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“País vive tragédia grega do século 21”

O golpe iniciado em 2016 é “uma tsunami política que tem um objetivo muito claro: remover qualquer traço de potencial soberania do Brasil, eliminar o Brasil do cenário geopolítico mundial como uma voz dissidente nas Américas e sabotar os Brics”. A avaliação é do neurocientista Miguel Nicolelis em entrevista ao TUTAMÉIA.

Para ele, a situação atual é muito pior do que a vivida nos idos de 1964: agora o golpe “carrega dentro dele a semente da destruição, a obliteração total de qualquer vestígio de soberania brasileira”.

“É trágico. Se estivéssemos no século quinto Antes de Cristo aqui, um dos grandes poetas gregos ele iria escrever uma tragédia grega sobre a história brasileira. Nós somos a manifestação, no século 21, de uma tragédia grega do século quinto Antes de Cristo. Temos provavelmente um dos comportamentos mais peculiares do mundo, que é essa contínua tentativa de autossabotagem ao próprio país, essa autofagia brasileira, esse tiro no pé crônico é único”, afirma.

Nicolelis é um dos mais importantes cientistas do mundo. Membro das Academias de Ciência brasileira, francesa e do Vaticano, doutor em Medicina pela USP, ele recebeu mais de 30 prêmios internacionais. Desde 1994, é professor da Duke University, nos EUA. Ficou mais conhecido do grande público quando, na abertura da Copa de 2014, Juliano Pinto, paraplégico havia dez anos, deu o chute de abertura dos jogos. Três metros atrás de Juliano estava Nicolelis, idealizador (com John Chapin) do paradigma cérebro-máquina que proporcionou a realização do inédito e revolucionário movimento.

Entusiasta da ciência e do Brasil, Nicolelis idealizou o projeto do Instituto Internacional de Neurociências de Natal. Relatou a saga de criação do Campus do Cérebro no Rio Grande do Norte em “Made in Macaíba” (Planeta, 2016). Seu primeiro livro, “Muito Além do Nosso Eu” (2011, Companhia das Letras), foi traduzido em dez línguas.

INÍCIO DO FIM DO BRASIL

Com toda essa trajetória, Nicolelis fala de um turbilhão de temas nessa entrevista de duas horas ao TUTAMÉIA (vídeo acima). Trata de política, de ciência, do futuro do mundo e da humanidade, de redes sociais, fake news. Dá sua opinião sobre a série “Perdidos no Espaço” e conta sobre o livro de acabou de finalizar.

Dois anos depois do impeachment de Dilma, o neurocientista ainda lembra da dor aguda que sentiu enquanto acompanhava, desde o seu escritório nos EUA, a vergonhosa sessão da Câmara dos Deputados, em 17 de abril de 2016. Uma votação com aquela, diz, jamais aconteceria no congresso norte-americano ou em outro país.

“Nunca haveria de uma votação cujo motivo subliminar é a entrega do país. Não era o jogo de tirar a presidente, que era jogo de cartas marcadas. Em jogo ali era o primeiro capítulo dessa tragédia que um dia pode ser escrita com o seguinte título: ‘O Começo do Fim do Estado Brasileiro’. É isso que eu temo deixar para os meus netos”, declara. E emenda: “Pode parecer exagero, eu estou muito tranquilo nessa análise. Acho não demos a devida dimensão do que está havendo aqui”.

QUINTA COLUNA

“Tem interesses externos geopolíticos gigantescos, que não passam nem por governos, mas por interesses corporativos”, ressalta. Mas acrescenta: “O Brasil é muito proeminente na geração de uma quinta coluna tão efetiva. Não conheço nenhum outro país que seja tão fácil arregimentar pessoas nativas desse país para destruir a viabilidade do próprio país. Isso é muito proeminente nesse país. Tivemos a França de Vichy [governo francês fantoche dos nazistas, entre 1940-1944], mas aqui salta aos olhos. O Brasil é um país dividido profundamente hoje. Em outros tempos, teria muito receio em imaginar se esse país continuaria a ser um país só”.

Em 1964, observa, “a correlação de forças jogou o Brasil numa ditadura militar, mas onde os militares tinham um plano de Brasil. Não concordo [com o que o regime fez], mas não havia dentro do movimento militar o desejo de destruir a soberania brasileira, entregar a Amazônia, a nossa fronteira marítima –que era muito menor do que é hoje. Os militares foram atrás das 200 milhas, preservar a Amazônia, [criaram] a Embraer, o computador brasileiro, universidades federais. Não existia naquele golpe a estratégia de destruir o brasil como player mundial –e nesse existe. Desde a concepção, nesse golpe o mantra central é alijar o Brasil de ser um player mundial. Em todas as esferas”.

SABOTAGEM

E desenvolve o argumento: “Não é à toa que a ciência brasileira está sendo sucateada. As universidades federais estão sendo atacadas a ponto de se discutir a possibilidade de algumas delas desaparecerem. O orçamento científico foi cortado em mais de 60%. A Embraer está sendo dada. O programa espacial brasileiro eu visitei na Base de Alcântara….”

Nicolelis conta que essa visita foi um dos momentos mais emocionantes de sua carreira. “Chegar lá e ver a base de lançamento brasileira, que também foi sabotada. Ninguém esclareceu direito o que aconteceu naquele acidente, anos atrás, quando o Brasil estava no limiar para entrar no clube restrito de países que são capazes de colocar objetos em órbita”.

E afirma: “Eu vejo tudo isso encadeado: a entrega do pré-sal, os abusos que nós todos temos testemunhado. Eu sou filho de juiz do Tribunal de Justiça, conservador, que nunca deu uma entrevista na vida, um juiz garantista”. Hoje, na sua visão, “nossas garantias jurídicas estão evaporando. Tudo isso é parte de um enredo completo, facetado, multidirecional, que tem um objetivo central muito bem edificado muito bem construído –que é a evaporação da soberania do Brasil como país que importa. Alguns anos atrás estávamos a ponto de passar –por algumas centenas de milhões de dólares não passamos– a economia da França e da Inglaterra. De repente, parecia que o Brasil ia dar certo”.

PEDRA NO SAPATO

Nicolelis relata que encontrou todas as pistas para o roteiro do golpe no último livro de Moniz Bandeira [“A Desordem Mundial”, 2016, Civilização Brasileira]. Desde que os governos do PT chegaram ao governo, lembra o neurocientista, “o Brasil votou na ONU sistematicamente contra os interesses norte-americanos. Israel, Iraque, Líbia, todas as questões geopolíticas essenciais que foram colocadas diante da ONU o Brasil foi contra. O Brasil era uma pedra no sapato, não há a mínima dúvida”.

Ele enfatiza que o Brasil, naqueles anos, era “um pais emergente com uma ascensão dramática, que começa a desfiar economias poderosas, cria uma outra esfera econômica, política e cultural que são os Brics, passa a participar de um modelo alternativo de governança global, afirma uma posição e cria uma identidade –vamos combater a fome, a miséria, vamos criar uma sociedade mais justa”.

MENINOS DO ACRE

Nicolelis diz que, entre 2004 e 2010, “o Brasil era a esperança do mundo”, diferente da “mesmice da comunidade europeia, do liberalismo predominante norte-americano, nós vamos ter no Brasil uma sociedade utópica. Eu consegui recrutar cientistas do mundo para vir trabalhar aqui, porque os caras queriam estar aqui. Hoje, não”.

Ele cita um dado revelador. Durante os governos petistas, a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), agência de apoio e financiamento à ciência e tecnologia no país, chegou a ter um orçamento superior ao da Darpa (Defense Advanced Research Projects Agency), a agência norte-americana responsável por pesquisa na área militar e responsável, por exemplo, pelo embrião da internet.

“O Brasil é tão fenomenal do ponte de vista potencial que pequenos sopros de lucidez e de visão fazem o troço explodir. Os governos do PT fizeram uma pequena abertura do que é necessário fazer para evoluir. E veja o que aconteceu”.

Ele mesmo responde: “Foram 14 anos de prosperidade intelectual, humanística, cultural e científica. Teve erros? Um monte.  Mas foi um pequeno sopro e isso aqui decolou. Veja, por exemplo, o projeto Ciência Sem Fronteiras. Dei uma aula em Harvard que foi a coisa mais emocionante da minha carreira. Tinha 150 pessoas no auditório, e havia 30 brasileiros. Moleques do Acre fazendo astrofísica!”

Lembra que o programa envolveu mais de cem mil jovens, “foi o maior projeto do planeta”. Por isso mesmo fica indignado ao ver o que considera silencia da intelectualidade sobre o ataque a Lula e ao governo eleito.

“Cadê a reação da comunidade científica contra o golpe? As universidades estão sendo sucateadas. Cadê a inteligência brasileira para discutir isso?”, pergunta Nicolelis.

ELEFANTE NA SALA

Para enfrentar todo esse desastre em curso, Nicolelis considera fundamental a discussão de um projeto de nação. Um projeto fundamentalmente político, em torno de pontos mínimos: nação, democracia, distribuição de renda, alinhamento com os Brics, educação pública de qualidade. “O país precisa fazer uma discussão profunda sobre o ethos nacional, do que é aceitável e do que tem que ser expurgado. Racismo, a forma como se trata as minorias, como se trata qualquer comportamento que foge a um padrão, violência contra mulher, homossexual, ser tratado na porrada, no tiro, na violência final”.

O passado escravocrata conta?, perguntamos.

“É mistura de muita coisa que nunca foi trazida para fora, posta na sala. Colegas alemães da minha idade contam que até os anos 1960 era muito parecido na Alemanha. Ninguém falava do passado nazista nas escolas. Era o elefante. E, de repente, em 68 aquilo veio para fora. A nova geração alemã pôs para fora e expurgou aquilo do âmago da nação”, responde.

Nesse processo, o sistema educacional, contando a história do país sob Hitler, foi fundamental. Aqui, é preciso debater muito a história para a elaboração de saídas consistentes. Nicolelis diz sentir falta aqui de um relato da nossa história do ponto de vista dos oprimidos. Algo como o historiador Howard Zinn fez em “A People History of the United States” (1980, Harper &Row; Harper Collins).

ERRO ESTRATÉGICO

Nicolelis não está otimista com os desdobramentos da situação atual. Considera que a esquerda cometeu erros estratégicos na condução da resposta ao golpe.

Um deles foi, nas eleições para prefeito em 2016 priorizar a disputa das vagas como se fosse momento normal, em vez de usar a campanha para continuar e aprofundar a denúncia do golpe.

Isso, na opinião dele, “tirou o fôlego do movimento contra o golpe, foi um erro estratégico dramático. Porque essa eleição municipal não mudou nada. Todos os caras em quem se apostou para ganhar perderam de maneira catastrófica; foi um horror o que aconteceu em São Paulo”.

“O país foi praticamente jogado num abismo. Dizia-se nos anos 1980 que o Brasil não podia cair no abismo porque que era maior do que o abismo. Lamento informar que o abismo está ficando maior do que o Brasil”, afirma.

SEM PACIFICAÇÃO

Da mesma forma com que erros foram cometidos em 2016, agora Nicolelis diz que há repetição de equívocos.

“Vejo gente dizendo que as eleições vão pacificar o Brasil. Pacificar nada. As eleições norte-americanas não pacificaram os EUA. Essa polarização nos EUA tem um paralelo aqui. Aqui a polarização é mais grave. Não se vê alternativa, uma saída a curto prazo. Esse golpe pode ser muito mais longo do que foi o de 1964. No de 1964 houve uma reação. Agora não vejo visão estratégica, um projeto de nação claro. Meu medo é que, se não houver uma clara aglutinação em torno de um projeto de nação, hoje é possível imaginar a obliteração da nação. Sem um projeto interno que aglutine o maior número de brasileiros em torno de uma visão de país, a coisa é séria. A autofagia passa a ser um processo de autoaniquilação da identidade nacional. Eu acho que o risco que estamos vendo é o fio da meada de um processo que pode levar a isso. Como eu achava que 2013 foi o fio da meada do que aconteceu”.

LULA, O JUSCELINO DO SÉCULO 21

Nicolelis faz paralelo da situação atual com a presidencial de 1965 –que não houve. Como agora, Juscelino (então favorito) foi acusado de ser beneficiário de um apartamento. “A história do Brasil não se repete como farsa, mas como plágio. A eleição foi cancelada e entramos num hiato de 20 anos. Acho que agora a eleição não vai ser cancelada, mas ninguém sabe o que vai acontecer. No momento, se remove o Juscelino do século 21, que é o Lula, que claramente está na frente”.

Na análise do neurocientista, Lula “talvez seja um dos poucos seres humanos no Brasil que tenha alguma chance de criar alguma zona de pacificação. Ele não é de forma alguma um extremista; é um negociador. Quando se remove essa voz conciliadora de forma traumática, dramática e injustificável do ponto de vista legal, se abre um vácuo que qualquer coisa pode acontecer”.

TIRO NA CONSTITUIÇÃO

Em suas frequentes viagens pelo mundo, fazendo pesquisas, dando aulas e palestras, Nicolelis nota a perplexidade de seus interlocutores. Conta ouvir: ‘O Brasil era nosso parceiro estratégico. O Brasil era o celeiro da China. De repente, vocês estão dando um tiro na cabeça’. Ninguém entende nada. Somos um enigma geopolítico. Os caras não entendem. A prisão do Lula é incompreensível. Um processo igualzinho ao Kafka, com inconsistências, abusos, tudo que não faz parte da tradição no mundo Ocidental”.

“Quem respeita a Constituição? Quando se rejeitam conceitos pétreos, a presunção da inocência? Quando se passa por cima [da Constituição] se dá um tiro no coração. O pessoal diz que o que aconteceu no Brasil não é igual ao que aconteceu com Getúlio em 54. Eu discordo. O tiro só não foi dado no coração de um indivíduo, o tiro foi dado no coração da Constituição do Brasil. O paralelo é muito mais profundo, é pior de 1964. É a pior crise institucional da história do Brasil. Porque o tiro não foi dado numa pessoa. O tiro foi dado no coração da norma máxima de um país que é a Constituição. Você atirou no ventrículo da Constituição. Como você repara o ventrículo? Não é uma cirurgia simples, há risco de morte”.

 

Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena

12 comments

  1. Avatar
    Daniel Melo 25 abril, 2018 at 19:16 Responder

    Compartilho com vocês um texto rápido para um colega de direita que quer entrar na vida política e é defensor das pautas moralizantes.

    Prezado Colega,

    Como pretendente a político você deve compreender corretamente o principal papel da política: o espaço onde se estabelece como toda a riqueza produzida por uma sociedade é dividida. O que coloco em todos os textos, já há muito tempo e não de agora, é que o combate a corrupção não é ou deveria ser um tema central da política.

    A substituição do tema central da política pelo fetichismo moralista de combate a corrupção cega a todos para os problemas geradores do que somos como sociedade. Qualquer proposta transformadora deve ter por base um correto diagnóstico da situação socioeconômica sob uma perspectiva histórica e material, ou seja, baseado na realidade e não no idealismo pueril.

    Como gosto muito de analogias, diria que a abordagem atual é similar àquela adotada pela medicina pré-moderna de atribuir as causas das doenças aos maus fluidos do corpo, ao sangue grosso, aos cheiros e outras construções metafísicas ou pré-científicas. Assim como àquela época, a incapacidade de compreender as causas reais dos fenômenos impede a cura dos males.

    E qual é o fenômeno que mais nos caracteriza como sociedade? O que é que significa ser subdesenvolvido? Sabemos as características de ser subdesenvolvido: pobreza, violência, mortalidade infantil, ausência de direitos, apartheid social explícito. Mas quais as causas? O que nos torna o que somos?

    É sobre isso que falo e de como a pauta moralista não só é incapaz de nos retirar dessa condição MATERIAL de existência como ainda irá piorá-la. Mas por que irá piorá-la? Já expliquei, mas por didatismo irei repetir.

    Dois componentes principais ajudaram a desenvolver nossa condição de subdesenvolvimento, todas elas ligadas à nossa gênese histórica. A escravidão e o pacto colonial, essa é a nossa gênese socioeconômica. Essas duas instituições nos legaram uma sociedade com real apartheid social e um vínculo econômico de subserviência ao exterior. Ou seja, uma sociedade construída e planejada para poucos privilegiados, privilégios que em grande medida decorrem de uma associação econômica com o estrangeiro, em detrimento dos interesses do restante da população.

    Esse processo tem um nome e não é exclusividade do Brasil, como se fosse um mal ter sido uma ex-colônia de Portugal. Chama-se de Teoria MARXISTA da Dependência. Em linhas gerais, essa teoria não coloca os países periféricos como exceções ao processo de desenvolvimento capitalista, mas sim como parte integrante desse processo. Nós somos tão capitalistas quando os EUA, Japão e etc. O que ocorre é que nós somos a parte explorada e historicamente expropriada do sistema econômico mundial. Os países desenvolvidos o são, em grande medida, por terem se capitalizado em cima dos países periféricos.

    A atual onda de combate a corrupção vem associada a uma ideologia neoliberal explícita de seus membros. Barroso, Moro, Dallagnol, Janot, todos esses professam dessa religião. Segundo essa religião, o Brasil é o que é por questões de seu material humano ser imanentemente corrupto, por ter um Estado que impede o pleno desenvolvimento do capitalismo (seja lá o que for que eles entendam por capitalismo) e toda essa sorte de conceitos metafísicos (do mundo dos espíritos). A solução para esses é destruir totalmente com as empresas do que chamam de “Capitalismo de Compadrio” para que as empresas de fora venham soprar o vento do desenvolvimento nacional (MEO DEOS!)

    Como já disse no início do texto, uma explicação errada para as causas do fenômeno tornam a profilaxia incapaz de curar o mal. O que temos hoje é ainda mais grave, pois esses senhores (trato-os ainda de forma respeitosa, apesar de não o merecerem) utilizaram e utilizam de seus poderes para impor essa agenda ao país, à revelia das decisões soberanas emanadas pelo povo de escolher seguir por caminho diferente, mesmo que não fosse um caminho de total ruptura com o Brasil Legado (o que você chama de establishment). (Oposição histórica dos projetos Brasil Nação e e Brasil Legado em outro texto)

    Esse senhores sequer compreendem o que torna uma nação desenvolvida ou não, nada conhecem do processo de desenvolvimento humano e de capitalização material necessários para essa árdua tarefa de transformar um país periférico nalgo diferente, mas se sente legitimados para derrubar presidentes, caçar senadores, deputados e impor sua “visão de modernidade” que irá, na verdade, levar o país ao passado mais distante. Tudo isso sob o manto de um “combate a corrupção”.

    O desenvolvimento é um processo de aprendizado coletivo, de domínio intelectual e material dos processos produtivos. Para alcançar o desenvolvimento é necessário que haja uso do excedente produtivo dum ciclo (ano, mês) pra financiar os custos para educar, formar e capitalizar negócios. Mas não é só isso! É preciso também que haja a criação de um contexto que propicie oportunidades para esse desenvolvimento. Oportunidades que permitam esse conhecimento teórico transmutar-se em riqueza material tangível (não em especulação financeira).

    A antiga lei do pré-sal e de conteúdo nacional tinham exatamente esse propósito, permitir financiar o desenvolvimento da cadeia produtiva de petróleo e gás com recursos próprios, que é a mais saudável forma de desenvolvimento. Por isso e por outros pontos é que eu defendo, em parte, o projeto político que foi golpeado (note que nem é o governo PT que foi posto em xeque por essas instituições e pelo poder real, mas o projeto de político que eles representavam).

    Agora a Petrobras está vendendo todos seus ativos a preço de banana pro capital transnacional, a exclusividade de 30% se foi, conteúdo nacional não só não existe como há isenção pra eles trazerem de fora os equipamentos sem imposto algum, há inclusive cogitação para a autorização pra embarque off-shore de petróleo! Todo esse crime econômico imediato e de longo prazo (por tolher a possibilidade de desenvolvimento nacional e por expropriar as nossas riquezas) está sendo referendado pelos mesmos que se exaltam com um triplex meia-boca!

    Novamente pergunto, como é possível que as pessoas estejam tão estupidificadas? Como são tão cínicas, hipócritas e criminosas ? como?

    É a ideologia my friend, a ideologia é a distorção sistemática da realidade… e a ideologia é a DE VOCÊS LIBERAIS, que estão tão estupidificados pela grande mídia e os sabujos do imperialismo que são incapazes de entender o que realmente se passa no aspecto MATERIAL do jogo, AQUELE QUE REALMENTE VALE ALGO E IMPACTA NA VIDA DE TODOS.

    Ideologia daqueles que sequer compreendem o que é desenvolvimento, mas acreditam que ele ocorrerá por mágica apenas se não houver mais corrupção. Daqueles que se irritam com R$90,00 por filho dos miseráveis, mas recebem auxílio moradia, paletó, saúde e etc. Daqueles que acreditam que haverá desenvolvimento econômico quando tivermos um “verdadeiro capitalismo” sem entender que nós somos o capitalismo!

    CopyLEFT -By Daniel Melo

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    Alice Branco 25 abril, 2018 at 19:22 Responder

    muito boa a vossa entrevista mas, preciso pedir que, para a próxima, vejam um jeito de que as vossas perguntas sejam melhor ouvidas – o som sai claro quando o Nicolelis fala e os de vocês ficam muito longe, engrolados, prejudicados pela distância do gravador. Sei que é um problema técnico, claro mas, imagino que seja dificultoso para quem os assiste, para mim o foi (verdade que meus quase 60 implicam, tb,em alguma deficiência auditiva). Não se chateiem e arranjem microfones adicionais para ficar maravilhoso o vosso trabalho.
    um abraço,

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    Perci Coelho de Souza 25 abril, 2018 at 23:34 Responder

    Maravilhosa entrevista com professor e cientista Miguel Nicolelis. Por favor gostaria muito de fazer um convite ao professor mas não sei o caminho para isto. Será que vocês poderiam me ajudar. Sou o Professor Perci Coelho de Souza do Instituto de Ciências Humanas da UnB. Também leciono no departamento de Serviço Social da mesma universidade no Programa de Pós-Graduação em Política Social. Sou coodenador do projeto Quintas Urbanas da UnB que já produziu vários seminários nacionais e internacional sobre temas de interesse crítico social. Gostaria muito de convidar o professor Miguel Nicolelis para uma conferência este ano na UnB no Quintas Urbanas. Meu celular é (61)984012197 (Watts) percicoelho@gmail.com

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    Daniel Melo 26 abril, 2018 at 17:51 Responder

    Sobre a Conjuntura Nacional e o Verdadeiro Embate Histórico
    (ou sobre a luta dos países periféricos para se transformarem em nações)

    “Independência não se declara, conquista-se!”

    Parte 2.

    Todo esse embate político e sobretudo ECONÔMICO é o que constrói e financia um aparato ideológico com vistas a demonizar uma opção política e glorificar a outra. Os interesses da elite são então colocados como os interesses da nação, numa grande enganação. Sendo a maior das enganações a substituição do debate político pelo debate moralista em torno da corrupção.

    Na política há corruptos (e aposto que em todos as demais profissões) mas o núcleo do debate político não é a corrupção, não é aquilo que corre por debaixo dos panos, mas sim aquilo que é feito às claras. O centro do debate político é como os recursos produzidos pela sociedade toda devem ser aplicados, redistribuídos, investidos, com vistas ao interesse comum.

    Ao se substituir o debate político pela sanha moralista só há o esvaziamento político por parte da população e a demonização daqueles que são os únicos capazes de fazer frente ao poder do grande capital, do Brasil Legado e sua máquina de propaganda (mídia). Enfraquecer os políticos é enfraquecer a nós mesmos e à capacidade da população em fazer frente a esses interesses econômicos privados e alheios ao bem público!

    Essa confusão e o esvaziamento da política e sua substituição pelo moralismo gera fenômenos proto-fascistas como Bolsonaro e Sergio Moro, que são efetivamente irmãos siameses a complementarem um ao outro.

    Mas por que isso ocorre?

    Ocorre que à medida que esse conflito vai se acirrando as violências sistêmicas vão se transmutando e descendo na escala evolutiva. Temos 3 grandes violências sistêmicas, a violência física, a violência simbólica e intelectual e a violência econômica. Elas são sistêmicas por serem a base de funcionamento do sistema produtivo e social vigente.

    A violência física tem a função histórica de oprimir os mais fracos, de manter aqueles que pouco possuem em seu lugar na estrutura social. As polícias militares são, essencialmente, forças de repressão política e não forças de segurança pública. Por isso os seus desvios de atuação são “relevados” pelas classes de cima, uma ou outra vítima e os abusos contra os oprimidos são tolerados, desde que a missão de manter a base na linha seja alcançada.

    Já as violências simbólicas e intelectual são destinadas à classe média, a qual, pela natureza de atividades que desempenha no sistema produtivo, não podem ser dominadas “na porrada”. A função dessas é desprover o indivíduo de qualquer processo crítico em relação ao mundo e sociedade e criar bons “servos” e guardiões da elite. O ser de classe média ideal deve defender as coisas como estão, deve ser conservador em essência, deve ser um autômato movido a consumo e trabalho, um robô! O objetivo último dessa violência é a de legitimar a dominação.

    A violência econômica é a derradeira violência que origina todas as demais. É a violência do sistema produtivo voltado a enriquecer poucos às custas de milhares.

    No esgarçar do embate entre os projetos de país há um recrudescimento das violências. A violência econômica desce um degrau na escala “evolutiva” e intensifica a violência simbólica: linchamento ideológico e social do pensamento crítico, ataque às minorias, supressão direitos fundamentais, escola sem partido, MBL e congêneres.

    A violência simbólica desce um degrau e vira violência física: assasinato de Marielle; ovos, pedras e tiros contra comitiva de Lula, a prisão de Lula e o aumento da violência no campo.

    É a violência física, sendo a mais primitiva das violências, não pode se transmutar, porém ela se intensifica: intervenção militar do rio e predominância do discurso da segurança pública.

    Podemos chamar esse revés civilizatório de fascismo! O qual é um processo de crise econômica e política do sistema capitalista, que no caso brasileiro é um embate entre os representantes locais do capitalismo (Brasil Legado) com o restante do país, resultando numa dominação e subjugação mais crua e evidente.

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    Daniel Melo 26 abril, 2018 at 17:54 Responder

    Sobre a Conjuntura Nacional e o Verdadeiro Embate Histórico
    (ou sobre a luta dos países periféricos para se transformarem em nações)
    Parte 1.2

    “Independência não se declara, conquista-se!”
    O oposto, privatizar, só se presta a atender aos interesses privados (Lucros) daqueles que passarão a deter os negócios outrora públicos. O resultado de longo prazo de amplas privatizações é um aumento de transferência de riqueza a poucos, o sucateamento de bens públicos (os quais serão superexplorados até a exaustão).

    Sob a ótica de projeto de país, o embate é entre um projeto que chamo por “Brasil Nação” e um projeto que chamo por “Brasil Legado”. O Brasil Legado é o projeto de continuidade histórica do país como ator marginal no sistema econômico (e político) internacional. Esse projeto é aquele do interesse de nossa elite econômica, a qual se associa historicamente aos interesses estrangeiros pra se locupletar facilmente do restante do país. É a versão moderna do velho pacto colonial, onde os escravos fomos/somos/seremos nós, os não-elite.

    O Projeto Brasil Nação é o projeto focado no desenvolvimento econômico e social nacional, inclusivo, independente, altivo e soberano. O embate político nacional também deve ser colocado nesse sistemas de coordenadas e não apenas numa divisão importada entre esquerda e direita. Senão vejamos, esse é o embate do Brasil desde a revolução de 1930. Getúlio, JK, Jango, Lula, Dilma. Esses são alguns dos representantes que incomodaram os donos do país ao iniciar um modelo de desenvolvimento nacional, Getúlio e JK jamais foram de esquerda, porém também foram perseguidos e sofreram linchamento político similar ao de Lula, mas por que?

    Porque nesse sistema de coordenadas políticas há uma clara disfuncionalidade no sistema democrático para o Brasil. Pois o projeto Brasil Nação tem num de seus eixos a inclusão econômica e social, o que lhe proporciona amplo apoio popular e o faz vencer as eleições. Só que, em algum momento, entrará em conflito com o interesse daqueles que se beneficiam da coordenação de subserviência ao exterior e de manutenção de privilégios. Essa disfuncionalidade da democracia levou Getúlio ao suicídio, fez com que JK fosse cassado pela ditadura (e possivelmente morto por ela) fez com que Jango fosse deposto e por último que Dilma o PT e Lula fossem destruídos pela máquina jurídico-midiática.

    O conflito distributivo está no bojo desse embate. É o conflito entre o restante do país e uma meia dúzia que sempre se locupletaram da nação pela renda nacional. À medida que um projeto de Brasil Nação se desenvolve, inevitavelmente chegará um momento de briga de faca no escuro pela renda nacional. Os recursos necessários ao desenvolvimento nacional são surrupiados para as mãos de meia dúzia! Quando se opta pelo desenvolvimento nacional, esses recursos começam a escorrer pelas mãos deles.

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    Paulo Oliveira 26 abril, 2018 at 17:55 Responder

    E incrível como o tempo nos passa as pernas…como bem lembrou o Dr. Nicolelis, la pelo anos de 2004 e 2010 nessa lacuna o Brasil respirava ares de soberania, e nessa mesma época, gravei um especial, uma entrevista que ele falava sobre células troncos que fora assunto que ganhou o mundo inteiro por causa de sua descoberta, e mostrava o hospital no RN não me lembro a cidade, que atendia os mais necessitados naquela região , com atendimento de primeira para a população mais carente, talvez não desse para atender a todos, porem ajudava muita gente. Que mais me deixa triste e desanimado, vendo, hoje o mesmo cientista dando entrevista desoladora e nada animadora sobre o nosso pais, pois, não era para estamos nessa situação calamitosa, vivemos uma guerra silenciosa. Mas, sua palavras, nos afaga, e nos da esperança de dias melhores e de uma virada de chave de nossas instituições e desses governantes golpistas….Sua belas e sabias palavras, nos ensina e nos alerta, para que possamos mais uma vez escolher o nosso presidente (a) este (a) que possa atender todas as falas do professor Nicolelis e os anseios de todo o povo brasileiro…

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    Humberto 30 abril, 2018 at 23:16 Responder

    Não vou entrar no merito do entrevistado ou sobre o conteudo ( aprovo ambos ), mas apenas um pedido para que os entrevistados sejam instruidos a falar sempre diante do microfone, pois quando falam olhando pros lados as vezes a voz some e isso é bem irritante rsrs. Obrigado.

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