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O legado da Greve de Osasco

SOLDADOS, ATENÇÃO!

A voz de comando não partiu de um oficial, mas, mesmo assim, a tropa reagiu na hora, toda empertigada, ao discurso que vinha do outro lado dos muros da Cobrasma, em Osasco.

Era José Campos Barreto, o Zequinha, que, do alto de um vagão, dizia aos policiais militares que ali, na greve que explodira na manhã daquele 16 de julho de 1968, podiam estar seus pais, primos, irmãos. Que não viessem, então, reprimir os trabalhadores, mas sim que virassem suas armas contra os seus comandantes.

Não chegaram a tanto, mas ficaram baqueados, sensibilizados –coisa que a própria oficialidade percebeu, mandando que os batalhões batessem em retirada.

Quem conta essa história ao TUTAMÉIA é João Joaquim, testemunha ocular da história. Ele estava lá, no alto do vagão, ajudando na organização do movimento -era então um dos diretores do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, que vem trabalhando na recuperação da memória daquele momento e que nesta segunda-feira, 16 de julho, faz uma celebração em homenagem aos 50 anos da Grande Greve de Osasco, realizada em plena ditadura militar.

Nascido em Presidente Prudente em 1942, filho de trabalhadores rurais que chegaram da Bahia por volta de 1940, João Joaquim era analfabeto até os 16 anos: “Eu morava na roça. Sabia capinar, bater feijão, catar amendoim. Ler e escrever, não”.

O aprendizado começou quando serviu ao Exército, onde também recebeu incentivo para buscar outros horizontes. Foi assim que viajou para Osasco, tentando a sorte em um concurso para a Polícia Rodoviária do Estado. Deu azar, mas tempos depois, com pouco mais de vinte anos, conseguiu entrar na metalúrgica Cobrasma, fabricante de vagões de trem.

“Entrei na fundição, numa seção chamada limpeza de acabamento, que tinha mais de 200 operários, para um total de cerca de 4.000 operários. Eu me sentia no inferno, era fogo para todo o lado, maçarico, solda. No meu primeiro dia de trabalho, um camarada chegou para mim perguntando seu eu era sócio do sindicato. Eu nem sabia o que era isso, mas o já me convidou para ir a uma assembleia na sexta-feira, que o povo estava lutando pelo adicional de insalubridade –eu também nem sabia o que era insalubridade.”

Foi o começo de sua participação no movimento sindical.

COMISSÃO DE FÁBRICA

“No ano seguinte, houve eleição para a comissão de fábrica, e eu já fiquei na suplência. A nossa comissão recebeu o nome de Comissão dos Dez, porque havia dez departamentos na fábrica, e cada departamento elegia um companheiro, um representante. Essa comissão é muito importante, pois posteriormente, na greve de 1968, teve grande participação na organização e mobilização dos companheiros.”

Antes disso, houve o golpe de 1964, a implantação da ditadura militar: “Foi uma baita cacetada nos trabalhadores, na classe operária, principalmente no Partido Comunista, sofreu uma varrida geral, um contexto muito pesado em cima dos trabalhadores, dos estudantes. Na empresa, houve uma varredura, muitas demissões. O sindicato sofreu intervenção”.

Apesar disso, a luta precisava continuar, ainda que de forma diferente. Seguem as comissões, que são base para a formação de uma chapa de oposição, a Chapa Verde, presidida por José Ibrahim, eleita em 1967. “Era com o pessoal jovem. O mais velho, João Batista Cândido, estava por volta de 40 anos. Ibrahim não tinha 21…”

Articula-se, em 1967, o Movimento Intersindical Antiarrocho. Em abril de 1968, os metalúrgicos de Contagem (MG) realizam uma greve histórica; em maio, em São Paulo, as comemorações oficiais da Dia do Trabalho são tomadas pelo movimento de protesto.

PRIMEIRO DE MAIO

“Era uma comemoração muito grande, com a presença do governador Roberto de Abreu Sodré e a participação de um sindicalista muito famoso na época, o Joaquim dos Santos Andrade, que a turma batizava de pelego. Tinha muita gente, não sei se chegava a dez mil pessoas, e a nossa palavra de ordem era não deixar os pelegos no palanque, inclusive o governador. A gente tentou tomar o palanque, fomos lá na frente, voltamos, uma sanfonada. Aí, não sei de onde, alguém mandou uma pedra que atingiu a cabeça do governador. Ele e mais alguns se refugiaram na igreja. Aí tomamos conta do palanque, teve discursos, e aí nós nos organizamos, saímos em passeata, descemos a rua 15 de Novembro, havia muitos estudantes também participando. Na marcha, íamos rasgando as bandeiras norte-americanas, puxando dos bancos, e chegamos até a praça da República. Tomamos conta da praça, no coreto havia até uma foto de Che Guevara. Como dizia o poeta baiana Castro Alves, a praça é do povo como o céu é do condor. Isso deixava louca a repressão.”

Nas fábricas, a mobilização também era grande, com muitas aventuras contadas em detalhes na entrevista, cuja íntegra você pode acompanhar no vídeo no alto desta página).

Na Cobrasma, houve um acidente de trabalho, um operário acabou morto.

“Aí funcionou a rádio peão. No dia seguinte, o enterro do companheiro estava marcado para as 9h30, paralisamos a empresa na hora do enterro do companheiro. O França Pinto, que era o manda-chuva do Cobrasma, estava andando pelas seções, fiscalizando. Quando ouviu o apito, ele puxou o relógio do bolso: Ué, não é hora do almoço, não é hora do café, o que está acontecendo? A empresa percebeu que tinha uma organização dentro da empresa, e que os trabalhadores tinham esse poder de articular, organizar. Foi muito marcante: cinco minutos, mas a empresa paralisou, parou tudo em homenagem a esse companheiro.”

GREVE!!!

No dia 16 de julho de 1968, o apito também soou fora de hora. No início da manhã, foi o sinal para o começo da greve, como conta João Joaquim.

“Eu estava no sindicato, fui para a fábrica um pouco antes, entrei pelas laterais, pulando o muro. O pessoal começou a parar pela minha seção, a limpeza de acabamento, que tinha mais ou menos uns 200 trabalhadores. Depois, a fundição, depois a forjaria, que era onde trabalhava o Zequinha, e assembleia permanentes dentro da empresa. Os engenheiros se recolheram para as salas deles, depois inventaram que estavam sequestrados, mas não é verdade isso. Foi um movimento muito grande. Muitos estudantes contribuíram. Eles rodavam panfletos no mimeógrafo a álcool, jogavam por cima dos muros, mantendo a chama acesa. Foi tentada uma conversa com o ministro do Trabalho, Jarbas Passarinho, tentadas muitas discussões, muitos acordos, mas não deu certo. A reivindicação era 35% de aumento, eles não chegaram a fazer nenhuma proposta.”

Sem negociação, a polícia chegou. Foi dissuadida num primeiro momento, mas voltou.

“Quando eles voltaram, aí vieram para descer o porrete mesmo, invadiram a empresa, houve choques, por volta de cem trabalhadores foram presos naquela hora”, lembra João Joaquim.

Apesar da prisão de várias lideranças, os dirigentes remanescentes trataram de tentar manter o movimento.

“Minha atuação foi dentro da empresa, permaneci lá, acompanhando também a organização, para não deixar o pessoal dispersar, conversando com o pessoal para manter o moral da tropa. O 16 de Julho foi um dia muito intenso. Tentamos segurar a participação por mais dois, três dias, teve uma participação muito forte, apoio de outras fábricas.

“Não foi só a Cobrasma.  Na Lonaflex, o companheiro Manoel Dias do Nascimento, que tem por apelido Neto, foi uma grande liderança, conseguiu a paralisação da empresa. E houve outras, não só metalúrgicas. Uma empresa química, que fabricava fósforos, a Granada, tinha 250, 300 moças que lá trabalhavam. Elas fizeram uma paralisação e saíram todas em passeata, passaram em frente à Cobrasma, bateram palmas e vieram para o nosso sindicato.”

LEGADO DO MOVIMENTO

Apesar de tudo, a forte repressão acabou derrotando a greve. Houve prisões, tortura, o sindicato sofreu intervenção. Por que então lembrar essa derrota?

João Joaquim responde:

“A greve de Contagem foi no dia 16 de abril, a nossa no dia 16 de julho. Dois companheiros nossos conversaram com eles, que contaram como foi o movimento, o que serviu inclusive para a gente refletir como a gente deveria organizar a nossa greve. O movimento sindical aprendia com o próprio movimento sindical. E eu creio que 1978, no ABC, foi um reflexo do que aconteceu em 1968. O legado da greve de Osasco é muito grande, a começar pela formação de lideranças e pelo despertar os trabalhadores para a participação política, partidária, um processo que, anos mais tarde, teve a formação do Partido dos Trabalhadores.”

Carlos Aparício Clemente, da atual diretoria do sindicato, que procura com muito empenho resgatar a história do movimento sindical, completa:

“A greve de 78, que vai explodindo em vários lugares a partir do ABC, vem dessa experiência mesmo, de 1968, de organização nos locais de trabalho, até porque as greves aconteceram a partir dos locais de trabalho, e não pelos sindicatos. Foi assim em Osasco, eu estava havia poucos meses na direção do sindicato, que não tinha absolutamente estrutura nenhuma –tinha um mimeógrafo a tinta. E aí começam a explodir greves aqui e ali, e o sindicato não tinha estrutura para acompanhar. Um dos legados é o sindicato perceber que precisava ter uma comunicação maior, estar mais presente na porta de fábrica, na organização, e também obrigou, com o passar do tempo, a que os dirigentes se qualificassem melhor –saber fazer uma assembleia rápida, entender o que está acontecendo em cada situação.”

Aí está, diz, a importância do resgate da Greve de 1968: “Foi um movimento histórico, que deu num novo olhar para o Brasil cinquenta anos atrás. A marca dos 50 anos, que celebramos nesta segunda-feira trazendo também os companheiros remanescentes da greve de Contagem e todo o movimento social, popular,  é um momento de resgate de passado para nos ajudar o olhar o hoje, o que está acontecendo hoje, para a gente conseguir mudar essa situação que está aí, com esse punhal nas costas dos trabalhadores”.

COM LULA, CONTRA O DESMONTE DO PAÍS

E o que acontece hoje?

“O que está acontecendo hoje é uma tragédia em termos das relações de trabalho, das relações sociais no país. Depois do golpe que retirou a presidenta Dilma, o que acontece é uma destruição de direitos sociais como um todo, o que pode levar a uma situação insustentável. Do ponto de vista trabalhista, há um desmonte dos mínimos direitos que se tinha. Convenções coletivas de trabalho começam a ser desmontadas, e mudanças na legislação que fazem que o trabalha assalariado, o trabalho com carteira registrada, o trabalho com direitos, garantias trabalhista e previdenciárias, esteja fadado a desaparecer. É uma situação muito perigosa.”

Para revertê-la, é preciso de luta, da participação dos movimentos sociais, do movimento sindical, afirma o dirigente. E a saída é política, afirma Clemente:

“O desmonte cada vez  está chegando e vai ficar uma situação muito difícil para os trabalhadores e para a sociedade em geral, se a gente não conseguir reverter esse quadro –por enquanto, o caminho que se tem por aí será pelas vias eleitorais.”

A esperança, acredita ele, é Lula.

“É um absurdo o que está sendo feito com o Lula. Desde o primeiro momento, o sindicato está a favor do direito de Lula ser candidato. Estivemos no Primeiro de Maio em Curitiba, estivemos no acampamento. É todo um absurdo que está vivendo, a gente entende que Lula está sendo sequestrado pela Justiça dentro de nosso próprio país.

“Se sua candidatura for de fato colocada na praça, ele será eleito sendo prisioneiro. Está clara essa situação, que é uma luta social. Estamos diante de uma luta social, e o sindicato está o tempo todo junto com as propostas do Lula em relação a ter um país livre e democrático, um país que respeite as pessoas, um país que garanta direitos trabalhistas, que garanta direitos previdenciários.”

A luta presente, portanto, está no coração do trabalho do sindicato ao resgatar a memória de mobilizações do passado e homenagear os que participaram dessas jornadas e os que tombaram pelo caminho.

Essa também foi a intenção de TUTAMÉIA ao dedicar o programa desta sexta-feira à memória de JOAQUIM DE LUCENA, combatente da democracia, lutador incansável contra as injustiças e pela promoção humana, pela participação do povo na definição dos rumos da sociedade. Assistente social gaúcho, apaixonado pela vida, perseguidor e construtor de sonhos, Lucena morreu no último dia dez de julho, aos 88 anos. Além do ensinamento que foi sua vida, deixa viúva, cinco filhos e quatro netas.

JOAQUIM DE LUCENA, presente, agora e sempre!

Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena

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