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Não é hora de ficar neutro, diz Paulo Sérgio Pinheiro

“Eles vão fazer o que eles estão dizendo, se eleitos. E vai sobrar para todo mundo. Vai sobrar para o povo, vai sobrar para as classes médias e para as elites. Está na hora de escolher o lado. Não dá para ficar neutro entre o neofascista, a extrema direita, e a frente democrática.”

É a conclamação que faz o professor Paulo Sérgio Pinheiro, que foi secretário dos Direitos Humanos no governo de Fernando Henrique Cardoso e um dos coordenadores da Comissão Nacional da Verdade.

Falando ao TUTAMÉIA (veja a entrevista no vídeo no alto desta página), o doutor em ciência política afirma: “Não são duas candidaturas iguais. O único que pode defender o que vale no Brasil, na história e na cultura, quem representa isso é o Haddad e a frente democrática que está sendo construída em torno dele. Isso o coloca totalmente diferente do candidato da extrema direita”.

Falando sobre Bolsonaro, Pinheiro afirma: “A questão básica é candidatos como esse, eles acreditam no poder, é o poder que vale. Ele é contra os gays, ele fala de minorias preguiçosas, ele fala abertamente em matar os adversários, ele se apresenta como cara durão, que vai matar os criminosos sem tribunal. Ele fala que as mulheres não devem ser líderes políticas, devem ficar em casa. Ele elogia ditadores, elogia os ditadores passado no Brasil.”

Se eles forem eleitos, adverte o estudioso, “é preciso ter em conta que as instituições democráticas não vão ter condições de impedir que essa dupla de capitão e general faça o que está dizendo. Eles não vão poder ser controlados”.  Para reforçar seu argumento, traz um exemplo da história, lembrando o que ocorreu na Itália sob o fascismo: “Foi um erro tanto do partido conservador fascista quanto dos industriais italianos, que achavam que iria controlar Mussolini.  Não controlaram”.

O mesmo vale para empresário da comunidade judaica e outros grupos que hoje flertam com a candidatura neonazista no Brasil. Deveriam se lembrar da história narrada no filme “O Jardim dos Finzi-Contini”, diz Pinheiro:

“A comunidade judaica próspera achava que não seria atingida pelo fascimo. E todos morreram nos campos de concentração. É muito importante que vários empresários da comunidade judaica que estão apoiando o candidato da extrema direita lembrem disso, levem isso em conta. Vários maçons têm entrado nessa esparrela. Meu pai era maçom. Os maçons estiveram na linha de frente, vítimas do ataque do fascismo italiano, do nazismo alemão, da extrema direita francesa.”

VIOLÊNCIA

Pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência, da Universidade de São Paulo, Pinheiro afirma que as atitudes e declarações do candidato Bolsonaro têm sido um incentivo à violência:

“O candidato propôs metralhar todos os membros do Partido dos Trabalhadores. Isso está em vídeo! Antes mesmo ele já tinha sua clássica declaração de que foi uma pena de que os assassinatos na Ditadura Militar não tivessem colhido 30 mil pessoas, inclusive Fernando Henrique Cardoso e o José Gregori, meus queridos amigos. Isso só pode se traduzir em violência, como de fato está havendo: cinquenta casos bárbaros, inclusive o assassinato do mestre de capoeira Moa do Katendê. Isso é uma demonstração do que poderá acontecer se eleita a chapa de extrema direita, do capitão e do seu general como vice-presidente”.

Pinheiro destaca também que a candidatura da extrema direita está sendo repelida nos quatros cantos do mundo civilizado. Consultor das Nações Unidas na área de direito humanos, o estudioso cita jornais de destaque de diversos países que vêm se manifestando em choque com as barbaridades defendidas por Bolsonaro.

IMPRENSA E GRANDES INVESTIDORES

“O New York Times tem feito editoriais clamando para o Brasil acordar diante desse perigo. O que me incomoda é que, aqui no Brasil, os grandes jornais continuam a tratar os dois candidatos como dois demônios, um de esquerda e outro de direita, e não chamam de extrema direita. No mundo inteiro, do “Der Spiegel”, da Alemanha, ao “Nouvel Observateur”, da França, todos chamam o capitão de extrema direita, e grande imprensa, as rádios, as televisões brasileiras não o tratam assim.”

Indignado, Pinheiro lembra que vários desses jornais tiveram papel importante no enfrentamento à ditadura e na transição democrática no Brasil: “Era melhor que eles contribuíssem para que essa ditadura de extrema direita não seja implantada”.

E continua: “Faço um apelo aos proprietários de jornais. Pensem no que vai ser a vida de vocês se essa dupla for eleita. Não só as classes populares, enganadas por essa dupla, mas pensem que também as elites vão ter de conviver com isso. A elite branca também vai ser afetada”.

Os do andar de cima também deveriam tratar de abrir os olhos: “Esses investidores, os empresários que estão contentinhos com o programa econômico da dupla, eles deveriam olhar isso com mais cuidado. A competência não está do lado do posto Ipiranga [referindo-se ao guru econômico de Bolsonaro], que tem um currículo bastante duvidoso, tendo passado até pela ditadura do Pinochet”.

Ao contrário, afirma: “A competência está do lado do Haddad. Tem Bresser, tem Belluzzo, tem Paulo Nogueira Batista, gente da maior competência, são estes que devem merecer a confiança, e não aqueles aventureiros. Esses investidores, esses empresários que estão incautamente apoiando a candidatura da extrema direita, eles vão se dar mal. Porque a estabilidade, as reformas necessárias só podem ser feitas por uma presidência que seja responsável e democrática”.

RACISMO E DESIGUALDADE

Para Pinheiro, uma eventual vitória de Bolsonaro vai aprofundar a desigualdade social no país e aumentar a violência, com graves consequências para a população mais pobre.

“O Brasil continua sendo um dos países mais desiguais do mundo. Além da desigualdade econômica, há uma desigualdade racial. Apesar dos programas de inclusão, do lançamento das cotas, apesar das bolsas para negros e programas para negros candidatos e diplomatas, os negros continuam fora dos lugares de poder. Isso é ingrediente de violência. E as vítimas preferenciais das execuções policiais continuam sendo os adolescentes e jovens negros.”

E segue: “São Paulo e Rio de Janeiro são os campeões mundiais de execuções de civis, de suspeitos, pela Polícia Militar. E a proposta do candidato é dar a todos os policiais o direito de matar. Eu lembro de uma declaração dele dizendo que polícia que não mata não é polícia. O pior é que isso está recebendo largo apoio do povo brasileiro, povo brasileiro que vai ser a primeira vítima da campanha de execuções que será aberta num eventual governo do capitão”.

FRENTE DEMOCRÁTICA

Para enfrentar esse desatino, é preciso formar uma ampla frente em defesa da democracia. “É o caminho. Acho que aqueles que garantiram a transição, os poucos que continuam vivos, é importante que estejam nessa frente democrática. Fernando Henrique, um dos garantidores. O Lula fez campanha pelo Fernando Henrique na sua primeira candidatura ao senador. José Carlos Dias, José Gregori, que foram atores na campanha das diretas precisam se somar.”

Pinheiro faz um chamamento a seus companheiros de trajetória democrática: “Para sermos dignos do legado de Montoro, de Tancredo, do Brizola, precisamos estar unidos numa frente democrática, não em torno do programa de um partido só, mas a frente da democracia contra um candidato de extrema direita. Nessa hora não tem de ficar pedindo carteirinha. Não tem nem papo! Não tem de discutir programa, não tem de discutir nada. É uma frente contra a ditadura de extrema direita”.

Alerta que “o perigo está sendo subestimado”. Por isso, reafirma: “Não há que se ater a programas de partido. Hoje o programa maior é se opor à escalada da extrema direita e do neofascismo no Brasil. É preciso defender a democracia. Só na democracia os negros, as mulheres, os gays, os jovens, que são as vítimas preferenciais da polícia, só na democracia eles terão seus direitos protegidos”.

Fazendo esse grande arco democrático de alianças, afirma o doutor em ciência política, “dá para mudar. Boa parte desses eleitores que apoiaram o capitão estavam desorientados ou mal informados. Se esses eleitores começarem a ouvir qualificações do que significa o programa de extrema direita, eu tenho esperança de que a frente democrática vai prevalecer. O Brasil não pode se permitir esse retrocesso”.

 

 

 

 

 

 

Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena

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