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‘Governo do Brasil é lesa-pátria, de traição’

“Se houvesse justiça e seriedade neste país, esse governo estaria no tribunal por crime de lesa-pátria. São traidores! Nós temos um governo entreguista, é parte desse processo do golpe”, afirma Guilherme Boulos, dirigente nacional da Frente do Povo Sem Medo e pré-candidato do Psol à Presidência da República em entrevista ao TUTAMÉIA.

Para embasar sua opinião, Boulos elenca uma série de ações dos golpistas, a começar pela negociação da base militar de Alcântara com os Estado Unidos –um dos assuntos que estaria na pauta do encontro de Temer com o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, que chegou hoje ao Brasil.

“No final do ano passado”, lembra o filósofo de 36 anos, “houve um exercício do Exército norte-americano na Amazônia. Coisa que nunca havia acontecido. É um disparate! Revigora aquele velho sonho deles de ter a Amazônia como território internacional. Dias atrás, o jambu foi patenteado pelos Estados Unidos. Um patrimônio cultural brasileiro, um patrimônio da diversidade amazônica foi patenteado nos Estados Unidos. Há poucos meses, houve aquele acordo judicial inexplicável, aquela multa que a Petrobrás pagou em Nova York, de dez bilhões de reais, sem ter sido condenada!!!”

Trata-se, diz ele, lembrando uma frase de Chico Buarque, da volta de uma política externa que fala grosso com a Bolívia e a Venezuela, e fala fino com os Estados Unidos.

Muito diferente do que ocorreu, por exemplo, no governo Lula: “Embora eu ache que poderia ter avançado mais, para além da integração econômica, para uma integração política sul-sul, mas o fato é que avanços que ocorreram naquele período, com o fortalecimento do Mercosul, o fortalecimento da Unasul, uma intervenção mais soberana do Brasil no cenário internacional, os Brics, o banco dos Brics, ou seja, o Brasil se colocou como uma liderança regional, como ator político e geopolítico no cenário internacional”.

O resumo da ópera: “O que nós vemos hoje é um apequenamento do país, um entreguismo deslavado. Não há como separar isso do processo que levou ao golpe”.

Por isso mesmo, Boulos repudia a tentativa dos golpistas de se apropriarem dos símbolos nacionais: “As cores da bandeira n acional não são da direita. Não achamos que esse lugar deva permanecer assim, não podemos naturalizar isso”.

Exatamente por isso, ele assistiu ao primeiro jogo da seleção brasileira nesta Copa do Mundo vestindo a camiseta verde-amarela do Brasil. Acompanhou a partida em um evento realizado numa ocupação do MTST e chegou a ser criticado: “Como???!! Você aderiu aos coxinhas!!”, disseram a ele.

Sua resposta: “É preciso recuperar esses símbolos. Nós temos de estigmatizar quem puxou aquelas manifestações e fez um verdadeiro estelionato, um estelionato para botar uma quadrilha no poder. Esse símbolo acabou ficando associado ao Temer no poder, que é quem tem menos legitimidade para reivindicar os símbolos nacionais, porque é um governo lesa-pátria, é um governo antinacional, é um governo entreguista”.

A questão nacional foi um dos temas tratados na conversa com Boulos, que também falou sobre o papel das Forças Armadas no atual momento brasileiro, a importância de Lula para a democracia no Brasil e as perspectivas da luta popular no país.

A seguir, trechos das reflexões do dirigente da Frente Povo Sem Medo e pré-candidato do Psol à Presidência da República (clique no vídeo no alto da página para acompanhar a íntegra da entrevista)

FORÇAS ARMADAS

A posição que prevalece hoje nas Forças Armadas brasileiras é preocupante, não só do ponto de vista de não ter uma posição mais enfática em defesa da soberania nacional, de não se colocar em relação a esses processos de entrega, mas principalmente é preocupante do ponto de vista democrática.

O papel que as Forças Armadas têm hoje na política brasileira elas não tiveram desde o fim da ditadura. É um papel quase que de tutela. Temos generais em cargos-chave do governo, temos um Estado sob intervenção, que é o Rio de Janeiro. Em Roraima, os imigrantes venezuelanos estão em abrigos sob controle do Exército! Há um papel cada vez mais forte do Exército em ações públicas, o que expressa um fortalecimento político e uma ideia… Mexe com uma coisa que eu acho que está guardada na sociedade brasileira –e que é muito perigosa–, a ideia de que militar resolve.

Estamos num período de altíssima insegurança. De medo. Há medo na sociedade brasileira. Não apenas o medo da violência, do desemprego, mas há o medo do amanhã. A sociedade vive um momento de depressão política, de muita insegurança, de falta de perspectiva. Quando estamos com medo, nós ficamos mais vulneráveis a soluções de força, a soluções autoritárias.

Isso ajuda a explicar a força eleitoral do Bolsonaro.

Isso tem um certo eco na sociedade brasileira. Num momento de tanta crise institucional, nós temos um sistema político implodindo, na lona, as soluções de força se tornam atraentes. Isso pode levar a soluções autoritárias no país, no curto ou médio prazo.

SUSPENSÃO DE ELEIÇÕES

Não acho que está posta dessa forma neste momento. O que me preocupa é um processo crescente de atuação dos militares na política, como aquele famoso tuíte do general Vilas Boas na véspera do julgamento do caso do presidente Lula no Supremo (STF). Vai lá e quase coloca a faca no pescoço da Suprema Corte! Faz uma espécie de chantagem, uma ameaça velada.

Isso é um sintoma. Revela um papel ativo de setores das Forças Armas no jogo político brasileiro. E isso é preocupante para a democracia.

JUVENTUDE DE DIREITA

Vivemos um momento de profunda desilusão. Na sociedade e, sobretudo, na juventude. Não para medir, numa régua, dizer que a juventude está á direita. Esse é um diagnóstico equivocado.
Essa mesma juventude que por vezes flerta com uma saída com a de Bolsonaro é uma juventude que há dois anos fez um dos movimentos mais extraordinários, ocupando escolas aqui em São Paulo, no Paraná, em várias partes do país.

Isso revela uma outra chave: a chave de um sistema político, a chave de uma crise de representação profunda. Estamos num abismo de representação, um apartamento entre o poder e as pessoas. O poder está muito distante das pessoas. Ninguém se sente representado por este sistema político, por esta forma de fazer política –e quem se sente assim tem suas razões. Esse sistema político não nos representa. O sistema político da Nova República está num processo de descolamento da sociedade e numa crise muito profunda.

Precisamos repensar a política brasileira. Precisamos de uma nova ordem política no país, de uma revolução democrática.

A situação atual gera um sentimento de antipolítica. Que não é de direita necessariamente. Quem tem se beneficiado disso é a direita. Mas esse sentimento é legítimo. A direita tem se beneficiado dele porque a esquerda não soube se colocar como alternativa.

Qual é o nosso desafio? É reorganizar um projeto de esquerda no Brasil quem seja capaz de se apresentar como alternativa á crise de representação, que seja capaz de dialogar com essa juventude que diz que não quer saber de política. Ou com 33 % da sociedade brasileira que diz que vai votar nulo, branco ou que não vai aparecer no dia.

LULA LIVRE

A condenação do Lula é uma farsa judicial. Lula foi condenado sem nenhuma prova, num processo político-midiático de linchamento. Todo mundo sabia a sentença antes de ela sair. Esta é a maior expressão de um julgamento político: a sentença já estava escrita quando o processo começou.

Ali se fez um teatro para manter os ritos que justificassem, de uma maneira formal, a condenação como foi feita. É inadmissível. Por isso nós estivemos em todos os momentos na linha de frente na defesa de Lula.

A prisão do Lula é um atrevimento político do andar de cima no Brasil, que faz uma prisão para impedi-lo de participar do processo eleitoral de qualquer maneira. É uma prisão política. É disso que se trata.

Lula é um preso político. Lula é vítima de uma farsa judicial e é um preso político no Brasil. Não tenho a menor dúvida em relação a isso.

Por isso tivemos a firmeza política de estar com Lula em todos os momentos. Minhas diferenças políticas com Lula, eu já oportunidade de colocar sentado numa mesa com ele, e coloco publicamente nos espaços onde eu vou.

Acho que faltou ousadia nos governos do PT para fazer enfrentamentos. Faltou ousadia de pautar temas como a democratização das comunicações, como a reforma política no Brasil, como a reforma tributária.

Não se fez. E eu acredito que havia força e oportunidade para fazer. Houve uma outra opção.

Agora, diferença política não pode significar conivência com a injustiça. Por isso, eu e meus companheiros da Frente do Povo Sem Medo e do Psol estivemos juntos. Quando se tratou do julgamento do Lula em Porto Alegre, estivemos aqui em São Paulo nas mobilizações, estivemos em São Bernardo do Campo naqueles dias fatídicos de resistência. O MTST esteve no apartamento do Lula quando o MBL foi para lá, em São Bernardo. O MTST ocupou o triplex no Guarujá para desmontar a farsa.

Nosso papel nesse processo de resistência democrática foi e segue sendo ativo em relação à defesa de Lula e do seu direito de participar do processo eleitoral.

Tentam retirá-lo do processo porque ele lidera as pesquisas. Isso está claro para o povo brasileiro: você conversa nas ruas com as pessoas, mesmo quem não gosta do Lula reconhece isso.

Então, que fique claro: o fato de termos diferenças políticas e de termos candidaturas diferentes não significa nenhum passo atrás em relação à defesa da democracia e dos direitos do Lula.

A luta pela libertação de Lula é central, e é algo que nós temos defendido em todos os espaços por onde passamos. No último mês, eu já estive algumas vezes em Curitiba, na Casa da Democracia, participando de ações. Não consegui ainda visitar o Lula por causa das restrições absurdas impostas a ele.

Nossa campanha entende como algo essencial para a recuperação democrática do Brasil e para se pensar em um projeto de Brasil, a lula pela libertação de Lula.

CONJUNTURA
É um momento de regressão profunda. O que o governo Temer fez em dois anos é o país andando décadas para trás. Coisas que, em certos aspectos, a ditadura não fez em 21 anos.

Reforça trabalhista: a CLT é de 1943. A ditadura em 21 anos não tocou na CLT. O temer em dois rasgou e jogou no lixo!

Congelamento de investimento públicos por 20 anos, que é o congelamento do futuro do país. Entrega do Pré-sal para empresas estrangeiras.

É um tamanho retrocesso que necessita de muita unidade para enfrenta-la. É uma unidade dos movimentos sociais, dos partidos políticos de esquerda, das forças democráticas da sociedade brasileira. Ela se apresentou de alguma forma em São Bernardo, naquele momento de resistência, ela se apresentou na luta contra a Reforma da Previdência…

REAÇÃO POPULAR AO GOLPE

A reação popular ao golpe foi aquém do esperado.

O que levou à apatia que se viu em parte do povo brasileiro, que não reagiu a esse processo? Digo em parte porque houve reação.

É uma mentira histórica dizer que não houve reação ao golpe. Como não houve? Nós tivemos mobilizações enormes. Nós barramos a reforma da previdência! Fizemos em abril do ano passado a maior greve geral da história deste país. Houve 200 mil pessoas na Esplanada dos Ministérios em maio do ano passado, o Temer chamou o Exército! Então, houve mobilização.

As nossas mobilizações não foram suficientes para reverter o processo. É disso que se trata.

Por que não? Cito pelo menos dois fatores. Primeiro: a esquerda, nos últimos vinte anos, deixou de fazer trabalho de base, politização da sociedade. Você pega os 13 anos de governo do PT. Houve avanços sociais inegáveis. Os de baixo ganharam –os de cima também, mas houve programas sociais, aumento do salário mínimo, melhor nas condições de vida da população, a política de cotas, acesso à universidade, programas habitacionais… É por isso que o Lula, depois de um massacre continuado, lidera qualquer pesquisa eleitoral com 30% ou 35% das intenções de voto. Isso não é por acaso. Tem aí um legado.

Agora: esse processo foi feito sem enfrentamento a privilégios, sem politização da sociedade, sem diálogo contínuo com o povo. Esse mesmo povo que ganhou com o governo Lula, alguns foram simpáticos ou até estiveram de verde-amarelo na avenida Paulista há três anos.

Por que? Porque não houve um processo de politização, de trabalho de base, de mobilizar as pessoas como parte do fazer político.

Foi perdido um elo, que precisa ser hoje reconstruído, com trabalho de base, uma construção de baixo para cima. Esse é um desafio que nós temos.

Um segundo ponto, que é a questão da mídia no Brasil. Temos um monopólio, que é inconstitucional. Democratizar os meios de comunicação no país passa, em primeiro lugar, por cumprir o que diz a Carta Magna: acabar com o monopólio, acabar com a concessão a políticos e valorizar formas de comunicação que não apenas a empresarial.

Quando se tem um pensamento único na mídia, a sociedade brasileira fica muito influenciada, é anestesiada. E isso atuou de maneira muito forte nos últimos anos para evitar processos de manifestação maiores.

DERROTAR O GOLPE

É possível derrotar o golpe nas eleições, ainda mais quando governo que representa o golpe tem 96% de impopularidade. É o governo mais rejeitado da história republicana. É um governo absolutamente impopular.

Acredito que, com a desmoralização desse governo, com sua ilegitimidade flagrante, há um espaço no processo eleitoral para uma vitória de nosso campo.

COM LULA?

Nós defendemos o direito de Lula ser candidato e esperamos que ele possa ser candidato. Mas essa vitória deve ser uma vitória desse campo. Nossa candidatura vai até o fim.

 

 

 

 

 

 

Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena

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