Sign in / Join
Header Banner

Somos criminalizados porque ousamos lutar, diz líder sem teto

As ocupações ocorrem por necessidade. Elas são feitas por trabalhadores pobres. São moradias insurgentes. São criminalizadas. Quem ocupa não tem culpa; a culpa é do Estado. Com essas ideias, Carmen Silva, líder da Frente de Luta por Moradia FLM, fala ao TUTAMÉIA.

“Ocupamos porque precisamos. Fazemos também a denúncia da especulação imobiliária, do vazio urbano. A mídia nos chama de invasores. Não somos invasores. Somos ocupantes. De prédios abandonados, sem nenhuma função social, cheios de lixo e de focos de doença. A mídia e a sociedade têm o discurso pronto. Todo mundo que ousa uma desobediência civil é taxado de ladrão, de traficante. Se um jovem é negro, é um ladrão”, diz.

A FLM reúne 13 organizações. Carmen é do MSTC, o Movimento dos Sem Teto do Centro, que atua na cidade de São Paulo. No centro, ela argumenta, já existe muita infraestrutura: prédios, água, esgoto, escolas, trabalho, postos de saúde, lazer. Por que morar na periferia da periferia, gastar muito tempo e dinheiro com transporte e não ter equipamentos urbanos básicos?, pergunta ela.

Carmen conta que os prédios ocupados estão sempre abandonados. Mas, logo que o movimento chega, surge o dono, que geralmente está com muito imposto atrasado. “Quem está ilegal não somos nós que fomos ali dar função social [para o imóvel]. Quem está ilegal é quem abandona suas propriedades. Se abandonou é porque não quer”, diz.

SOCIEDADE DO MEDO

Depois, vem a polícia. “Na região já ocorria furto. Mas a polícia bate primeiro na nossa porta. A criminalização vem de todas as formas”. E por quê?

“É uma sociedade que tem medo, que vive nos seus muros, para dentro, com medo da violência, com medo de denunciar a falta de políticas públicas, que não ousa fazer a denúncia. Quando ousa fazer tudo isso, tudo que é ruim vem para cima de nós”

Nesta entrevista, Carmen trata da tragédia do Paissandu –o incêndio de destruiu o prédio Wilton Paes de Almeida, no coração da cidade, em 1º de maio de 2018. 171 famílias moravam lá. “Foi uma tragédia anunciada”, afirma. Ela critica a prefeitura, o governo estadual e o federal e declara:

“Como se justifica uma cobertura em Moema pegar fogo?  Somos só nós, os movimentos sociais, que temos riscos? Por que dos grandes incêndios nas favelas, justamente em locais valorizados”.

MACHISMO E SEXISMO

Filha de um militar com uma empregada doméstica, Carmen nasceu em 1960 numa pequena localidade do Recôncavo Baiano. Menina foi para Salvador, onde estudou, trabalhou, casou e teve sete filhos (ela ainda teria mais um). Resolveu abandonar a sociedade “machista e sexista” da Bahia e veio para São Paulo. “Chegando lá vou arrebentar”, pensou.

Pelo contrário, passou por muitas dificuldades e acabou tendo que viver na rua. Mesmo assim, não quis voltar. Não queria voltar. “É o orgulho da mulher que não queria voltar derrotada e deixar alguém bater nas costas e dizer: ‘Não te disse que não iria dar certo?’”.

Num albergue, conheceu o movimento por moradia. Era a época dos mutirões organizados por Luiza Erundina. Em 1997, ela fez a primeira ocupação. A ideia de repovoar o centro a conquistou. Conquistando espaços de liderança, ela é um dos destaques de “Era o Hotel Cambridge” (Eliane Caffé, 2016). Num misto de documentário e ficção, o filme retrata os bastidores das lutas por moradia em São Paulo. Agora, ela enfatiza, “o movimento quer criar cidadãos”.

Carmen condena o golpe que derrubou a presidente Dilma Rousseff. “Foi devastador para os movimentos de moradia”, afirma. Mas não se restringe ao tema. Fala da perda de direitos, do congelamento de gastos públicos, da venda de partes da Petrobras. “Acorda Brasil!”, conclama.

LULA É PRESO POLÍTICO

“Todos que foram afetados pela austeridade econômica precisam se unir. Somos maioria. A gente precisa se unir e começar a discutir mais sobre a relevância do país, sobre a conjuntura política, a geopolítica, política partidária, diversidade”.

Carmen conta que esteve nos acampamentos em Curitiba, para se solidarizar com o presidente Lula. Foi justamente naquele 8 de julho, quando surgiu a informação de que a libertação poderia acontecer imediatamente. Ela relata que a notícia fez com que muitos chegassem nas cercanias da PF, de diversos pontos da cidade, para comemorar.

“Eu não sou lulista. Eu fui lá porque Lula é um preso político. Lula representa a democracia. Temos o direito à democracia. Ir a Curitiba é defender a democracia brasileira”, afirma. E emenda:

“Na nossa escravidão, as correntes são invisíveis. Se não tomarmos cuidado, a gente não vai se livrar desses grilhões. Só vamos nos livrar, quando os brasileiros, em todas as bases, começarem a discutir política de todas as formas”.

Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena

Leave a reply