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SILVIO TENDLER FAZ DOCUMENTÁRIO SOBRE A RESISTÊNCIA DEMOCRÁTICA

O próximo projeto do cineasta Silvio Tendler, um dos maiores documentaristas do Brasil, vai focar na resistência democrática dos brasileiros –a lula pela libertação de Lula, a determinação em não abandonar o presidente, a ocupação pacífica e determinada do espaço público.

A revelação foi feita por ele em entrevista ao TUTAMÉIA: “Vou contar para vocês em primeira mão. Vou fazer um filme sobre a resistência” (assista à integra da entrevista no vídeo acima).

A inspiração para a produção foi a visita que Tendler fez a Curitiba no início deste mês para prestar solidariedade ao presidente Lula. Ele levou seu filme “Dedo na Ferida” para fazer sua primeira exibição naquela cidade, exatamente na sala Lula Livre, parte do Espaço de Formação Marielle Franco, montado pelo MST em um terreno próximo à Vigília Lula Livre.

Contou para a gente que ficou muito impressionado, emocionado até, com a organização da vigília, com a determinação das pessoas. É desse cenário, adianta, que seu novo filme vai partir:

“O filme começa na Vigília Lula Livre, mas vai tratar da pequena resistência, que a gente faz todo o dia contra esse golpe que está aí. Na vigília, já combinei com o pessoal lá, eles toparam, gostaram da ideia. Agora já vou começar a conversar sobre como a gente vai fazer, do ponto de vista prático, mas eu quero ampliar essa resistência para o Brasil inteiro: como você resiste”.

Em resumo, define, o filme “vai ser uma espécie de manual da resistência”.

O documentário terá inspiração, também, na própria experiência de vida de Tendler.

“A gente já viveu várias resistências. Eu, com 68 anos, vivi golpes e contragolpes. Eu me politizei muito rápido. Eu me lembro, acreditem ou não, do 11 de novembro de 1955, quando o marechal Lott impediu o golpe que seria dado para evitar a posse do JK. Depois teve a renuncio do Jânio, a Legalidade, o Golpe de 65, vários atos institucionais, os biônicos e o Pacote de Abril. Eu fui vivendo vários golpes… Fora do Brasil, vivi o golpe no Chile, em 1973, então já participei de muitos momentos históricos muito difíceis.”

A situação hoje também está muito complicada, muito complexa, mas Tendler considera que não há razão para desespero: “A gente está vivendo mais um momento histórico difícil, complicado, mas eles não conseguem emplacar. Os caras fazem todas as trapalhadas do mundo e estão alijados, praticamente, do processo eleitoral”.

OTIMISMO COM AS ELEIÇÕES

E aí a conversa segue pelo caminho das eleições. Qual a avaliação de Tendler sobre as perspectivas eleitorais?

“Magalhães Pinto, que foi um político conservador que eu entrevistei, ele costumava dizer: `Política é como nuvem. Você olha, ela está de uma forma. Você olha de novo, ela está de outra forma`. Eu hoje acordei otimista porque eu acho que nós estamos indo para um desenlace simpático, favorável e possível. Apesar da prisão do Lula, da qual eu discordo frontalmente. Acho um absurdo o que estão fazendo com o Lula, ele é o refém de nossa liberdade. Eu gostaria muito que ele estivesse solto, disputando as eleições, mas, já que eles querem ganhar no tapetão, o Lula está jogando um xadrez com eles, e acho que está levando a melhor. Porque o Lula, preso, indicou um candidato, que eu tenho certeza que, já na próxima sondagem de opinião, vai disparar nas pesquisas. O Ciro está crescendo muito, então a esquerda ou, pelo menos, as pessoas que representam a esquerda não vão fazer feio nesta eleição, com muita possibilidade de a gente emplacar um presidente democrático.”

Não só um presidente que respeite a democracia, acredita ele, mas que realize reformas necessárias, especialmente no que se refere à ação do sistema financeiro:

“Dois ou três dos candidatos à Presidência da República estão falando da taxação das grandes fortunas, das heranças. Todo mundo, inclusive a Miriam leitão, está criticando a política dos bancos, dos juros bancários. Virou um lugar comum ver hoje na televisão críticas aos juros extorsivos que são praticados no Brasil. Então acho que, no próximo governo, a coisa vai virar e vai se transformar. E acredito que o resultado vai ser positivo.”

DEDO NA FERIDA

O controle dos bancos e os males provocados pela financeirização são temas muito caros ao cineasta. Foram o coração de seu filme mais recente, “Dedo na Ferida” (que pode ser assistido de graça no canal de vídeo da produtora Caliban, AQUI). Ele explica por que escolheu esse tema e de onde surgiu o título:

“Essa questão da financeirização da economia e da política foi uma coisa que sempre me preocupou muito. Eu tenho amigos de todas as correntes políticas, inclusive conservadores. De repente, o que percebi que nos unia era a luta contra a financeirização, porque meu grande brother nessa área é um conservador. Politicamente ele pensa radicalmente diferente de mim, mas, em relação ao capitalismo, ele pensa muito parecido. Parece uma contradição, mas não é, porque ele é ligado ao capital produtivo. Ele investe, ele trabalha, ele gera empregos, ele faz a economia rodar, enquanto o sistema financeiro é só de papel. O sistema vende papel. Ele ganha dinheiro em cima de dinheiro, é o lucro fácil e absoluto, e não produz nada.”

“A ferida”, explica Tendler, “é o sistema financeiro internacional dominando a economia. O filme não defende uma tese. O filme apresenta um problema, discute a questão dos bancos, que volta a ser debatida na sociedade. É por isso que eu acredito no cinema político. Eu acredito que o cinema tem uma responsabilidade, a arte tem uma responsabilidade, e é importante fazer esse tipo de trabalho”.

Seu objetivo é gerar debate: “Eu não quis apresentar uma saída, eu deixo as pessoas discutindo. Elas saem do cinema discutindo: tem saída do capitalismo ou não tem saída? Só o socialismo salva ou existe o capitalismo que pode gerar empregos. Eu não quis responder a isso, eu quis perguntar. Eu quero que os espectadores perguntem discutam, falem”.

Lembra de outro filme que realizou, “O Veneno Está na Mesa”, sobre os agrotóxicos, que tem a mesma pegada, o mesmo foco em provocar debate, inquietude. Está dando resultado, acredita: “Hoje eu vi no Facebook que tem uma página que se chama O Veneno Está na mesa, e vejo as pessoas discutindo a questão dos agrotóxicos de uma forma viralizada. Eu fico feliz de saber que a arte ajuda a mudar o mundo”.

CINEMA DE SHOPPING

Silvio Tender falou também sobre o caráter de sua produção, como os filmes que fez e faz integram um grande projeto:

“Eles são um grande quebra-cabeças, que eu vou juntando caquinhos, pecinhas. Ora têm cara de labirinto, como o filme sobre o Glauber, ora cara de caleidoscópio, que é a cara do “Utopia e Barbárie”. E aí vou montando esse quebra-cabeças, tudo isso forma um grande e único filme. Eu tenho muitos filmes, mas eu percebo que todos eles dialogam entre eles. Eles todos formam uma grande viagem.”

O cineasta nos contou mais sobre sua viagem pessoal, sua trajetória, a descoberta do cinema, dos cineclubes e de sua própria capacidade de criar.

“Em 1964, vem o golpe de Estado, são presos muitos líderes sindicais, deputados, militares, e quem vai para a resistência ativa ao golpe são os artistas e os intelectuais. E eu, que sempre tive uma visão de mundo mais à esquerda, mais liberal, então eu começo a ver que os artistas são os que estão ajudando a mudar o mundo, e eu quero ser igual a eles.”

Partiu para fazer cinema. Participou de muitas empreitadas –ao longo de seus quase 40 anos de carreira, produziu mais de 70 filmes e 12 séries, recebeu prêmios de tudo quanto é tipo—e viu a indústria cinematográfica sofrer enormes modificações:

“Os cinemas todos mudaram para dentro dos shoppings. E isso mudou a natureza do espetáculo, mudou a demanda de consumo. As pessoas não vão mais ao cinema ver Fellini, Rossellini, Godard, elas vão ver blockbusters, entretenimento. Não tenho nada contra o cinema de entretenimento porque acho que a gente de vez em quando também quer se divertir. Agora: só isso? Pensamento único? Só um tipo de cinema?”.

As consequências, para quem trabalha fora –ou até contra— o pensamento dominante são dramáticas: “Acabou o espaço para os filmes da gente. Os filmes da gente hoje sobrevivem em pequenas salas, uma sessão por dia, para setenta espectadores. O nosso cinema está sendo assassinado. E aí vem a resistência. É muito fácil baixar a guarda e se entregar. Eu continuo resistindo, continuo fazendo meus filmes. Boto nesses cinemas, boto no YouTube, onde tiver um espectador, eu estou lá”.

Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena

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