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“Não deixamos de ser resistentes”, diz Jean-Claude Bernardet

Filho de um militante da resistência francesa, que combateu o nazismo na França ocupada por Hitler, o cineasta, ator, escritor e jornalista Jean-Claude Bernardet mantém esse espírito ao analisar a situação brasileira, durante entrevista ao TUTAMÉIA:

“Não sou utópico, não sou um sonhador. Eu nunca sou pessimista nem otimista. Acho que a sociedade é um campo de luta, tem vencedores e vencidos, tem resistentes e outros que se entregam. Atualmente estamos vencidos, mas não deixamos de ser resistentes por causa disso.”

Ao longo de duas horas e meia (não deixe de assistir à integra da entrevista, no vídeo acima), Bernardet falou sobre sua trajetória pessoal, a luta contra a ditadura, as grandes discussões políticas e teóricas que dividem o mundo da cultura popular –afinal, o que é ou como deve ser a cultura popular ou a cultura produzida para o povo?.

Lembrou das contribuições de gente como os diretores Nélson Pereira dos Santos e Glauber Rocha  –e não se furtou a falar sobre suas divergências com o povo do Cinema Novo, vacas sagradas da história cinematográfica nacional.

Mergulhamos na história –dele e do Brasil—para chegar aos idos de março, ao Golpe de 1964:

“No dia do golpe, na madrugada de primeiro de abril, estávamos todos os jornalistas na Última Hora, na redação. Numa determinada hora, o editor geral do jornal disse o seguinte: “O golpe foi dado. Nós todos vamos sair daqui e nunca mais vamos voltar aqui”.

Saímos, eu fui em direção ao Teatro de Arena, mas depois resolvemos não ir, mas ficar rodando em volta para tentar fazer contatos. Fizemos isso, fizemos uma rede de informações, tosca, nessa região da Consolação, praça da República, tentando saber alguma coisa.

Eu morava no centro, mas preferi não ir para casa, porque poderia ser preso. No dia 2, resolvi ir para a casa dos meus pais para tomar banho. Quando cheguei na casa deles, meu pai disse que uma pessoa do teatro de Arena tinha telefonado, que era para eu desaparecer imediatamente, porque estavam atrás de mim.”

Naquela mesma madrugada, na Paraíba, o cineasta Eduardo Coutinho era obrigado a suspender as filmagens do documentário  “Cabra Marcado Para Morrer”. Os originais do filme que tratava das lutas camponesas na região tiveram de ser escondidos, pessoas que participavam da produção foram obrigadas a se esconder –como, em São Paulo, Bernardet tratava de procurar guarida longe do alcance da repressão.

Esse fato, a suspensão da produção do filme de Coutinho, é considerado por Bernardet uma das maiores tragédias provocadas pela ditadura no terreno da cultura em geral e do cinema em particular.

Isso porque ele considera que o filme de Coutinho, se concluído, apontaria novos caminhos para a produção cinematográfica da época, que era dominada pelo  Cinema Novo –também perseguido e censurado pela ditadura militar.

Na entrevista, Bernardet retoma as críticas que fazia ao rumo dos cinemanovistas. Eles, na opinião do cineasta, priorizavam a denúncia da miséria, mostravam em seus filmes um povo esmagado. Assim, avalia, “o cinema deles se afastava da luta popular”.

Tudo ao contrário do que Eduardo Coutinho (1933-2014) estava fazendo com “Cabra…”:

“Coutinho não conseguiu acabar o filme dele nos anos 60. Se ele tivesse conseguido, ele teria dado uma outra figura ao cinema, àquela faixa de cinema, o cinema culto dos anos 1960, da primeira metade dos anos 1960. O Glauber e o Nelson teriam tido um opositor. Teríamos passado de um povo esmagado, oprimido, sem reação, para um povo que reage, que age, que se organiza. A história teria sido outra. Essa é realmente uma das maiores desgraças culturais, pelo menos na área do cinema, que aconteceu durante a ditadura.”

E mais: “No filme do Coutinho, as pessoas que tinham participado e que participavam desses movimentos de luta camponesa interpretavam os seus próprios papeis. Isso trazia uma nova dramaturgia no Brasil. Não se criavam mais tanta diferença entre personagem e pessoa; as próprias pessoas interpretavam os seus personagens. Isso era absolutamente novo quando o Coutinho pensou isso. Só que isso não chegou até nós, essas informações de dramaturgia não passaram para nós”.

Por isso, Bernardet reafirma: “Acho que esse foi um dos maiores golpes da ditadura contra o cinema brasileiro. Acho pior do que ter feito cortes, censurado cenas… Aí mudou a história, esse não fazer o filme [impediu] as perspectivas que o Coutinho estava abrindo, que eram muito grandes, tanto ao nível político quanto no nível de dramaturgia e estética.”

Aos 82 anos, continua ativo –é o personagem principal, interpretando a si mesmo, no recém-lançado documentário “A Destruição de Bernardet”–, ainda que sofra com os males que lhe afligem o corpo:

“Eu pessoalmente me sinto um pouco fora. Eu não enxergo, não consigo trabalhar na internet. O que eu leio é o que minha secretária seleciona. Não reconheço as pessoas por causa de minha vista. Tudo isso dificulta muito minha participação. Eu sinto que estou caindo fora”, diz.

Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena

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