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A VERDADE SOBRE A LUA DE SANGUE

por ULISSES CAPOZZOLI*

Na falta de notícias relevantes em economia e política, ambas descendo a ladeira, telejornais em horário nobre devem falar dos acontecimentos no céu nesta sexta-feira, 27.7. Não acredite em tudo o que vão dizer, com doses de exagero e simplificação. Mas aproveite para elevar os olhos para as estrelas e refletir sobre o que somos e onde estamos.

Serão três fenômenos ligeiramente concentrados em uma noite, se for levado em conta o eclipse total da Lua na sexta-feira.

Para um observador do Sudeste, a Lua se mostrará avermelhada no Leste logo que emergir acima da linha do horizonte. É a “Lua de Sangue”, expressão de conotação algo mística que sobrou de um passado medieval. A Lua aparecerá avermelhada, mesmo quando estiver inteiramente coberta pela sombra da Terra pela mesma razão que o Sol é rubro ao nascer e ao se pôr a cada dia. Mas é branco e de brilho intenso, por exemplo, ao meio-dia, o que significa que não deve ser observado a olho nu. E menos ainda por binóculos e telescópios. A observação direta do Sol pode queimar a retina e produzir cegueira.

A Lua estará avermelhada por efeito da atmosfera terrestre, que filtra parte da luz projetada sobre ela. Quanto mais poluída a atmosfera, entre outras fontes por atividade vulcânica, mais avermelhada estará a Lua. E a razão para isso é que o vermelho tem um comprimento de onda mais longo e serpenteia pela atmosfera com mais facilidade que a luz azul, curta, que, por isso mesmo, é rebatida por átomos da atmosfera como se fossem minúsculos espelhos. É isso que faz o céu parecer azul: a presença da atmosfera.

O eclipse lunar da sexta-feira é o segundo e último deste ano, com duração total de uma hora e quarenta e três minutos. Pode ser observado a olho nu, com binóculos, telescópios e fotografias.

Também nesta sexta-feira, Marte estará se encaminhando para a maior aproximação da Terra, o que acontece no próximo dia 31, terça-feira. Mundo mais próximo da Terra em todo o Sistema Solar (se for desconsiderada a Lua), Marte e Terra têm distâncias mínimas e máximas a cada dois anos.

Desta vez Marte estará em “oposição”, o que significa dizer, ao mesmo lado da Terra, em relação ao Sol. Em dois anos estará em “conjunção”, do outro lado do Sol. Marte e Terra têm órbitas elípticas, algo como um anel ligeiramente achatado, e essas órbitas fazem com que tanto aproximações quanto distanciamentos máximos tenham ligeira alteração a cada vez que ocorrem.

Na terça-feira, 31.7, Marte estará a 56,7 milhões de quilômetros da Terra, quase um terço da distância entre a Terra e o Sol. Em conjunção (do outro lado do Sol), os planetas se afastam a uma distância em torno de 370 milhões de quilômetros. Nestas noites, Marte está em uma posição do céu (Capricórnio) próxima a Júpiter (em Libra) e Saturno (em Sagitário). Esses são os nomes de algumas constelações zodiacais, mas sem nenhuma relação com astrologia, ainda que astrólogos defendam o contrário.

Para um observador no Sudeste do Brasil, logo ao anoitecer, por volta das 18h00, Libra já estará elevada no céu, quase sobre sua cabeça. Sagitário, trazendo Saturno, estará se elevando no horizonte à meia altura, e Capricórnio, com Marte, estará despontando no horizonte para culminar (atingir a máxima elevação, sobre a cabeça de um observador) por volta da meia-noite.

Um observador equipado mesmo com telescópio de pequeno porte poderá observar as quatro grandes luas de Galileu (Europa, Ganimedes, Io e Calixto) como minúsculos piolhos esbranquiçados que exigem certa acurácia visual para serem identificados.

Já Saturno exibe seus majestosos anéis, o que costuma produzir reações de encantamento em quem faz uma dessas observações pela primeira vez. Mas, neste caso, há um inconveniente. A Lua Cheia (quando ela pode ser eclipsada pela Terra, localizada entre ela e o Sol), logo ao final do eclipse, inundará o céu de luz e literalmente apagará o fraco brilho das luas de Júpiter e ofuscará os anéis de Saturno.

A luz da Lua (luz solar refletida pela Lua) também afetará a observação da chuva de meteoros Delta Aquarídeos, como o nome indica, com radiante (ponto de onde parecem emergir) na constelação do Aquário, que estará brotando no horizonte Leste por volta das 20h00. Essa chuva tem pico de intensidade entre sexta-feira e sábado.

Delta Aquarídeos é uma chuva com radiante duplo, fazendo com que alguns a considerem duas chuvas distintas. A primeira, Aquarídeos boreais, com 20 meteoros/hora e velocidade de 41 km por segundo. A outra, Aquarídeos austrais, com 10 meteoros/hora e à mesma velocidade. As duas associadas ao cometa periódico Encke, que a cada 3,3 anos cobre uma órbita que o leva das proximidades do Sol (periélio) até junto à órbita de Júpiter (afélio). Encke foi o segundo cometa periódico identificado, em seguida ao Halley. É uma montanha de rocha e gelo de aproximadamente 4,8 quilômetros. Uma batata irregular que voa como um pirilampo pelo Sistema Solar interior.

 

*ULISSES CAPOZZOLI é  escritor e jornalista especializado em divulgação científica

Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena

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