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Um bardo de infinitas brasilidades

texto de Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

Mais uma vez eu tive o prazer de me encontrar com um trabalho do brasiliense Túlio Borges – cantor com voz marcante e compositor de letras eloquentes, cujos ritmos e melodias carregam em si a ancestralidade das canções nordestinas.

Hoje tenho nas mãos Cutuca Meu Peito Incutucável (independente), CD que renova a impressão que tive ao comentar dois CDs anteriores de Túlio Borges: Batente de Pau de Casarão e Eu Venho Vagando no Ar. Assim, foi com justificada alegria que reencontrei nesse CD recém-lançado as mesmas qualidades que justificaram o meu deslumbramento de anos atrás. E tome de brasilidade.

O CD abre com “Contracachimbo da Paz” (TB e Jessier Quirino, poeta e compositor paraibano). O resfolego do acordeom é como um choro doído. Um acorde e vem a voz de Túlio. A percussão é plural, envolvente. Túlio dobra a voz em terças. O baixo arredonda a melodia de um belo baião que soa arritmo ao final de cada estrofe, cujas quadras, sempre na segunda pessoa do singular, têm rimas intercaladas no primeiro e no terceiro e no segundo e no quarto versos.

“Concreto, Amor e Canção” (TB e a cantora Ana Reis). Os dois cantam juntos. Mais uma vez a percussão realça o som do bandolim junto com o acordeom, o violão (quase sempre tocado por Túlio Borges) e o baixo: raízes musicais nordestinas e ibéricas somam-se, harmonizam-se. Baixo e bandolim tocam até se encontrarem com a suavidade e a afinação da voz de Túlio. O ritmo acende na terceira estrofe. Túlio e Ana cantam a melodia em terças. Violão e baixo aquecem o som. O acordeom surge límpido. As palmas, marca registrada do gênero, vêm e buscam o final.

 O xote “Curvas” (Zeto) tem versos bem cantados por Túlio: (…) Eita! Minha vida se varia/ Depois que eu canto (…).

 “Grande Olhos” (Aldo Justo e Alexandre Marino) é um forró porreta, cuja percussão só faz aumentar o fogo rítmico. Tulio dobra a voz em terças. Apoiado pelo acordeom a resfolegar, o bandolim, o violão, o baixo e o cavaquinho engrandecem a música. E vem o coro carregando na dinâmica e empolgando.

O reggae “Ela Levantou o Braço e Eu Morri de Amores” (Afonso Gadelha e TB) vem numa levada dolente. Violão, guitarra, bateria, baixo e acordeom dão peso certo ao arranjo. Versos belamente despudorados, como (…) Ah, que vontade me deu/ De dar um beijo bem dado/ No teu sovaco raspado (…), fazem da letra um achado.

É de Afonso Gadelha a voz que inicia “Vem Não” (TB e o compositor piauiense Climério Ferreira). Logo Afonso e Túlio cantam juntos. O arranjo é suingue puro. Um falso final… e bandolim e violão carregam todos para il vero finale.

Com título divertido, “Enxerida no Contexto” (TB e Jessier Quirino) fecha a tampa. As flautas lembram pífanos. Ao final Túlio declama “Maria, Pano de Chão”, poema de Jessier Quirino, de onde foi sacado o verso que nomeia o álbum.

O Nordeste está presente do início ao fim num CD que ressalta a pluralidade da música de Túlio Borges. Assim ele lavra sua música.

Rodolfo Lucena

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