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A poesia veemente e irrequieta de Marx

Marx, o homem, o mito, o revolucionário, foi também poeta, romântico, apaixonado.

“Os poemas de Marx são de um lirismo exaltado, idealista, mas eles têm, a gente vê neles um desejo de liberdade erótica muito grande”, diz o estudioso de literatura Flávio Aguiar em entrevista ao TUTAMÉIA neste cinco de maio de 2018, quando se completam duzentos anos do nascimento do autor de “O Capital”.

Com uma vida inteira dedicada ao estudo da teoria literária, o professor, jornalista, documentarista e multipremiado escritor gaúcho acaba de verter para o português versos escritos por Marx em sua juventude –os textos saem na revista “Margem Esquerda”, da editora Boitempo, e aqui no TUTAMÉIA, com a devida autorização dos envolvidos.

Descobriu o que considera “um novo Marx”, que esteve ao longo dos anos escondido, relegado ao segundo plano. A obra poética e literária de Marx, que escreveu também pelo menos um romance e uma peça de teatro, mostram, no dizer de Aguiar, “um lado muito pouco conhecido da obra dele, tanto que as poesias só se tornaram conhecidas a partir da década de 1930, no século 20. Ficaram numa espécie de limbo”.

A maior parte da produção poética de Marx acontece na sua juventude, quando tem em torno de vinte anos. E dão pistas para compreender sua obra futura, na opinião de Flávio Aguiar: “Penso que o Marx literato pode nos ajudar a entender o Marx analista, o Marx político, o Marx revolucionário”.

Mesmo nos textos teóricos, diz Flávia Aguiar, Marx “nunca abandonou a inspiração literária. Era um estilista, escrevia com ardor, com estilo. Ele é muito veemente no que ele escreve”.

E continua: “Penso que Marx é um escritor onde se nota uma forte ressonância bíblica. O Marx analista, o Marx escritor do período adulto, o jornalista, o polemista, o autor de livros, ele carrega consigo cinco grandes fontes de inspiração. Três delas, na minha visão, são bíblicas, e duas delas vêm da tradição clássica, dentro do clima romântico”.

Com a ajuda do professor gaúcho, que hoje mora em Berlim –de onde nos concedeu entrevista via internet–, mergulhemos nos caminhos da poesia de Marx.

Fizemos isso devidamente paramentados, Flávio com a camiseta de seu time do coração, o Internacional de Porto Alegre, e Rodolfo vestindo o manto tricolor do Grêmio. Criou-se, na entrevista, um GRENAL marxista, sui-generis, em que todos atacam na mesma direção.

A seguir, destaques da entrevista com Flávio Aguiar, que você pode acompanhar na íntegra no vídeo disponível nesta página.

O TEMPO DO MARX POETA

O Marx poeta era um estudante. Saiu de Trier, onde nasceu e cresceu, e foi para Bonn. Estudou um tempo lá, e aí foi para Berlim.

Naquela época, não existia a Alemanha. Existia um sentimento difuso, da Germânia. Para muitos analistas, a Alemanha, naquela época, era muito mais uma língua, uma cultura, do que um território. O que havia era uma série de principados, ducados, reinos, que iam mais ou menos da atual fronteira oeste da Alemanha até territórios que hoje pertencem à Rússia.

Marx viveu nesse mundo, nesse universo. Vinha de uma família judaica –o avô dele fora rabino–, mas o pai dele, que era um burocrata no governo da Prússia, se converteu abertamente ao luteranismo. Marx cresceu nesse meio, mas depois declaradamente se tornou ateu.

Na universidade, Marx se envolveu com grupos da juventude rebelde. E tinha a grande paixão de sua vida, a Jenny von Westphalen, que era de uma família aristocrata.

Boa parte dos poemas que escrevia então eram poemas dedicados a ela, direta ou indiretamente. Há poemas em que ele põe o nome dela, e há poemas que são sobre o amor.

Esse jovem Marx escritor se integrou ao ambiente romântico que predominava nas universidades alemãs. Um romantismo peculiar, que tem uma série de raízes no que nós chamaríamos de um neoclassicismo do século 18.

Marx era um escritor muito prolífico. Escreveu poemas longos, marcados por formas tradicionais da literatura alemã. Escreveu muitas baladas –poemas narrativos–, epigramas –que são composições satíricas.

Ele levava muito a sério essa sua produção. Tanto que, em 1837, com 19 anos, ele dedicou um volume de suas poesias ao seu pai, homenagem ao seu pai, que morreria pouco depois. Em 1841, chegou a publicar alguns desses poemas em uma revista de Berlim chamada “Athenaum” (Ateneu), que acabou fechada pelo governo prussiano por ser subversiva.

Depois, ele abandonou, praticamente, a escrita literária, estrito senso. Ele se tornou jornalista, escreveu até para jornais dos Estados Unidos, escreveu seus livros, manifestos, polêmicas, notas, mas a produção literária, estrito senso, ele abandonou com a maturidade.

AS FONTES DE INSPIRAÇÃO DE MARX

Eu penso que o Marx analista, o Marx escritor do período adulto, o jornalista, o polemista, o autor de livros, carrega consigo cinco grandes fontes de inspiração. Três delas, na minha visão, são bíblicas, e duas delas vêm da tradição clássica, dentro do clima romântico.

Não se trata de dizer que Marx se inspirava nisso conscientemente. São formas de escrever que ele assumiu, que são consagradas pela tradição, que ele terminou também se adequando a elas. Ele entrou nessas formas.

O professor Northrop Frye, do Canadá, grande teórico da literatura do século vinte, dizia que os poetas não criam os poemas, são os poemas que estão latentes na língua que encontram os poetas de que precisam. O que ele queria dizer com isso é que a criação literária se integra em formas que vêm da tradição e que são apropriadas, deformadas, conformadas pelos poetas dentro de seu contexto.

Isso aconteceu com Marx.

A PRIMEIRA FONTE DE INSPIRAÇÃO da obra inteira de Marx –e de Engels também–, a primeira grande forma que Marx desenvolve em seus escritos está no livro do Êxodo, da Bíblia.

O livro do Êxodo é o primeiro livro revolucionário na grande tradição literária do ocidente. É o livro que narra a história dos trabalhadores, dos hebreus, que abandonam as classes dominantes à sua própria sorte e partem em busca de uma outra terra, de um outro mundo. Eu até brinco: de um outro mundo possível, como se fosse o Fórum Social Mundial.

Mas essa forma, enfim, da busca de um outro mundo, é uma forma que Marx incorpora: ele quer produzir esse verdadeiro êxodo –no caso—do proletariado de seus grilhões, em direção a um mundo onde eles sejam senhores igualitários.

A SEGUNDA GRANDE FONTE DE INSPIRAÇÃO DE MARX são os livros dos profetas bíblicos, particularmente daquele profeta que, no meu entender, é o mais revolucionário deles, que é Isaías.

Isaías invectiva –acho que muito juiz do Brasil de hoje devia ouvir o que ele diz: “Danados sejam aqueles que não ouvem o lamento do órfão e o choro da viúva”, ou seja, que não prestam atenção à desgraça das pessoas no mundo.

Os profetas na Bíblia não predizem o futuro. Os profetas advertem. Eles dizem: “Olha, vocês estão fazendo tudo errado. Se vocês continuarem a fazer tudo errado, olha o que que vai dar”. Como o povo continua a fazer tudo errado, dá aquilo que eles previam, as desgraças.

O Marx tem então esse sentido profético, de advertir como o mundo está desengonçado, como o mundo está imerso, preso nas suas contradições. O que determina essa forma de criar um estilo –mesmo analítico, mas bastante veemente. Também cria a ideia de uma elaboração de uma mística, porque o que os profetas, no fundo, exigem, é que as pessoas tenham um corpo de crença e vivam de acordo com essa crença, superem as suas contradições. E Marx chama seus leitores para se entregaram a esse sentimento, a esse chamado da história.

A TERCEIRA GRANDE FONTE está no Novo Testamento. Talvez particularmente Mateus, que também é o mais social dos quatro evangelistas (João, Lucas, Marcos e Mateus).

A estrutura do Antigo Testamento é cíclica, o povo escolhido está sempre na entre ganho e perda. A tradição cristã, no Novo Testamento, ela procura transformar essa estrutura cíclica numa estrutura realmente dialética, de superação. Chega-se a um ponto da história em que a história, por assim dizer, dá um salto e passa a ser outra coisa. E o Marx capta essa forma de pensar, que é tributária da tradição literária do ocidente, do cristianismo. Nem o classicismo, a tradição greco-latina, criou essa forma na sua maneira de pensar.

O pensamento cristão que dá esse salto. Cristo vem e é, por assim dizer, um cotovelo da história. Ele vem e muda a história. Depois vai vir uma segunda vez e mudar a história de novo, vai nos levar para um outro patamar. E é exatamente isso que está no cerne do pensamento de Marx: quando ele descreve a sociedade capitalista, ele está descrevendo o que ele considera uma pré-história da humanidade. Quando houvesse o salto, em direção a uma sociedade livre da exploração de uns pelos outros, livre da alienação provocada pelo fetichismo da mercadoria, aí começaria a verdadeira história da humanidade.

As outras fontes de inspiração de Marx vêm do classicismo greco-latino.

UMA É A ANATOMIA. Normalmente a gente associa a anatomia à medicina. Anatomia é o estudo das partes do corpo –todos lembram a [pintura] Aula de Anatomia do Rembrandt, os caras dissecando o corpo–, mas é um termo que vem também da teoria literária. Anatomia consiste justamente num processo analítico onde você decompõe um corpo –uma coisa inteira– nas suas partes para poder analisá-lo melhor, analisar como é que ele se constitui.

 

E é isso que Marx faz no “Capital”. Ele começa dissecando –o termo vem da anatomia—o modo de produção capitalista, dissecando o seu produto por excelência, que é a mercadoria. Em “O Fetichismo da Mercadoria”, capítulo que eu acho magistral, do ponto de vista do estilo, ele mostra como os homens se deixam ludibriar por essa fascinação que o seu próprio produto, que é a mercadoria, produz neles.

A ÚLTIMA FORMA DE QUE MARX SE VALE É A SÁTIRA, em particular a sátira menipeia, que consiste num processo que vem de um poeta grego, Menipo, que é uma análise das instituições contemporâneas, do comportamento contemporâneo num tom satírico e polêmico. E Marx era um grande polemista. Grande parte das obras dele eram polêmicas –com outros escritores, até com a tradição econômica anterior.

POESIA ROMÂNTICA – VISÃO BRASILEIRA

Penso que Marx nunca deixou essa paixão pela produção literária num sentido amplo da palavra. Não mais só criar poemas, escrever poemas líricos para sua amada Jenny, mas essa ideia de dar uma forma narrativa, a criação de uma grande narrativa que não só analisasse, mas explicasse e ajudasse a transformar o mundo, que é isso que ele queria produzir com a sua obra, com auxílio de Engels.

Se nós fossemos a aproximar o Marx poeta de nossa tradição brasileira, eu veria sua criação literária como uma espécie de mistura entre Casemiro de Abreu e Álvares de Azevedo. Românticos, mas ambos num tom exaltado. O Álvares de Azevedo era um grande polemista. Ele era chamado pelo pai dele de Farroupilha, por causa da Revolução Farroupilha. O pai considerava que ele tinha ideias exaltadas, perigosas, republicanas, coisas terríveis naquela época.

Casemiro de Abreu tem aquele tom lírico, bem tradicional, que às vezes para nós soa hoje em dia um pouco meloso, a gente associa o Casemiro de Abreu a uma poesia água com açúcar. Mas, na verdade, não. Na época, era uma poesia muito perigosa, porque era uma coisa erótica.

Os poemas de Marx são de um lirismo exaltado, idealista, mas eles têm, a gente vê neles um desejo de liberdade erótica muito grande. É um lado muito pouco conhecido da obra dele, tanto que as poesias dele só se tornaram conhecidas a partir da década de 1930, no século 20. Elas ficaram numa espécie de limbo.

IRREQUIETO, CRIATIVO, ATUAL  

Estudando a obra completa de Marx –não só seus livros, mas anotações, bilhetes, comentários, tudo –, o Marx que sai daí é um Marx muito mais irrequieto, criativo, cheio de dúvidas, de voltas e reviravoltas de seus caminhos, um Marx que tem interesses muito grandes.

Ele tinha interesse muito grande em antropologia, na linguística, no estudo da linguagem, no estilo –como eu falei, ele era um estilista: em suas obras, mesmo em “O Capital”, ele recorre algumas vezes a imagens da literatura gótica. Ele considera, por exemplo, o capital um vampiro que suga o sangue dos trabalhadores…

Esse Marx é muito mais interessante para a atualidade, inclusive para nós hoje repensarmos aquilo que ele pensou, repensarmos com ele, a partir dele, do que o Marx acadêmico, que ficou incrustrado num nicho da história, submetido a muitas e diferentes interpretações que querem, por assim dizer, coá-lo para nós. Ele na verdade era um espírito extremamente aberto, extremamente irrequieto, que estava sempre querendo se renovar. Ele estava sempre querendo repensar o que ele tinha pensado. Ele é de fato um criador, na acepção mais interessante da palavra.

POEMAS TRADUZIDOS – A CONDIÇÃO DA MULHER

O que a Boitempo mandou para mim foram traduções literais, simplesmente o sentido mais direto das palavras. Enviaram para eu dar uma revisada. Disse que se tratava não só de revisar, mas de procurar dar uma forma poética para isso, tentar obedecer a padrões de métrica e rima. O que eu fiz em relação a esses poemas foi dar a eles uma forma poética na nossa língua portuguesa do Brasil.

É um conjunto que o Michael Heinrich [autor de alentadíssima biografia de Marx] reuniu, que eu traduzi como o “O Canto Rebelde da Noiva”.

Criou-se em torno do Marx uma ideia de que ele era muito machista. Mas não… Ele se preocupava muito com a condição da mulher, e esse conjunto de versos revela isso, em que a noiva fala, em seu canto rebelde:

“O CANTO REBELDE DA NOIVA”

Tomaram-me o céu clemente

E assim me vi assaltada,

Minh’alma, que em Deus fora crente,

Descobriu-se no Inferno enterrada.

 

E eu devo em grilhões me quedar

Atada ao homem malsão.

Um bom Deus não virá me salvar

Do mergulho na escravidão.

(…)

Orgulhosos, os montes reclinam

E o céu com seu ouro se ri;

Pois de olhar os homens declinam

Em seu brilho vaidoso de si.

 

O tempo segue brotando suas flores

Pois nada de mais se passou;

A morte engolfou com ardores

O coração que p’ra sempre calou.

 

A noiva, que casou contra a vontade, protesta contra a sua condição. Ela se vê nisso que ela considera inferno.

Aqui vemos algumas das preocupações centrais da poesia de Marx.

A primeira é a dicção simples, o verso simples, que não é longo. É um verso cadenciado, que tem uma dicção fácil de ser apreendida e de ser reproduzida.

Segundo, esse jogo, que ele sempre faz, entre o alto e o baixo, o céu e o inferno.

Alguém pode dizer que a noiva rebelde foi condenada ao inferno. Tudo bem, é verdade, mas é daí que vem a inspiração poética; é da busca da liberdade. Reconhecer sua condição e valer-se da palavra para, mais do que declamar, proclamar a busca da liberdade.

E isso Marx levou pelo resto da vida. É dessa condição infernal que vem o canto da liberdade.

Isso vem desde John Milton, da Inglaterra. No canto segundo, do paraíso perdido, os diabos se veem no inferno, em que foram lançados, e Lúcifer convoca uma assembleia—olha só que ideia subversiva. Lúcifer tem a cabeça de um estadista. Ele diz: Nós temos de lutar pela nossa liberdade. Estamos numa situação em que é preferível ser senhor no inferno do que servo no céu”

Nossa! Só faltava dizer: “Demônios do mundo inteiro, uni-vos! Nada tendes a perder senão as vossas cadeias!”

POESIA SATÍRICA

Além desse Marx incendiário, há um lado satírico, como mostra esse poema sobre o Juízo Final, que traduzi assim:

“O JUÍZO FINAL: QUE PIADA!”

Caramba! Tal vida na morte,

Com seus hinos sacros de louvor,

Deixa-me os cabelos em pé por tal sorte

E minh’alma tomada de horror.

(…)

Teremos de louvar Deus, o eterno,

Aleluia! todo o tempo gritando

Sem cessar este canto sempiterno,

Prazer e dor para sempre olvidando.

No poema, então, o mundo da consolidação dos poderes divinos aparece como um mundo de tédio realmente infernal, aquilo tudo se repetindo sempre, esquecendo daquilo que movimento a história dos seres humanos, que é o prazer e a dor.

Enfim, os poemas revelam um lado extremamente criador e criativo de Marx, que mostra também uma grande fidelidade dele a ele mesmo, a si mesmo. É uma coisa admirável, é um novo Marx a descobrir. Convido vivamente a todos a descobrir esse novo Marx.

 

 

Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena

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