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Delegado Vermelho revisita conflitos da Vila Buarque

Delegado de polícia em plena ditadura militar, Marcos Gama foi candidato a prefeito de Cananeia pelo MDB e, “na brincadeira”, anunciou que, se eleito, libertaria a ilha do Brasil. A punição veio na hora: por ordem do coronel Erasmo Dias, o temido secretário de segurança que mandou jogar napalm nas estudantes da PUC, ficou detido por trinta dias no Palácio da Polícia em Santos. Durante o “gancho”, ajudou a criar a associação dos investigadores da cidade…

Por essas e outras, ganhou de amigos e inimigos o apelido de “Delegado Vermelho”; há também quem o chame de palmeirense comunista. Nunca teve carteirinha do partido, mas com certeza é apaixonado torcedor do Verdão; misturando tudo, trata-se de um dos fundadores da torcida organizada Porcomunas.

Nas horas vagas, escreve. No século passado, laçou um livro de crônicas. Agora, puxa da memória para revisitar seus tempos de juventude na Vila Buarque, efervescente bairro da região central de São Paulo.

Ali, viu Chico dedilhar “Olê, Olá” em meio a goles de batida servida num Penha-Lapa, apelido que o cantor deu ao copo grande, em oposição ao martelo, copinho pequeno tradicionalmente usado para servir pinga e outras beberagens com cachaça.

Também acompanhou a épica Batalha da Maria Antônia, enfrentamento provocado por integrantes do CCC – Comando de Caça aos Comunistas–, colocando para se digladiarem estudantes do Mackenzie e da USP. Ali perdeu um amigo, jovem de vinte anos assassinado a tiros por um dos defensores da ditadura militar.

Histórias como essas ele revive em “Vila Buarque – O Calda da Regressão”, que chega agora às livrarias editado pela Alameda, com prefácio assinado por José Dirceu, vizinho de bairro e de luta nos anos 1960.

Então um dos líderes do movimento estudantil, Dirceu afirma no texto em que apresenta a obra do Delegado Vermelho:

“Quando relembra a Maria Antônia e a luta contra a ditadura, o movimento estudantil de 1968, Gama me envolve e me confunde ao me tragar para dentro de suas memórias e lembranças: o bar do Zé, o Grêmio da Filosofia, a Quitanda, a FAU, as passeatas, a UEE (União Estadual dos Estudantes), as ocupações das faculdades, a luta pela reforma universitária, a provocação da direita e da polícia desde o Mackenzie e a tomada e destruição da faculdade, símbolo da rebeldia, criatividade, luta do movimento estudantil, luta contra a ditadura, Ibiúna e nossa derrota, prisão e exílio.

“Gama avança para nos trazer a alma, as dores e conflitos, dos paulistanos que conhecemos e convivemos naquelas décadas, o desassombro da ditadura e suas mazelas. (…)Desnuda como nossa elite trata os pobres e os deserdados, os que se rebelam e clamam por justiça e igualdade. Devagar e com precisão, ele adentra em seus personagens, que somos nós mesmos, dissecando sem piedade suas vidas.”

 

Rodolfo Lucena

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