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Jack Vasconcelos conta tudo sobre o enredo da Paraíso do Tuiuti

Já saiu muito textão analisando o desfile da Paraíso do Tuiuti. Há quem comente a surpresa de narradores e comentaristas oficiais, há quem diga que o samba enredo marca a virada popular contra o golpe. Nós preferimos ouvir a própria escola falar. O carnavalesco Jack Vasconcelos assina o texto principal de apresentação do enredo da escola no manual distribuído pela Liga das Escolas de Samba, que a gente reproduz a seguir, respeitando o formato exibido no libreto da Liesa:

Carnaval Rio 2018 – Desfile na Sapucaí – Paraíso do Tuiuti – Grupo Especial – Gabriel Nascimento | Riotur

MEU DEUS, MEU DEUS, ESTÁ EXTINTA A ESCRAVIDÃO?

Velha companheira de caminhada da Humanidade.

A ideia de superioridade, divina ou bélica, cobriu-a com o manto do poder.

Pela força ergueu impérios e sustentou civilizações.

Pela alienação justificou injustiças e legitimou a discriminação.

Ganhou nome quando eslavos viraram ‘escravos’ nas mãos dos bizantinos.

Dominou mundo afora, invadiu terras adentro, expandiu a ganância mercantilista e fez da exploração do continente negro seu maior mercado.

Viu senhores mouros do norte africano ostentarem servos de pele alva e olhos azuis mediterrâneos, enquanto negociavam artigos de luxo e peças de ébano.

Cativou povos, devastou territórios, extraiu riquezas do solo e de animais em nome de coroas europeias.

Era rentável negócio até para chefes negros que a alimentavam com gente de sua gente. Levou uma raça a oferecer-lhe da própria carne. Separou famílias, subjugou reis, aprisionou guerreiros, reduziu seres humanos a mercadorias.

Calunga Grande muito ouviu os lamúrios dos Tumbeiros abarrotados em sua ordem. Calunga Pequena muito acolheu os vencidos pela sua sentença.

Plantou seus filhos em nossos canaviais, cafezais e minas de ouro e diamantes. Lavou com sangue negro o chão das senzalas e os pés-de-moleque das cidades. Foi senhora de todos os senhores, mãe das sinhás, amante dos feitores.

Marcou com ferro os que ousavam lhe renegar, levantar a cabeça. Perseguiu os de alma indomável que corriam ao encontro do sonho quilombola.

Quimeras da liberdade de uma raça pirraça fortificadas entre serras e matas que teimavam lhe enfrentar. Porém, as eras de prática envenenaram até as mais legítimas das lutas quando expuseram suas raízes humanas nos quilombos.

Provocou precisa e astuta fusão entre crenças apadrinhadas pela fé, amparo do rosário das desventuras nesse benedito logradouro.

Coroou santos reis e sagradas rainhas ao som de louvores batucados. Fitas da linha do tempo presente e passado. Espelhos da ancestralidade. Ouviu os ventos soprados de longe que ressoaram brados iluminados de liberdade pelas paragens brasileiras.

Abolir-te foi palavra de ordem. Utopia e justiça para uns. Falência e loucura para outros. Caminho sem volta para muitos.

“O homem de cor” ganhou voz pelas ruas, força nos punhos da população, para além das leis parcialmente libertadoras.

Contudo, mesmo enfraquecida, sobrevivia sob a égide dos grandes latifundiários e nas vistas grossas da hipocrisia. Ferida com a ponta afiada da pena de ouro que a áurea princesa empunhou ao assinar sua redentora extinção, maquinada por uma sedenta revolução industrial de sotaque inglês, caiu.

Uma voz na varanda do Passo ecoou: – Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão!

Folguedos, bailes, discursos inflamados e fogos de artifício mergulharam o povo em dias de êxtase e glória. Pão e circo para aclamação de uma bondade cruel, pois não houve um preparo para a libertação e ela não trouxera cidadania, integração e igualdade de direitos.

Mais viva do que nunca, os aprisionou com os grilhões do cativeiro social. Ainda é possível ouvir o estalar de seu açoite pelos campos e metrópoles. Consumimos seus produtos. Negligenciamos sua existência. Não atualizamos sua imagem e, assim, preservamos nossas consciências limpas sobre as marcas que deixou tempos atrás.

Segue vivendo espreitada no antigo pensamento de “nós” e “eles” e não nos permite enxergar que estamos todos no mesmo barco, no mesmo temeroso Tumbeiro, modernizando carteiras de trabalho em reformadas cartas de alforria.

……..

Carnaval Rio 2018 – Desfile na Sapucaí – Paraíso do Tuiuti – Grupo Especial – Paulo Portilho | Riotur

Depois da apresentação, assinada por Vasconcelos, a escola faz a justificativa do enredo, explicando por que resolveu não apenas contar a história da escravidão, mas também questionar seu fim. Será que ela não sobrevive até os tempos de hoje? O texto é o seguinte.

JUSTIFICATIVA DO ENREDO

“Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”

 Em 2018 se completam 130 anos da assinatura da Lei Áurea, que oficialmente aboliu a escravidão no Brasil, e 50 anos do desfile de um dos mais emblemáticos sambas de enredo sobre essa passagem história, o “Sublime Pergaminho”, pela escola de samba Unidos de Lucas. Seu famoso verso afirmativo, “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão!”, se transforma em uma pergunta no título de nosso enredo para refletirmos sobre a desigualdade e a exploração do trabalho.

A ideia de que algum ser humano é inferior a outro e que este pode, deve ou merece ser explorado acompanha a humanidade desde os tempos mais remotos e tem o uso da força, seja ela física, bélica, psicológica ou econômica, como seu principal instrumento.

Olhando a redução de pessoas como mercadoria, faremos um passeio pela Antiguidade, pelo comercio de escravos e sua utilização na formação de nosso país até a chamada “abolição da escravatura”. Ao final, trazendo para os tempos atuais, veremos as consequências sociais das práticas escravagistas, a existência do uso do trabalho escravo que persiste em alguns setores de produção econômica e a fragilidade das relações trabalhistas.

Será que após essa viagem, refletindo sobre a realidade cotidiana do Brasil, você será capaz de responder à pergunta do título de nosso enredo de forma positiva?

O documento da Tuiuti também explica a ideia em que se baseou cada um dos setores.

Setor 01 – “Meu Paraíso é meu bastião”

A escola de samba é um totem de cultura brasileira fortificado na capacidade de resistência dos mais pobres, na voz dos excluídos e na ancestralidade do sentimento comunitário. E, em meio a uma atualidade de exclusão social, desigualdade de oportunidades, intolerância às diferenças e ataque aos direitos básicos dos cidadãos, as escolas se tornaram uma espécie de quilombo contemporâneo onde suas comunidades encontram representatividade. Sendo assim, convoque seu guerreiro interior e venha para a luta!

 Setor 02 – “Pobre artigo de mercado”

A origem da escravidão, ou do trabalho compulsório, se perde nos tempos, aproximando-se das origens da própria civilização humana. Sempre uma grande tendência nas avaliações históricas, em classificar a divisão do trabalho de toda sociedade de classes, em três categorias possíveis de trabalhadores: livres, servos e escravos. Entretanto devemos nos remeter ao passado e observar que nem sempre a distinção entre escravos e homens livres foi tão clara.

Setor 03 – “Falta em seu peito um coração ao me dar a escravidão”

O poder gera exploração e conquistas territoriais expansionistas sempre produziram escravidão. Grandes reinos europeus espalharam seus domínios pelos oceanos e precisaram de mão-de-obra barata para extrair o máximo de suas colônias. Desta demanda de mercado, cresceria o maior comércio de escravos da história da humanidade em um dos continentes mais ricos do mundo…

Setor 04 – “Sofri nos braços de um capataz”

Exploração em cadeia: a metrópole (Portugal) explorava a colônia (Brasil), que explorava a mão-de-obra escrava (negros). A escravidão foi um dos principais pilares do período colonial brasileiro, gerando lucros e constituindo peça fundamental na formação da população brasileira. Além de viabilizar a exploração das terras, o tráfico negreiro potencializou o desenvolvimento de várias atividades econômicas e transformou o negro num povoador do Brasil, um criador, introdutor de técnicas importantes de produção agrícola e de mineração do ouro.

Setor 05 – “Um rito, uma luta, um homem de cor”

A colonização esteve sistematicamente aliada à exploração da mão-de-obra escrava. A propagação das ideias humanistas e o avanço da industrialização como produção foram enfraquecendo o conceito da legitimação da escravidão. Apesar da pressão de seus cidadãos e de uma intensa investida internacional, o Brasil foi o último país na América a abolir a escravatura. Pelo menos no papel…

Setor 06 – “Cativeiro social”

Apesar da assinatura da Lei Áurea, não podemos compreender a abolição como uma conquista significativa aos libertos. A Abolição não fora acompanhada por ações que promovessem a inserção do negro na sociedade. Dessa forma, a miséria e a desigualdade continuaram presentes no cotidiano dos libertos. Atualmente, vários problemas ligados à escravidão ainda estão por resolver nos campos social, político e econômico, contribuindo para que o trabalho escravo ainda seja uma realidade no Brasil, acometendo a liberdade do trabalhador e o mantendo submisso a uma situação de exploração.

Rodolfo Lucena

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