de muitas horas, com diferentes opiniões. Por que o Khrushchev? Assim se desenvolveu o processo histórico. É muito difícil dizer, ou colocar-se na mente do Khrushchev. Há diferentes opiniões e abordagens.
TUTAMÉIA — Qual é a visão do Partido sobre o que está acontecendo no mundo? O aumento dos gastos militares, especialmente entre os países da Otan, significa que já estamos na terceira guerra mundial?
BORIS LITVINOV — Eu entendo que hoje estamos no pico, ou estamos chegando ao pico, provavelmente, no pico da nova crise global do capitalismo. Vamos lá. No século 20, nós sabemos bem, conhecemos duas crises mundiais ou crises profundas do capitalismo. No início do século 20, a primeira guerra mundial foi criada pela crise, pela crise profunda do capitalismo. E a segunda guerra mundial, começando nos anos 30, começou a desenvolver-se novamente o novo ciclo da crise do capitalismo. A segunda guerra mundial foi uma consequência inevitável da crise e da alteração da ordem mundial.
O que aconteceu às vésperas da primeira guerra mundial e na segunda guerra mundial? A situação era muito similar. O capitalismo estava em crise em ambos os casos e, como resultado, essa crise resultou na primeira guerra mundial e na segunda guerra mundial. Para nós é evidente que essa foi uma tentativa de rearranjar o mundo, a relação entre os países e o mundo e o caminho fora da crise do capitalismo, da crise sistemática do capitalismo. Infelizmente, temos que destacar que a ordem mundial que havia sido estabelecida como resultado de três conferências, em Yalta e Potsdam, está chegando a um fim. Foram decisões muito importantes tomadas então, mas o tempo mudou e a era da situação mundial criada naqueles dias está chegando a um fim, infelizmente.
Isso é evidente, é claro. Partes desses eventos foram a desintegração da Iugoslávia e a desintegração da União Soviética. De acordo com esse processo destrutivo, surgiu um mundo unipolar, um sistema unipolar, um arranjo mundial.
Mas, no entanto, países como a China, a Índia, a Rússia, especialmente após a ascensão de Putin, seguem por caminhos próprios. Há um novo sistema, cuja base é o Brics. Essa união de países quer dividir sua responsabilidade no mundo e fazer com que o mundo não seja unipolar, anglo-saxão, mas que cada povo se desenvolva da forma possível. O Brics é a plataforma que dá a base para o futuro desenvolvimento.
Ao destruir as relações entre os países no mundo, esse modelo unipolar, que existe há muito tempo, não pode mais gerenciar o mundo inteiro. É por isso que organizações como o Brics surgiram. Porque os países Brics querem ter sua própria responsabilidade nos processos que ocorrem no mundo, sendo uma espécie de plataforma para um novo ordenamento mundial potencial. O antigo mundo unipolar entende que não pode mais resistir, não pode mais impor a sua própria vontade, porque, nós sabemos, os países do Brics já avançaram em relação ao PIB de países capitalistas.
Hoje o Brics reúne 11 países e outros 9 se uniram. Em alguns anos, esses países farão mais da metade do produto interno bruto mundial. E a população nesses países é mais de 40% da mundial. Por isso, o antigo mundo unipolar, os estadunidenses, os britânicos percebem que isso pode ser perigoso pra eles. Eles se apressam, usam qualquer oportunidade para preservar o seu domínio no mundo. E essas oportunidades se realizam através da guerra, através da militarização. E o Brics não quer impor a sua vontade sobre os povos do mundo.
Sobre a militarização, hoje nos EUA existem a contradição, a luta entre o capital financeiro e o capital industrial. Trump representa o capital industrial. E, através da ênfase no complexo militar-industrial, ele quer fortificar o grupo industrial que representa, da forma como ele o vê. Então, temos hoje todo o mundo apoiando a guerra entre a Ucrânia e a Rússia. Na verdade, é uma guerra para apoiar a produção de armamentos. Como um grande empresário, Trump encontra seu interesse nisso. Ele diz até que queria receber seus dividendos da Europa, distribuindo armas para a Ucrânia.
Todo o dinheiro vai para os EUA, para comprar armas de lá, para continuar a guerra, para produzir e entregar armamentos para os ucranianos. Trump apoia a si mesmo. Quando alguns dos países europeus queriam continuar distribuindo armamentos europeus, Trump disse que era para comprar armamentos dos EUA. E a Europa não pode fazer nada. Eles vão continuar assim, mas agora eles vão comprar as armas dos americanos.
E essa é outra evidência da participação pessoal de Trump nessa militarização. A chamada para a paz é a chamada certa hoje da Federação Russa e de outros países. Ou a América e a Europa concordam que o mundo não será mais unipolar, ou o mundo pode encarar uma guerra nuclear.
Mas o que Stalin fez no seu tempo nos salva. Ele criou o escudo nuclear. Aqui vemos a linha de Stalin.
Sim, estamos procurando a paz, com certeza. Nós queremos a paz. Mas há um desafio para a América e a Europa.
Ou eles terão que absorver essa situação, fazer algo com isso, e terão que parar com o seu esforço de desejar um mundo unipolar. Ou o mundo mudará para uma guerra nuclear. E agora há novamente esse caminho de Stalin até o presente dia.
Então a alternativa é que a América e a Europa devem admitir que o mundo está mudando, ou uma guerra nuclear.
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E, claro, a Rússia tem seus interesses. Os americanos querem, claro, fazer um clima entre a Rússia e a China. A Rússia procura amizade e apoio em grandes países, com grandes economias. Há contradições. Todos os países devem entender: devemos nos reunir em torno de um mundo multipolar, ou o mundo vai cair na guerra nuclear. Putin disse recentemente que, se não existisse a Rússia, o mundo também não poderia existir. Então, por um lado, temos a América e a Europa. A segunda parte é a China, e a terceira parte deste triângulo é a Rússia.
A China está avançando, passo a passo. A Rússia tem seus próprios interesses. Então, a tarefa para a América e a Europa, e alguns outros satélites, quando falamos na América e na Europa, estamos falando de outros satélites, é que eles querem nos fazer lutar um contra o outro, para destruir nossa relação.
A Rússia quer amizade e apoio entre os países que são mais fortes, para que possamos nos movermos juntos. Claro, baseado no nosso potencial nuclear também. Então, ou o mundo encontrará um compromisso, e a América e a Europa, e outros satélites, terão de concordar que, sim, de agora em diante, haverá um mundo multipolar, não unipolar, mas multipolar, senão haverá um incêndio nuclear, em que todos morrerão, serão queimados.
TUTAMÉIA — Então, há um caminho para a paz? O que o mundo tem de fazer para que os capitalistas, ou os EUA e a Otan compreendam que temos de ir para um mundo pacífico? Para escolher o caminho que o mundo precisa, para que haja paz?
BORIS LITVINOV — O Partido Comunista diz no relatório da Conferência que, para convencer o mundo e reviver sua força, é necessário ir pelo caminho socialista de desenvolvimento. O caminho socialista de desenvolvimento da Rússia fortalecerá nosso país, dará dinâmica para o nosso país. Temos de mostrar ao mundo que quem vai pelo caminho socialista tem um futuro.
BORIS LITVINOV — Não acho que existam meios de forçar, de fazer com que os EUA cheguem à paz ou a soluções pacíficas. Sem chance. Mas há uma alternativa, e isso foi mencionado no Congresso. Nós, como o Partido Comunista, propomos uma forma diferente. Isso é: persuadir o mundo que o modo socialista de desenvolvimento fará o nosso país mais forte. Então temos que demonstrar, mostrar o exemplo ao mundo inteiro, que o socialismo é melhor, e só o socialismo fará o nosso país mais forte.
Hoje, a China está continuamente construindo uma sociedade socialista. Ainda não é um país socialista, mas eles colocaram os objetivos e alcançaram 5%, 6%, 7% de crescimento.
O mesmo acontece no Vietnã socialista e em outros países socialistas. São exemplos para que outros países escolham o caminho socialista.
Mas nós falamos de um mundo multipolar. Essa é a nossa visão sobre o desenvolvimento da humanidade. Mas pode haver outras, vamos competir.
Deixe-nos competir. Então, as pessoas verão qual é o caminho melhor.
A ideia de competição entre o capitalismo e o socialismo não é nova. Essa ideia já tem mais de 50 anos. Lembre-se do que aconteceu no fim dos anos 1970. Ficou evidente que a sistema socialista, o socialismo, venceu. Ele derrotou o capitalismo.
E apenas a desintegração da União Soviética afundou esta forma de desenvolvimento, não só no nosso país, mas nos países do campo socialista. Infelizmente, isso deu a falsa ideia aos capitalistas de que eles eram os melhores, de que eles eram o número um e todos deveriam seguir a forma de desenvolvimento capitalista. Lembre-se de Fukuyama, que disse que o capitalismo venceu, que era o fim da história. Não, Fukuyama errou. Não houve uso de armas, mas de rádios e dólares.
Daí o desejo dos países do Brics de criar uma alternativa ao dólar. Já há tentativas próximas a isso. Sair do dólar, fugir deste dado de que o dólar governa o mundo. Isso irrita e preocupa os EUA e, em alguma forma, a Europa. Mas eles terão que perceber, terão que admitir essas mudanças que acontecem no mundo, senão… Bem, na verdade, eles não têm outra solução. Mas, quando acontecer, é difícil dizer. Mas nós tentaremos ir em nosso próprio caminho e deixá-los pensar o que terão de fazer. Mais tarde, se conseguirmos, mais tarde, eles terão que admitir que o mundo está mudando.
É, em torno disso, que acontecem todos os eventos, de caráter militar, político e ideológico. Nós vamos nos envolver no desenvolvimento dos nossos países.
Então, não são mísseis, não são canhões, não são tanques _é o dólar que é a base para o sistema que existe hoje em dia no mundo. É por isso que os países do Brics tentam encontrar uma alternativa ao dólar. Há algumas tentativas já feitas, e isso será um caminho para toda a humanidade.
TUTAMÉIA — E qual é o papel dos comunistas em um mundo tão complexo? E o que é ser comunista hoje?
BORIS LITVINOV — Os comunistas lutam por um mundo socialmente justo e um Estado socialmente justo. Nós devemos ter confiança de que estamos certos. Nós devemos basear nossa atividade no marxismo-leninismo, e isso é uma ciência. Então, é preciso ter uma abordagem científica para os processos que acontecem. E, como antes, no século 20, no século XXI, os comunistas devem continuar fazendo o mesmo, eles não devem se afastar da teoria marxista-leninista, da abordagem científica, eles devem continuar lutando pelo socialismo, por um mundo melhor, por justiça, como sempre. Na Rússia, nos últimos 30 anos, infelizmente, nem todos os comunistas resistiram ao exame do tempo. Muitas pessoas mudaram de mentalidade, de abordagem três, quatro, cinco vezes. Alguns políticos mudaram de partido, mudaram de atitude, muitas muitas vezes. E, para alguns, o principal critério era o interesse pessoal e o dinheiro. Então, quando eles viram ou sentiram dinheiro, imediatamente mudaram o jeito de pensar. Então, para nós, no momento, a China é um exemplo. A ideia ainda é a mesma, introduzir no real, o marxismo-leninismo, a teoria do marxismo-leninismo, introduzir na prática, no dia a dia.
Já se passaram mais de 30 anos do colapso da União Soviética. No mundo e no nosso país, muitos dizem que os últimos comunistas irão ir embora e a ideologia irá parar de existir. Eles têm esses desejos. Mas eu quero destacar que, sim, as gerações vão embora, mas os comunistas ficam. E hoje, vêm ao partido jovens novos, que nem nasceram na União Soviética, que nasceram nesse sistema capitalista. Eles não sabem como foi. Mas lá dentro, com consciência, coração e vida, eles dizem que o capitalismo é um caminho errado. Eles não sabem, talvez, os conceitos ideológicos do marxismo como nós sabemos. Mas eles dizem que devem ir para os comunistas, que devem fazer como Stálin e Lênin.
TUTAMÉIA — Qual sua visão sobre Lula e Putin?
BORIS LITVINOV — Dentro do Brics, existem diferentes opiniões sobre o desenvolvimento dessa estrutura. Não é uma união em que todo mundo tem a mesma opinião. Não é uma união em que todos são absolutamente semelhantes, ou absolutamente iguais, mas é uma plataforma para discutir coisas sem pressão. E quando há um diálogo, é possível encontrar o caminho de resolução da maioria dos problemas. Então, eu acho que o Brics é uma plataforma onde há diferentes aproximações, diferentes opiniões. Então, o diálogo e a discussão livre sem pressão são a base para o desenvolvimento. Há alguns meses atrás, o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance veio para a Europa e começou a falar sobre como viver, como comprar recursos energéticos, com quem negociar, com quem comprar armas. Ou seja, ele impõe a sua opinião. E muitos líderes europeus disseram sim. Claro, vamos fazer, porque a América é a maior coisa, é o primeiro, é o campeão do mundo.
Para eles, não há outro jeito. Isso não pode acontecer entre Lula e Putin, por exemplo. Porque é um diálogo sem esse tipo de pressão ou impondo a opinião de alguém contra alguém mais. Por isso, não há grandes problemas entre Lula e Putin dentro disso.
TUTAMÉIA — E qual é a sua visão sobre Putin? Ele está fazendo um bom trabalho?
BORIS LITVINOV — Putin faz o que pode. O que lhe permite as circunstâncias, tanto dentro da nossa cidade e país quanto na área mundial. Mas, definitivamente, Putin tenta prevenir a guerra mundial. Eu tenho certeza disso e o Partido Comunista tem certeza disso. Nós dizemos que vamos lutar por um mundo juntos. Então, ele faz o que ele pode. Mas o que nós concordamos com ele e nós lutamos pela paz. Putin está tentando prevenir uma nova guerra.
TUTAMÉIA — Qual a sua mensagem para os brasileiros?
BORIS LITVINOV — Eu, infelizmente, não estive no Brasil, mas sempre sonhei em ir até lá. É uma grande nação, com uma grande população. É um bom povo. Um povo de cultura. Um povo que respeita, em primeiro lugar, ele é múltiplo, pois muitas nações vivem no Brasil. É um povo pacífico. Um povo que lutou pela sua soberania, apesar da pressão que, em alguns momentos, esteve o Brasil. Eu desejo para o povo do Brasil paz, prosperidade e amizade entre os povos russos e os povos do Brasil. Porque nós também somos um país múltiplo. Não é por acaso que o destino nos une. O nosso destino nos unirá, apesar do oceano atlântico. E se a vontade dos nossos presidentes, a vontade dos nossos povos dominar em nossas sociedades, tudo vai ficar bem. Nós vamos viver sob o céu pacífico, desenvolveremos como desejam os povos dos nossos países.
Na escola, aos 14 anos, eu recebi uma tarefa de geografia. Eu tinha que imaginar viajar da foz do Amazonas até as suas cabeceiras e estudar tudo o que eu visse, as árvores, os pássaros, os peixes. E eu estudei, começando da ilha de Marajó. Desde então, amo muito o Brasil.