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“Solidarizar-se com injustiçados é o cerne do judaísmo”

“Vamos eliminar o ódio, construir um Brasil melhor para todos. Lula representa o melhor projeto já executado no país e sentimos muito pela grave injustiça que ele está sofrendo e que só vem em prejuízo do Brasil”, afirma o médico Nelson Nisenbaum ao TUTAMÉIA. Com um grupo de judeus, ele esteve em Curitiba, em 17 de setembro, para prestar solidariedade ao ex-presidente, preso desde abril. A comitiva foi liderada pelo rabino Jaime Fucs Bar, que visitou Lula.
“Quando olhamos a situação que Lula está vivendo hoje, nós imediatamente identificamos isso com o nosso passado, as perdas e injustiças que sofremos. A capacidade de nos solidarizarmos com esse tipo de situação é o que me faz judeu. Se eu não me solidarizar com a vítima da brutalidade e do erro, a vítima da injustiça, eu não posso me considerar judeu. O senso de justiça é um valor judaico muito importante, fundamental”, declara (assista à integra da entrevista no vídeo acima).
Nisenbaum ressalta que não fala em nome da comunidade judaica, onde também há divisões. “Crítica a gente sempre recebe. Encaramos isso com serenidade. Tem grupos dentro da comunidade judaica que pensam diferente, que não gostam do Lula. As comunidades muçulmanas e cristãs também têm divisões. A crítica é natural”.
Seu grupo, diz, “apoia e reconhece as conquistas do presidente Lula no seu período de governo e depois”. Ele afirma se identificar com o discurso lulista de “aproximação, fraterno, generoso, de reforma na sociedade por meio do favorecimento dos mais necessitados e da redução das desigualdades”.
Para o médico, essa visão, o carisma a capacidade negociação de Lula, “se coaduna com nossos valores judaicos e vai ao encontro daquilo que a gente lê das melhores tradições rabínicas, filosóficas, nas academias judaicas. A gente entende que o presidente Lula trabalha em favor de um mundo melhor”.

MISSÃO JUDAICA
E acrescenta: “Todo o judeu tem uma certa missão de melhorar o mundo, de curar o mundo É um valor místico para os judeus. Nós acreditamos que Lula tem essa capacidade e provou fazer isso durante o governo dele. Daí a iniciativa desse grupo de aproximar um rabino ao presidente Lula”.
O rabino Jaime Fucs Bar é brasileiro e mora a décadas em Israel, em um kibutz. Fundador de um movimento chamado judaísmo humanista, ele veio especialmente ao Brasil para visitar Lula nessa comitiva especial da comunidade judaica. “Achei simbólico que viesse um rabino de Israel”, observa Nisenbaum.
Ele afirma que o rabino ficou muito emocionado com o encontro e evidenciou isso na entrevista que concedeu do lado de fora da prisão, junto com o grupo judaico. “Ele descreveu um homem absolutamente extraordinário, com muita força espiritual, determinação, resistência, capacidade. Um determinado, que quer de qualquer jeito voltar ao poder para continuar sua obra de resgate do Brasil”.

HOLOCAUSTO E ENSINO JUDAICO
Nesta entrevista ao TUTAMÉIA, o médico tratou também da conjuntura nacional e da ascensão de grupos de extrema direita pelo mundo. Perguntamos qual a explicação para o fato de judeus apoiarem candidatos que defendem ideias nazistas. Sua resposta:
“Talvez haja desconhecimento, falta de análise do discurso do passado e do presente. Na educação judaica, o ensino sobre o Holocausto é equivocado, porque é completamente focalizado na experiência trágica dos campos de concentração, do extermínio em massa. A história é analisada pelo seu fim e não pelo seu começo. O nazismo tem que ser ensinado a partir de 1926, não a partir de 1944”, defende, acrescentando:
“As pessoas têm que entender como se montou esse processo, como foi o uso da imprensa, das polícias secretas, do Judiciário. Como os supremos tribunais endossaram toda essa situação. Se a gente não passar por esse processo de compreensão, do nascimento do discurso, a infiltração dos discursos em setores da sociedade nas instituições, no uso das instituições para propagar esse tipo de coisa, a gente nunca vai entender”.
E mais: “Não adianta ficar chorando os mortos do Holocausto se a gente não entender como se construiu todo esse processo. Uma boa parte dos judeus não tem esse nível de compreensão da formação do nazismo”.

BOLSONARO E FASCISMO
Na análise de Nisenbaum, o fascismo se modificou nas últimas décadas. Depois de se fundar em personalidades fortes, diz, hoje “aqueles que articulam a extrema direita não mostram a cara, ficam nos bastidores”.
“Bolsonaro talvez seja a primeira manifestação explicitamente fascista que nós temos hoje no cenário político nacional. É um risco muito grande de retorno desse tipo de mentalidade. Uma eventual eleição do Bolsonaro seria uma cosia muito grave para a democracia brasileira. O que está por traz dele é uma visão de mundo exclusivista, egoísta, armamentista, extremamente capitalista”.

Grupo da comunidade judaica que acompanhou o rabino Jaime Fucs Bar (no centro de branco)

TUTAMÉIA publica abaixo a mensagem divulgada pelo grupo judaico quando da visita ao presidente Lula:

Curitiba 17 de setembro de 2018.
Mensagem à nação brasileira,

aos que se encontram injustamente encarcerados

e ao Presidente Lula aqui detido

Nós, integrantes da comitiva que acompanha o Rabino Jayme Fucs, pertencemos a um povo que sofreu os horrores da guerra que escandalizou o mundo e impulsionou a criação de um marco legal internacional de promoção e proteção aos Direitos fundamentais da pessoa Humana, pela ONU.
Nós, judeus aqui reunidos, religiosas e religiosos, profissionais de várias áreas e eleitores de diferentes candidatos, estamos aqui porque não nos conformamos que mais de 70 anos depois da Declaração da ONU, os direitos humanos sejam desrespeitados em nosso país.
No calendário judaico o dia de hoje se encontra entre o ano novo e o dia do perdão, o yom kippur. Este é um momento fundamental de reflexão, tanto de avaliação do ano que passou, quanto de engajamento em relação ao ano que está por vir. A presença do ódio e da injustiça marcou o ano que passou. Reconhecendo e condenando isto, viemos aqui impelidos pela afeição que temos pela paz, Shalom.
Shalom para nós supõe liberdade. É muito mais do que não ter guerra. A paz, Shalom, é a harmonia entre a nossa liberdade, os nossos desejos e os direitos de todos os seres humanos, entre si e com a natureza. Um destes direitos é o de poder ser julgado com isenção, e de não ser privado da liberdade enquanto todos os recursos legais não tenham sido esgotados. Por isso visitamos hoje o Lula, que simboliza as muitas injustiças e milhares de pessoas lotando prisões sem ver seus processos julgados até o fim. Simboliza também os atos de arbitrariedade provocados por desejo de vingança e perseguição política.
Nossa história alerta para o que acontece com condenações arbitrárias, como foi o caso de Wladimir Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura, falsamente delatado, preso, torturado e morto. O mesmo aconteceu com Olga Benário, grávida, e entregue pelo STF, aos nazistas alemães para morrer nos campos de concentração. Recuando mais no tempo, vale lembrar de Alfred Dreyfus, capitão do exército francês, injustamente acusado e condenado por traição. Tantos jovens judeus, – Iara Iavelberg, Chael Charles Schreier, Rosa Kucinski, Pauline Reichstul entre outros – também presos injustamente e mortos, porque desejaram que nossa pátria brasileira fosse um lugar de democracia, liberdade e paz.
Visitamos o cidadão Lula sabendo que podemos sofrer críticas. Isso não importa tanto quanto o nosso dever e vocação de promover Shalom, a harmonia, a possibilidade que os conflitos e diferenças possam ser neste ano que se inicia trabalhados democraticamente, sem uso da violência, da privação dos direitos e da injustiça.
Ao desejar ao Lula, desejamos a todos e todas um shaná tova, um ano de paz, chatimá tová, que sejamos inscritos no livro da vida de um país mais justo e livre.
Uma das preces diárias dos judeus diz:
“Bendito sejas tu, eterno, nosso deus, rei do universo,
que dás liberdade aos prisioneiros”.

Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena

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